Vinho também tem estilo – saiba qual é o seu

Vinho também tem estilo – saiba qual é o seu

Publicado por: Ricardo Cesar Publicado: 05/04/2024 16:23 Visitas: 238 Comentários: 0

Que estilo faz a sua cabeça? A pergunta cabe aqui porque vinho também tem disso – e como tem. Se essas primeiras linhas já acionaram o alarme de “lá vem conversa de aficionado”, saiba que o tema não precisa ser um papo de enochato. Identificar um pouco das tendências que nortearam quem produziu o líquido que está na sua taça pode ser divertido. Garanto que aumenta o repertório, o entendimento e até o prazer com essa bebida que parece ter uma diversidade infinita. Sem nenhuma necessidade de entrar em grandes tecnicalidades.

O dicionário define: Estilo - substantivo masculino - conjunto de tendências, gostos, modos de comportamento (...)

Talvez você ligue o termo mais a vestuário, moda, design ou arquitetura, mas na verdade tudo que envolve alguma forma de apreciação – estética, sensorial, intelectual – acaba se desdobrando em estilos. É a maneira como organizamos preferências similares. Em alguns casos a coisa cresce e vira uma corrente de pensamento.

Os vinhos não escapam disso. Há muitos estilos diferentes que os produtores podem buscar imprimir nessa bebida. Vamos começar pelo mais básico: uma primeira classificação estilística que todo mundo entende divide os vinhos em leves, médios e encorpados. Essa categorização aplica-se a quase todos os tipos: tintos, brancos, rosés e até mesmo espumantes e fortificados podem ser assim organizados.

Em geral os leves costumam ter menos extração, menos cor, menos teor alcoólico, menos “corpo” ou sensação de volume na boca, menos contato com barricas de madeira e mais acidez (que confere refrescância). Os encorpados são o oposto disso (não necessariamente na acidez e não necessariamente em todos os itens juntos), os médios obviamente algo intermediário nessa escala.

Pense num branco de chardonnay encorpadão, amarelo-dourado, quase cremoso, que passou meses em barril de carvalho e ostenta seus 14,5% de álcool ou mais sem titubear. Ou, do lado oposto do espectro, num levíssimo vinho verde, quase transparente como água, 11% de álcool, acidez cortante e sem nenhuma passagem por madeira. 

Muita gente tem preferência declarada por um estilo. “Gosto de tintos encorpados” é uma sentença-declaração-manifesto-clichê que todo mundo já escutou (ou já falou). E não há nada de errado com isso. O mais interessante, contudo, é saber brincar com os diferentes estilos em cada ocasião, ainda que você tenha suas preferências pessoais absolutas. Pense no parágrafo acima. Para um aperitivo na beira da piscina em um dia quente e ensolarado a melhor aposta é o vinho verde, com sua leveza e frescor; para acompanhar uma comida encorpada com molho amanteigado, por exemplo, possivelmente o chardonnay fará mais sentido.

Ainda que existam as preferências particulares, cada estilo tem sua ocasião mais apropriada. Não é recomendado ir à praia vestindo terno e gravata, tampouco chegar a um jantar de gala de bermuda e camiseta regata

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Essa classificação em leve ou encorpado é quase intuitiva. Agora vamos complicar um pouco mais. Você prefere vinhos em estilo tradicional ou moderno?

Calma. Também aqui não se trata de algo difícil de entender, embora isso só vá realmente fazer sentido quando você experimentar exemplares de cada escola, preferencialmente lado a lado. Mas neste ponto convém dar um passo atrás e entender de onde isso veio.

Você já teve a sensação de que a vida era mais fácil e mais simples no passado? Em muitos casos acho que era mesmo. Com vinho também. Sempre existiram diferenças enormes decorrentes da variedade de uva, local, safra, técnicas de vinificação. Mas no final era tudo vinho – bom ou ruim, leve ou encorpado no máximo - e o consumidor nem se perguntava se aquilo era feito com uma filosofia tradicional ou mais moderninha.

Até que surgiu um cara chamado Robert Parker que se tornou O crítico de vinhos mais influente do planeta. Sua fama e influência cresceram nos anos 80 e atingiram níveis inimagináveis. Quando Parker tascava uma nota alta, ali perto dos cobiçados 100 pontos, a garrafa evaporava das prateleiras e podia ser vendida a preços cada vez mais salgados.

De uma maneira um tanto simplista, foi-se decodificando o estilo de vinho que com mais frequência amealhava pontuações elevadas de Parker. A constatação foi que aqueles bem encorpados, com muita extração de fruta extremamente madura – por vezes dando uma sensação de dulçor e remetendo a geleia -, teor alcoólico alto, redondos e com generosa passagem por barris de carvalho eram os que caiam nas graças do crítico.

Então muitos produtores passaram a fazer o impensável: mudar seus estilos – que em alguns casos permaneciam os mesmos há décadas ou até séculos – na tentativa de agradar o nariz e o paladar de Parker. Logo surgiram outros críticos que também seguiam uma linha similar. E assim gerações inteiras de consumidores foram formadas.

Esse estilo, que teve seu auge ali pelos anos 1990 e 2000, ficou conhecido como “moderno” ou “Novo Mundo”, porque foi muito presente na Califórnia e na Austrália, principalmente. Os que mantiveram suas fórmulas inalteradas passaram a ser – desculpem o trocadilho – rotulados como “antigos” (com tom mais pejorativo) ou “tradicionais”.

Como toda ação gera uma reação, em algum momento produtores e conhecedores se rebelaram contra esse movimento de “parkerização” do vinho. Diziam eles que a diversidade morreria e que os produtos do mundo todo estavam ficando muito parecidos. Torciam o nariz e alegavam que esses vinhos ditos Novo Mundo eram pesados demais, enjoativos demais, óbvios demais e que não tinham a leveza, as nuances, a complexidade e as sutilezas dos tradicionais. De quebra ainda eram difíceis de harmonizar com quase qualquer comida.

O pêndulo começou a voltar. Surgiram hinos de louvor aos mais tradicionalistas, que ganharam uma crescente legião de admiradores e viraram produtos “cult”. Os rótulos em estilo demasiadamente Novo Mundo receberam alcunhas jocosas como "vinhos Disneylândia", uma brincadeira com o estereótipo do gosto médio do consumidor americano, que adora refrigerante, sorvete, bala, fast food e comidas supostamente mais infantis (Parker e a publicação Wine Spectator, outra que seguiu bastante essa escola, são americanos). Em contraposição, os vinhos do Velho Mundo seriam mais austeros, mais "adultos", e demandariam uma educação do paladar para serem apreciados.

É. Virou esse Fla-Flu mesmo.

Hoje pode-se dizer que convivemos com três estilos: os vinhos modernos (ou Novo Mundo), os tradicionais (ou Velho Mundo) e um estilo intermediário que representa a busca por uma certa fusão de ambos. Mas essas nomenclaturas podem ser enganosas, porque a questão toda se globalizou e tornou-se de fato algo mais ligado à filosofia de produção do que a procedências: é perfeitamente possível achar um vinho estilo “Novo Mundo” na França, Itália ou em Portugal e um estilo “Velho Mundo” na Argentina, nos EUA ou na Austrália.   

Não há certo nem errado, não há melhor ou pior. A preferência por uma ou outra escola depende do gosto de cada um. Mas conhecer os diversos estilos torna tudo mais interessante e, no mínimo, abre muito mais opções para combinar melhor o vinho com cada ocasião ou cada comida.

(Nota de rodapé do autor: no mundo polarizado em que vivemos é tentador amar ou odiar Robert Parker. A verdade – como costuma acontecer – exige uma atitude menos simplista e binária. Sempre existiram, e ainda existem, vinhos tradicionais de baixa qualidade, diluídos, tânicos, com pouco capricho na produção. Foram esses produtos, em sua maioria, que receberam as piores notas do crítico. Nisso, Parker ajudou a subir a régua. Ele também foi pioneiro em reconhecer qualidade em muitas regiões produtoras novas. Por fim, criou um sistema de avaliação numa escala de até 100 pontos que virou padrão mundial e, com todas as suas limitações, caiu nas graças dos consumidores por ser fácil de entender. Muitos vinhos que não são necessariamente super extraídos, mas sim complexos e equilibrados, ganharam altas notas do crítico (mas nem sempre). Por outro lado, Parker tinha de fato uma predileção por um estilo mais explosivo, com uma fruta mais madura e concentrada, e em diversos casos premiou em excesso essas características, sobretudo quando vinda de produtores da California. O mais correto é admitir que Parker deixou legados positivos e outros negativos. O único ponto em que todos concordam: que o gosto de uma só pessoa tenha gerado mudanças no padrão de produção e consumo mundial de vinhos é algo realmente incrível e que provavelmente nunca mais se repetirá.) 


Vinhos do Guia: Qual o seu estilo de vinho?

  • TRADICIONAL
    Weinert Carrascal Corte Tinto 2019

    Uma unanimidade de pontuação do Guia dos Vinhos. Camadas de aromas de frutas vermelhas e negras, tabaco, flores e folhas secas, terroso. Frutas se alargam em boca, com um tanino firme, macio, ótima acidez e madeira (francesa, 24 meses!) muito bem integrada.

     

  • MODERNO
    Clos de Los Siete By Michel Rolland 2019
    Estilo moderno e bem feito de tinto argentino. Feito sob supervisão do "guru" da enologia Michel Rolland, este corte predominante de castas bordalesas (exceto a syrah), tem nariz repleto de frutas negras e azuis maduras, com toques balsâmicos e de doce de leite. Os taninos têm boa firmeza e acompanham a boa acidez.

 

  • ENCORPADO
    Zuccardi Q Chardonnay 2020
    Chardonnay em estilo barricado e amanteigado – como muitas vezes se espera dessa uva. O nariz remete a pipoca, baunilha e cocada branca. A boca mostra frutas brancas e boa acidez, o que alivia o peso do conjunto.

     

  • LEVE
    Giancondi Pinot Grigio 2022
    Um vinho da uva pinot grigio se traduz em frescor. É o que temos aqui. Visual muito pálido, quase uma água. Mostra alecrim, ervas frescas, flor branca, maçã verde, nada muito exibido. Limpo, sem madeira, e sim, com bom frescor que se espera da pinot grigio. 


 

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