KIEV — A Ucrânia está cada vez mais preocupada em obter sistemas de defesa antiaérea Patriot de fabricação americana, já que os estoques enviados durante o governo Biden estão se esgotando e o governo de Donald Trump resiste a enviar mais, de acordo com seis autoridades ucranianas e ocidentais.
Enquanto a Rússia bombardeia a Ucrânia com drones e mísseis de cruzeiro, os mísseis balísticos são os mais temidos — e somente os mísseis Patriot são capazes de neutralizá-los de forma confiável. Mísseis balísticos viajam a vários quilômetros por segundo e destruíram metade da capacidade energética da Ucrânia em ataques contra usinas em 2023 e 2024.
Sua velocidade e tamanho, somados à dificuldade de interceptação, tornaram os mísseis balísticos uma das armas mais eficazes do arsenal russo, especialmente contra infraestrutura.
A extrema necessidade da Ucrânia por mísseis Patriot ficou evidente no fim de semana do Memorial Day, quando suas forças de defesa antiaérea não conseguiram interceptar nenhum dos nove mísseis balísticos lançados entre a noite do sábado e a madrugada do domingo. Dois mísseis tiveram Kiev como alvo, de acordo com as forças de defesa antiaérea da Ucrânia, onde, acredita-se, pelo menos duas unidades Patriot estão estacionadas.

Além dos mísseis balísticos, a Rússia disparou mais de 900 drones e 65 mísseis de cruzeiro no fim de semana, em um dos maiores ataques da guerra, um sinal de que a Rússia está intensificando a ofensiva após uma relativa diminuição em maio. A grande maioria dos ataques aéreos não balísticos foi interceptada ou se perdeu em ação, segundo relataram as forças de defesa antiaérea da Ucrânia.
O presidente Donald Trump condenou a Rússia pelos ataques na noite de domingo, mas não prometeu nenhuma ajuda militar adicional. O presidente russo, Vladimir Putin, “ficou completamente LOUCO!”, escreveu Trump no Truth Social.
A principal ajuda militar adicional que a Ucrânia solicitou ao governo americano são mais mísseis e lançadores Patriot, “que, francamente, nós não temos”, disse o secretário de Estado, Marco Rubio, durante uma audiência da Comissão de Relações Exteriores do Senado, na terça-feira.
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Rubio disse que os Estados Unidos estão “incentivando” seus aliados da Otan a doar mísseis e sistemas Patriot de seus estoques. Mas, acrescentou, “nenhum desses países quer abrir mão de seus sistemas Patriot”.
Um diplomata europeu que trabalha em Kiev disse que a fabricante americana Raytheon ainda está expandindo suas linhas de produção para atender à demanda pós-2022. “Os EUA precisam manter uma certa quantidade para sua própria defesa, em caso de um ataque do Irã ou de outro adversário”, disse o diplomata. Assim como outras autoridades e diplomatas entrevistados, ele falou sob condição de anonimato, pois não estava autorizado a conversar com repórteres.

Autoridades de Kiev, no entanto, acreditam que o governo Trump mais estaria disposto a vender Patriots à Ucrânia em vez de enviá-los como ajuda, como o governo Biden. Um alto funcionário ucraniano disse não esperar que Washington bloqueie a venda de futuros sistemas de defesa aérea para a Ucrânia, mas entende que a Casa Branca “não os dará de graça”.
“Eles pensam como empresários. Se eu lhe dou algo, você tem de me dar algo em troca”, disse ele. “Temos de nos adaptar a isso.”
Porta-vozes do Pentágono e do Conselho de Segurança Nacional não retornaram pedidos de comentários para discutir a assistência de segurança dos EUA à Ucrânia.
Enquanto isso, os aliados da Rússia continuam a demonstrar apoio. A Coreia do Norte forneceu ao Kremlin cerca de 250 mísseis balísticos desde o outono passado (Hemisfério Norte), de acordo com a inteligência militar ucraniana. Relatórios da defesa antiaérea da Ucrânia indicam que a Rússia utilizou mísseis norte-coreanos KN-23 em seis das nove ofensivas balísticas contra alvos ucranianos em maio — incluindo o ataque massivo do domingo, de acordo com as forças de defesa antiaérea da Ucrânia.
O governo Trump permitiu que a Alemanha reexportasse componentes de sistemas Patriot para Kiev depois que a Ucrânia assinou o acordo sobre exploração de minerais, em abril — os EUA possuem poder de veto sobre a revenda de qualquer equipamento militar que exportem. Nas últimas semanas, o ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, disse a repórteres que seu país forneceria mísseis Patriot à Ucrânia, juntamente com quatro sistemas IRIS-T, uma arma de curto e médio alcance eficaz contra mísseis de cruzeiro, mas não contra mísseis balísticos.
Berlim, contudo, planeja enviar à Ucrânia seus antigos mísseis PAC-2 Patriot, que, ao contrário dos novos mísseis PAC-3, não são tão eficazes na interceptação de mísseis balísticos, disse o diplomata europeu.
O único sistema além do Patriot capaz de abater um míssil balístico seria o Aster, de fabricação europeia, embora isso não tenha sido comprovado, acrescentou.
Um alto funcionário da inteligência ucraniana, que não tem permissão para falar publicamente, afirmou que nem os mísseis PAC-3 conseguem interceptar o Oreshnik, o novo míssil balístico intermediário da Rússia, revelado com grande alarde em novembro.
Embora possa usar suas próprias defesas aéreas desenvolvidas internamente e a ajuda europeia para combater drones e mísseis de cruzeiro, a Ucrânia ainda precisa dos mísseis e sistemas Patriot para interceptar mísseis balísticos, disse o alto funcionário da inteligência ucraniana.
Em 2025, dezenas de civis foram mortos em ataques com mísseis balísticos russos. No Domingo de Ramos, em meados de abril, 35 civis foram mortos e 113 ficaram feridos em um ataque contra a cidade de Sumi, no nordeste ucraniano. O ataque ocorreu pouco mais de uma semana depois de 20 pessoas, incluindo nove crianças, terem sido mortas e outras 75 ficarem feridas quando um míssil balístico atingiu um playground na cidade de Krivii Rih, no sul da Ucrânia. Autoridades afirmam que ambos os ataques envolveram mísseis russos Iskander.
O funcionário de inteligência afirmou que, devido à velocidade e ao tamanho das ogivas balísticas, ter mísseis Patriot suficientes é uma questão de “vida humana”. Alguns membros do governo americano entendem, disse o funcionário, mas outros não, que “cada Iskander pode matar centenas de pessoas”.
Para outros países, doar mísseis ou sistemas Patriot para a Ucrânia é um pedido enorme, acrescentou o funcionário, porque os equipamentos são caros e compõem uma parte importante do aparato de segurança nacional de cada país.

“Eles deveriam comparar as vantagens entre apoiar a Ucrânia e se enfraquecer”, disse a autoridade. “Nós estamos trabalhando em estreita colaboração com os americanos. Somos muito gratos a eles por estes sistemas, mas sua quantidade está muito longe de ser suficiente, realmente muito longe.”
Aliados da Otan estão em negociações há semanas para encontrar mais sistemas Patriot para a Ucrânia, potencialmente de algum país da Europa, mas não houve avanços, de acordo com três autoridades europeias.
“Há discussões do tipo ‘podemos abrir mão deste, mas queremos um novo por um preço mais barato’“, disse uma das fontes, descrevendo negociações para obter novos sistemas dos EUA em uma data futura em troca de entregar um dos seus à Ucrânia neste momento.
A questão das defesas antiaéreas será discutida quando o secretário de Defesa, Pete Hegseth, visitar a sede da Otan para uma reunião no início de junho, disse essa autoridade, acrescentando que o anúncio de um compromisso com o envio de Patriots para a Ucrânia poderá ser feito por essas datas, mas não pelos EUA.
O governo Trump parece relutante em fazer grandes anúncios sobre envios de armas para Kiev, acreditando que isso poderia inviabilizar negociações, acrescentou a fonte. “Agora eles parecem pensar que um grande anúncio de envio de mísseis Patriot para a Ucrânia não é algo desejável, porque irritaria Putin demais”, disse a autoridade. “Eles teriam ficado muito preocupados com a possibilidade de colocar em risco qualquer potencial negociação de paz.” / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO




