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Aécio Neves quer PSDB na disputa em SP, mas aceita apoiar Tabata para fugir do bolsonarismo de Nunes

Ex-governador aguarda posição final do jornalista José Luiz Datena para saber se tucanos terão nome próprio na corrida pela prefeitura paulista ou se embarcarão na chapa de Tabata Amaral; Apoio à deputada depende de neutralidade da parlamentar em eventual segundo turno entre prefeito Ricardo Nunes e Guilherme Boulos, nome do presidente Lula na disputa

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Por Pedro Augusto Figueiredo
Atualização:

O grupo do deputado federal Aécio Neves, que voltou a dar as cartas no PSDB, e do presidente da sigla, Marconi Perillo, espera uma resposta definitiva de José Luiz Datena para definir se o partido terá candidato próprio na eleição para a Prefeitura de São Paulo. Caso o apresentador decida não concorrer, a ala indica nos bastidores que prefere apoiar a deputada Tabata Amaral (PSB) a Ricardo Nunes (MDB), desde que a parlamentar não apoie o deputado Guilherme Boulos (PSOL) em um eventual segundo turno.

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Os tucanos enxergam a eleição paulistana como estratégica para a legenda se recolocar como oposição ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), movimento liderado por Aécio — por isso o pedido de neutralidade a Tabata, já que Boulos tem o apoio do presidente da República e do PT —, mas sem se vincular ao bolsonarismo, razão pela qual também resiste a apoiar Nunes no primeiro turno. O emedebista é apoiado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

As articulações ocorrem no contexto em que o PSDB está enfraquecido e busca se restabelecer para agregar forças de centro e lançar uma candidatura presidencial em 2026. A sigla saiu de 54 deputados federais eleitos em 2014 para 13 em 2022. Dos quatro senadores que elegeu, apenas um continua no partido.

Em São Paulo, histórico reduto tucano, a sigla perdeu força tanto a nível estadual, onde ganhou todas as eleições de 1994 a 2018, como na capital após a morte de Bruno Covas (PSDB) e a debandada dos oito vereadores da legenda que querem apoiar Nunes.

Aécio Neves tem sido procurado por interlocutores de Tabata e de Nunes em busca do apoio do PSDB. Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados Foto: Pablo Valadares/Pablo Valadares/Câmara dos Depu

A cúpula do PSDB apresentou uma pesquisa interna a Datena há duas semanas em que o apresentador aparece em terceiro lugar, assim como na Paraná Pesquisas do início do mês. Conforme informado pelo jornal O Globo e confirmado pelo Estadão, o jornalista se animou e disse que topa ser candidato.

“Eu tenho uma boa expectativa que seja. Ele foi muito firme ao ver a pesquisa e disse ‘vou encarar’. Nós ficamos animados. As coisas estão andando, quase todo dia a gente conversa. Agora tem que ver coisas práticas e estamos dando a ele o tempo que ele julgar necessário”, disse José Aníbal (PSDB), presidente do diretório municipal.

Além da desconfiança em relação ao apresentador, que coleciona quatro recuos eleitorais e teria que abandonar a televisão caso seja eleito, pesa contra a candidatura o fato dele ter ido para o PSDB em uma articulação realizada por Tabata. A ideia da deputada é que os tucanos fechem o acordo e indiquem Datena para ser o vice dela.

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Uma possibilidade que começou a ser aventada nos bastidores do partido é que o ex-vereador Mario Covas Neto, filho do ex-governador Mario Covas, que deixou o Podemos e voltará ao PSDB na sexta-feira, 17, seja vice de Datena ou até mesmo de Tabata caso o apresentador decida não disputar a eleição nem como companheiro de chapa da deputada do PSB. A avaliação é que em ambos os casos, Covas Neto reforçaria a ligação com as gestões tucanas em São Paulo e seria uma vacina contra o argumento de Nunes de que ele representa a continuação da gestão de Bruno Covas.

Na cúpula tucana há o receio de que um apoio a Tabata signifique a repetição da eleição presidencial com Simone Tebet (MDB), que declarou apoio a Lula no segundo turno. Além do compromisso de não apoiar Boulos, como mostrou a Coluna do Estadão, outro ponto discutido é o posicionamento dela em 2026. Tabata e o PSB apoiaram o atual o governo, mas há o rumor de que o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) pode não ser indicado a vice novamente.

A pré-candidatura de Tabata disse que não discute apoio no segundo turno, interna ou externamente, porque acredita que estará nele. Segundo a Coluna do Estadão, a pré-candidata sinalizou a pessoas próximas que ficaria neutra se não for ao segundo turno. O entorno de Tabata pondera que ela é uma política de centro que mantém distância do PT.

O pedido de voto de Lula para Boulos no feriado do 1º de Maio foi encarado como um teste pelos tucanos. O PSDB entrou na Justiça contra os dois por propaganda eleitoral antecipada, enquanto Aécio disse que o PT tem “dificuldade histórica” em separar o interesse público de seus interesses partidários.

Tabata, no entanto, foi comedida: disse que a fala do presidente contraria a legislação eleitoral, mas que o PSB não quis entrar na Justiça porque outras legendas já haviam o feito.

Tabata articulou ida de Datena para o PSDB para ser o vice dela, mas cúpula tucana quer apresentador como candidato a prefeito. Foto: Fábio Vieira/Estadão Foto: Fábio Vieira/Estadão

Aécio tem sido procurado tanto por articuladores de Tabata como de Nunes. Além do próprio prefeito, ele conversou recentemente com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o ex-presidente Michel Temer (MDB). De acordo com interlocutores, o principal entrave colocado pelo tucano é que um apoio ao MDB neste momento significaria se associar a Bolsonaro.

Ele indica, porém, que defende o apoio a Nunes contra Boulos em um eventual segundo turno. Outro ponto é que o PSDB já arcou com parte do ônus de não apoiar o prefeito ao ver toda a bancada de vereadores trocar o partido por siglas da base de governo do emedebista.

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“Ao diretório municipal do MDB de São Paulo cabe apenas seguir neste momento com a criação de uma coalizão de partidos em favor da cidade e contra o retrocesso. A expectativa em relação ao PSDB é e será sempre que, ao final desses debates internos, a decisão do partido seja defender o próprio legado na capital, sua história, e permanecer com a gestão do prefeito Ricardo Nunes, uma das mais bem avaliadas dos últimos tempos”, disse Enrico Misasi, presidente do MDB na capital, por meio de nota enviada pela assessoria.

O ex-governador mineiro tem participado cada vez mais das discussões em São Paulo na esteira da saída de lideranças do partido no Estado, como Alckmin e João Doria, e diante de brigas entre os paulistas. Após disputas judiciais e intervenções, o prefeito de Santo André, Paulo Serra (PSDB), aliado de Eduardo Leite (PSDB), foi escolhido como presidente do diretório estadual.

Segundo um aliado do tucano, a primeira etapa do restabelecimento de Aécio foi lidar com as denúncias de corrupção contra ele, que têm sido arquivadas — como os inquéritos por suposto recebimento de propina da OAS e da Odebrecht e a absolvição no caso da J&F. O segundo passo é limpar a imagem, voltando a ocupar espaços relevantes, tanto na política em geral, quanto internamente no partido.

Aécio foi o principal articulador da eleição de Perillo no fim do ano passado para presidência do PSDB, emplacou um aliado, Paulo Abi-Ackel (PSDB), como secretário-geral e ainda se elegeu para comandar o Instituto Teotônio Vilela, órgão de formação política do PSDB, que recentemente celebrou os oito anos do impeachment de Dilma Rousseff (PT) e fez críticas ao governo dela.

Aos mais próximos, não declara expressamente que será candidato ao governo de Minas em 2026, mas aceita considerar a possibilidade quando o tema surge nas conversas, de acordo com um tucano mineiro. O grupo político dele entende que será uma eleição aberta, já que Romeu Zema (Novo) tentará fazer um sucessor, a esquerda não tem um candidato forte e o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD), teria dificuldades de se viabilizar por causa da rejeição bolsonarista.

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