Twitter perde usuários sob gestão Musk, mas reinado da plataforma continua inabalável

Rivais surgem tentando ocupar vácuo do microblog, mas ‘hype’ desaparece pouco depois

PUBLICIDADE

Foto do author Guilherme Guerra
Por Guilherme Guerra
Atualização:

Não dá para dizer que os últimos meses foram tranquilos para o Twitter, que vem encarando encolhimento nos números de usuários e de receita publicitária — a gestão Elon Musk, iniciada em novembro de 2022, parece aumentar a sensação de problemas. Ainda assim, a plataforma que consagrou o passarinho azul segue ostentando relevância entre as diversas redes sociais, e parece pouco ameaçada pela concorrência.

PUBLICIDADE

As mudanças não foram poucas nos últimos tempos: cerca de 75% dos funcionários foram demitidos, apagões inexplicados aconteceram, a política de moderação de conteúdo foi afrouxada e, mais recentemente, uma mudança de marca começou a ser implementada — o Twitter agora se chama X na expectativa de ser um superaplicativo. Muitos, incluindo ex-empregados, apostaram que a rede não duraria meses sob a gestão Musk.

Além disso, novas plataformas surgiram com a expectativa de surfar no eventual fracasso da rede social do passarinho azul. A lista é grande: Mastodon, rede descentralizada; Bluesky, nascida das mãos do mesmo fundador do Twitter; Koo, solução indiana que, tão rápida foi adotada pelos brasileiros, logo foi esquecida; e Threads, irmão do Instagram que já começa perder fôlego após quebrar recordes e se apresentar como o maior concorrente ao Twitter.

O Similarweb, que reúne dados de audiências de diversos sites na internet, não deixa dúvidas: o Twitter está em queda desde janeiro de 2023. Nas comparações anuais, a plataforma passou o primeiro semestre deste ano encolhendo em visitantes únicos, visitas ao site e engajamento — três importantes métricas.

“Baseado nos dados da semana passada, até 23 de julho, o tráfego para o site do Twitter caiu 10% em relação à semana anterior e encolheu 9,4% na comparação com os mesmos dias do ano passado”, diz David F. Carr, analista da Similarweb.

Além disso, de julho de 2022 a junho de 2023, o Twitter saiu de pouco mais de 226 milhões de usuários ativos por mês (MAUs, na sigla em inglês) para 220,3 milhões, diz o Similarweb.

As luzes do Twitter estão acesas, mas estão mais fracas

Jasmine Enberg, da Insider Intelligence

Outro dado é pouco animador: a receita da plataforma, vinda principalmente de anúncios publicitários, vem despencando. Em raro momento em que aponta a fragilidade do negócio, Musk confessou em tuíte que esse número caiu “aproximadamente” 50%, sem dar mais detalhes.

Publicidade

A consultoria de marketing Insider Intelligence projetou em março que, neste ano, a empresa pode somar US$ 2,98 bilhões em receita publicitária. Em outubro de 2022, o número dessa projeção era de US$ 4,74 bilhões.

“As luzes estão acesas, mas estão mais fracas. Elon Musk reavaliou a companhia em menos do que pagou por ela (em US$ 20 bilhões). E para a maior parte das marcas e anunciantes, os contras de ter uma presença paga no Twitter ainda superam os benefícios”, escreveu em abril a analista Jasmine Enberg.

Crise constante

Esse cenário de crise nos números, no entanto, teve pouco efeito para fortalecer os rivais.

O Twitter continuou com o quarto lugar na fatia do mercado de redes sociais em junho deste ano, representando 9,34%. A sua frente, apenas os aplicativos da Meta: Facebook (30,74%), Instagram (23,36%) e WhatsApp (16,37%), que tiveram pouca oscilação no primeiro semestre deste ano. Já o TikTok aparece em quinto, com 6,52%, sem crescimento nesses seis meses de 2023.

As métricas apontam que o Threads, lançado no início deste mês, também não ameaça. O tempo de tela no aplicativo da Meta despencou de 21 minutos diários para 5 minutos, em celulares Android, diz a Similarweb. O Twitter continuou estável, com 25 minutos em média por usuário.

Já o número de usuários ativos por dia (DAUs, na sigla em inglês) foi de 49 milhões no Threads em 7 de julho (pico histórico do app) para 12,6 milhões em 23 de julho. O Twitter continuou com uma média de 107,9 milhões em julho em celulares Android.

Twitter (ou X) parece estar sofrendo, mas o Threads está no começo de representar um desafio à rede

David F. Carr, da Similarweb

“Até o momento, o Twitter (ou X) parece estar sofrendo, mas o Threads está no começo de representar um desafio à rede”, conclui em relatório David F. Carr, da Similarweb.

Publicidade

Enberg, da Insider Intelligence, concorda. “O Threads não é o suficiente para ser uma alternativa ao Twitter”, escreve em relatório deste mês. “Alguns usuários disseram que não sabem por que estão usando o aplicativo, a não ser para participar do hype e ver se poderia ser um substituto em potencial do Twitter. Tampouco está totalmente claro o que os executivos da Meta planejam fazer com o Threads.”

Resiliente a crises?

O consultor de redes sociais Alexandre Inagaki acrescenta que o Twitter não é resiliente a crises, vide a queda em usuários e receita publicitária. Na verdade, continua ele, a plataforma sofre de outro problema: falta de concorrência.

“Quem precisa criar conta em mais uma rede social que seja essencialmente igual às anteriores?”, diz. “Mas, se o Threads implementar as novidades necessárias, é o único concorrente no momento que vejo ter potencial para se tomar o seu lugar. Porque tem recursos financeiros e estrutura técnica de sobra para buscar superar o Twitter, ao contrário do Koo, Mastodon, Bluesky.”

Aos trancos e barrancos, o Twitter continua — ao menos por enquanto.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.