Geração Z odeia usar e-mails, busca conforto nos apps de mensagem e sente dificuldades no trabalho

Ausência do imediatismo das mensagens instantâneas gera ansiedade e confusão entre os mais jovens

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Por Henrique Sampaio
Atualização:

Até meados dos anos 2000, a arroba, popularizada pelos e-mails, estava estampada por todos os lugares como um símbolo da nova era digital: mais veloz, conectada e global. Mas o que antes indicava modernidade virou um sinal de atraso para a geração Z (nascidos entre 1995 e 2010). Pior: o correio eletrônico virou um gatilho de ansiedade, confusão e dificuldades no mercado de trabalho para a geração mais digital da história.

É claro que esse grupo não trocou a vida online por uma rotina desconectada. Em vez dos e-mails, a comunicação digital dessas pessoas ocorre preferencialmente em apps de mensagens, como o WhatsApp, ou pelas mensagens diretas (as famosas DMs) de redes sociais, como Instagram e X (antigo Twitter). Mas agora, que estão entrando no mercado de trabalho e na universidade, acabam tendo que lidar na marra com a clássica ferramenta, vista por eles como lenta, burocrática e desnecessariamente formal.

E-mail não é a forma preferida de comunicação digital da geração Z Foto: Pavel Vladychenko/Adobe Stock

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De acordo com a pesquisa sobre Uso das Tecnologias de Informação e Comunicação nos Domicílios Brasileiros de 2022, divulgada pelo Comitê Gestor da Internet, 93% dos participantes afirmaram usar mensagens instantâneas, fazendo dessa a atividade mais realizada pelos brasileiros na internet. O envio e recebimento de e-mails é realizado apenas por 62% da população, uso inferior ao das redes sociais (80%) e chamadas de voz e vídeo (77%).

“Acho que tudo começa quando você vai fazer 18 anos”, diz Alex Victor de Andrade, hoje com 21 anos e estagiário na área de desenvolvimento de software. Conforme ele foi entrando na vida adulta, o e-mail foi se tornando mais presente, substituindo a comunicação espontânea e leve com os amigos da escola pelas responsabilidades e burocracias com Enem, vestibular, faculdade e trabalho.

Isso não quer dizer que Andrade não lidou com e-mails antes disso. “Quando eu era criança tive um e-mail alexferrari”, conta, uma referência à fabricante italiana de carros esportivos, da qual é fã. “Já tive alexbatman também”. Mas o propósito era outro.

Os e-mails eram usados exclusivamente para a criação de contas em serviços ou redes sociais, mas quando passou a se preparar para faculdade e mercado de trabalho, criou seu e-mail “de adulto”. “Mas se não fosse por isso, eu nem usaria”, reclama.

Sem que a comunicação via e-mail seja necessária em seu ambiente de trabalho, a estudante e auxiliar de restaurante Nicole Christine de Souza Nunhez, de 21 anos, só utiliza a ferramenta na faculdade e no cadastro de aplicativos, serviços e redes sociais. Mais acostumada com o WhatsApp na comunicação do dia a dia, a jovem não se sente tão confortável com a ferramenta. “Acho estranho ter que colocar o endereço da pessoa, um assunto, sempre fico meio perdida”, diz. “Se eu pudesse eliminar o e-mail, com certeza eu preferiria me comunicar pelo WhatsApp. Lá dá para mandar arquivos, áudio, documento e acho que seria muito bom.”

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Conflito de gerações

A falta de habilidade desses jovens com a ferramenta fica evidente para gerações mais antigas. A professora universitária e coordenadora de curso Beatriz Blanco conta que é comum receber e-mails sem assunto ou, pior, com todo o conteúdo da mensagem colado no campo de assunto, com o corpo do e-mail completamente vazio. “Também recebo e-mails excessivamente formais, de um jeito que nem os funcionários da faculdade usam entre superiores, com termos como ‘prezada professora’ ou ‘atenciosamente’.”

A luta diária da docente é tentar remover o WhatsApp da conversa. “No começo do semestre, eu mandei um e-mail para todas as turmas avisando que a forma de comunicação oficial do centro universitário é o e-mail e que eu não responderia mais solicitações via WhatsApp. Só que todos os dias acabo recebendo mensagens, que eu sempre respondo pedindo para enviar por e-mail.” Beatriz justifica aos alunos que o uso da ferramenta é para a segurança deles devido ao registro dos diálogos e documentos, que podem ser apagados no mensageiro instantâneo.

Andrade confessa que, no início de sua faculdade, foi um dos que cometeu a gafe de mandar o conteúdo do e-mail no campo de assunto, mas que, conforme foi se acostumando com a ferramenta, passou a utilizá-la corretamente.

Jéssica Gondim, gerente de projetos da Companhia de Estágios, empresa de recrutamento e seleção para o mercado de trabalho, defende a nova geração. “A gente coloca uma expectativa em cima da geração Z porque eles nasceram com celular na mão, então espera-se que, por serem tão tecnológicos, eles vão saber tudo”, diz ela, que trabalha com jovens aprendizes. “Mas a realidade é que o foco sempre foi entretenimento, redes sociais e jogos, que embora tenha facilitado alguns aprendizados, como idiomas, não dá para se esperar que eles já venham com conhecimento para o mercado”.

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Gondim faz parte de uma geração, os millenials, que foi introduzida à tecnologia por meio de cursos ou aulas de informática, onde se aprendia a utilizar softwares de e-mail como o Outlook e o pacote Office. E, das ferramentas clássicas de produtividade, não é só o e-mail que recebe resistência da geração mais nova. Jéssica conta que tem uma estagiária que pede para usar o Canva em vez do PowerPoint, plataforma de design gráfico que traz modelos prontos e assistência por IA.

Mas nem quando Andrade aprendeu a utilizar corretamente o e-mail no ambiente universitário ele mudou de opinião sobre a ferramenta. “Acho o e-mail arcaico”, opina. “Não é como se o e-mail tivesse que acabar, mas o Microsoft Teams, por exemplo, é bem mais dinâmico.” A plataforma de trabalho da Microsoft unifica comunicação de equipes por meio de bate-papo, videoconferências, armazenamento de arquivos e aplicativos. Para Andrade, um e-mail tem um peso diferente de uma mensagem. “Tem um imediatismo. Mensagem você vê e já resolve na hora. O Teams fica aberto o dia inteiro. Se chegar uma notificação agora, vou olhar, mesmo se eu já saí do meu horário de trabalho. E-mail eu abro duas vezes por dia.”

Lentidão do e-mail gera ansiedade

A demora na comunicação por e-mail, seja pela falta de notificação ou por não ter a sensação de urgência que os mensageiros instantâneos costumam carregar, traz alguns efeitos curiosos. Beatriz cita uma ansiedade nos alunos, que optam por mandar um e-mail juntamente com uma mensagem de WhatsApp, só para avisar a professora do envio. “O tempo do e-mail é diferente e eles ficam bem ansiosos sem uma resposta quase imediata. E essa tensão de responder o WhatsApp o tempo todo chegou a me adoecer, então tive que mudar minha postura também por isso.”

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Segundo a psicóloga clínica Evelise Carvalho, especializada em adolescentes e mídias digitais, o imediatismo é uma das características mais marcantes da geração Z, acostumada a ter respostas instantâneas literalmente na palma das mãos. “Quando confrontada com métodos de comunicação como o e-mail, que carece dessa instantaneidade, surgem dificuldades.” Para a psicóloga, a grande carga de e-mails promocionais e spam, que costumam lotar nossas caixas de entradas, exigindo sua manutenção, pode contribuir para tornar a ferramenta tediosa. “Esta geração tem uma preferência por conteúdo visual em detrimento da comunicação baseada em texto, principalmente textos longos, portanto plataformas como TikTok e YouTube, que priorizam conteúdo em vídeo, são mais atraentes para eles do que o e-mail tradicional.”

A ausência de recursos de confirmação de leitura e edição em tempo real no e-mail, presente nos mensageiros instantâneos e agora até mesmo nas mensagens diretas do Instagram, também torna a ferramenta antiquada perto dos aplicativos mais modernos. “O e-mail não oferece feedback imediato, o que pode gerar ansiedade e angústia para uma geração habituada à rapidez da internet e comunicação. Algo que pode parecer estranho para outras gerações que estavam habituadas a ter que esperar até o final de semana para conectar na internet ou mesmo ter que buscar na enciclopédia Barsa para algumas respostas,” diz a psicóloga.

Por conta dessa preferência (ou condicionamento) dos mais novos às mensagens instantâneas, empresas acabam lidando com uma resistência dos mais jovens às ferramentas mais antigas. Gondim, da Companhia de Estágios, vê esse comportamento nos estudantes, candidatos do mercado procurando vagas e até mesmo no time interno. Em vez de lutar conta, sua empresa de recrutamento tenta se adaptar.

“Já temos um serviço de TI trabalhando para que a gente possa fazer a convocação de candidatos via WhatsApp porque já percebemos que o retorno deles é muito maior quando fazermos as tratativas por lá, diferentemente do e-mail, que pode levar uma semana para termos uma resposta” diz. Com sua equipe interna, contudo, a gerente de projetos precisa sempre lembrar sua equipe de que o e-mail ainda é a ferramenta oficial para formalizações, comunicações e envio de documentos, uma vez que, ao contrário do WhatsApp, mensagens enviadas não podem ser apagadas para todos, incluindo os destinatários.

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