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Com prefeito pouco conhecido, Belo Horizonte tem cenário aberto e mais de 10 pré-candidatos

Principal cabo eleitoral da capital mineira, ex-prefeito Kalil diz que tendência é não apoiar ninguém; Zema cogita lançar candidato e PL avalia substituição de Engler por Nikolas

Foto do author Pedro Augusto Figueiredo
Por Pedro Augusto Figueiredo
Atualização:

A menos de um ano da eleição, a disputa para prefeito de Belo Horizonte não tem um favorito claro e está pulverizada entre mais de uma dezena de pré-candidatos. O atual prefeito, Fuad Noman (PSD), 76, era desconhecido pela população até o ano passado e só ocupa o posto porque foi vice de Alexandre Kalil (PSD), que deixou a prefeitura para disputar, e perder, o governo de Minas Gerais em 2022. Mesmo sentado na cadeira, ele ainda não sabe se tentará a reeleição.

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O PT quer aproveitar o peso do governo Lula para voltar a administrar a capital mineira e lançou o deputado federal Rogério Correia (PT). Já o PL aposta em repetir o desempenho de Jair Bolsonaro (PL), que venceu o segundo turno na cidade, com o bolsonarista Bruno Engler (PL). Ambos enfrentam concorrência em seus respectivos campos: a deputada federal Duda Salabert (PDT), à esquerda, e o senador Carlos Viana (Podemos), à direita.

Apesar da influência de Lula e Bolsonaro, o principal cabo eleitoral em Belo Horizonte é Kalil. Ao Estadão, o ex-prefeito disse que a tendência é que ele não apoie ninguém, nem mesmo Fuad, embora estejam no mesmo partido e sejam, em tese, aliados.

“Eu nunca exigi do prefeito que entrasse na minha campanha para governador. Ele disse em todas as entrevistas que estava ocupado com a prefeitura, o que é absolutamente responsável e de bom tom. E ele não pode esperar de mim um engajamento voluntário na campanha [dele]”, afirma. Nos bastidores, porém, a avaliação é que Kalil esperará o cenário ficar mais claro antes de se manifestar para não perder capital político no único reduto eleitoral que possui.

Atual prefeito, Fuad Noman (PSD), de máscara, não deve ter o apoio do ex-chefe do Executivo e seu aliado, Alexandre Kalil (PSD), com quem compôs chapa na eleição de 2020 Foto: Divulgação / Coligação Coragem e Trabalho

O principal desafio de Fuad Noman é se tornar mais conhecido entre os belo-horizontinos. Ex-secretário estadual de Fazenda no governo Aécio Neves (PSDB) e depois municipal na gestão Kalil, ele intensificou nos últimos meses o uso da máquina pública para alcançar esse objetivo, aumentando o ritmo de anúncios e entregas de obras pela cidade.

Mesmo assim, o prefeito afirma que só decidirá se será candidato entre o final do ano e o início de 2024. Ele quer esperar para avaliar o cenário eleitoral e também fazer uma avaliação pessoal junto à família. “Embora a prefeitura seja bem avaliada, meu nível de desconhecimento é muito grande. Não adianta entrar na campanha só porque eu sou o prefeito atual. Tem que avaliar o cenário, as composições políticas e meu interesse pessoal”, diz Fuad.

Ele tem o respaldo do PSD mineiro, embora o maior expoente do partido, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD), tenha feito um aceno ao presidente da Câmara Municipal, Gabriel Azevedo (sem partido), 37, em setembro.

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Azevedo, também pré-candidato, é o principal opositor de Fuad na política local e crítico do prefeito, principalmente em relação ao transporte público, problema crônico de Belo Horizonte. Atualmente, o vereador responde a um processo de cassação. Ele é acusado de intimidar colegas durante a CPI que investigava contratos para limpeza da Lagoa da Pampulha, um dos cartões-postais da cidade. A investigação terminou em “pizza”, o que irritou o presidente do Legislativo.

Em um evento em setembro, Pacheco chamou Azevedo de “amigo” e disse que ele atua na política “de uma maneira muito correta”. Apesar do gesto, a expectativa é que o presidente do Senado apoiará a eventual candidatura de Fuad. Ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD-MG), principal aliado de Pacheco no PSD, declarou ao jornal O Tempo na terça-feira, 21, que a sigla está unida em torno do atual prefeito.

“O cenário da disputa em 2024 em Belo Horizonte é completamente aberto. Nós temos o prefeito totalmente desconhecido, com uma prefeitura sem marca e uma profusão de candidaturas que tentam pegar uma espécie de rescaldo das eleições presidenciais”, disse Gabriel Azevedo, que aposta que sairá vitorioso quem apresentar melhores soluções para os problemas da cidade. Se cassado, ele ficará inelegível.

Presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG) fez gesto ao presidente da Câmara de Belo Horizonte, Gabriel Azevedo (sem partido), mesmo ele sendo adversário de Fuad Foto: Karoline Barreto/CMBH

Novo pode lançar secretários do governo Zema, e PL cogita substituir Engler por Nikolas, que resiste

Outro cabo eleitoral, o governador Romeu Zema, e seu partido, o Novo, também enxergam o cenário como indefinido e ainda estudam qual será a estratégia da sigla. Há um consenso, que inclui o governador, que é necessário aguardar antes de tomar uma posição. Se o partido decidir ter candidato, a disputa será entre a ex-tucana Luísa Barreto, 39, atual secretária estadual de Planejamento, e o secretário-adjunto de Governo, Lucas Gonzalez, 34.

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Barreto teve 1,4% dos votos em 2020, quando disputou a eleição pelo PSDB. Já Gonzalez não conseguiu se reeleger deputado federal no ano passado. Na última eleição, o candidato do Novo a prefeito, o empresário Rodrigo Paiva, teve apenas 3,6% dos votos, mesmo com o apoio de Zema, que já era governador.

Uma alternativa é o Novo apoiar candidatos de outras legendas. “A gente tem uma preocupação a [nível de] futuro de soltar um nome e criar, talvez, um transtorno para o governo ou algo nesse sentido, mas ela não passa por uma inviabilidade”, diz Christopher Laguna, presidente da sigla Minas Gerais.

Quem também aguarda uma definição mais clara do tabuleiro eleitoral é o PSDB, cujo principal nome na capital mineira é o ex-deputado estadual João Leite (PSDB), 68, que foi goleiro do Atlético Mineiro nas décadas de 70 e 80.

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Aliado de Zema no Estado, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) já deu repetidas sinalizações que apoia a candidatura do deputado estadual Bruno Engler (PL), 26, a prefeito de Belo Horizonte. Mesmo assim, tem ganhado força no PL o movimento para que o candidato da sigla seja Nikolas Ferreira (PL), deputado federal mais votado da história de Minas Gerais, com 1,5 milhão de votos.

Os liberais acreditam que Nikolas teria mais facilidade para romper a “bolha” bolsonarista, conquistar votos em outros setores do eleitorado e disputar um eventual segundo turno. Engler ficou em segundo lugar na última eleição para prefeito, com 9,9% dos votos.

Bruno Engler tem apoio de Jair Bolsonaro, mas ala do PL quer que Nikolas seja o candidato Foto: Reprodução / Instagram Bruno Engler

“Não tem essa discussão, até pelo fato de que o Nikolas não quer disputar a eleição no ano que vem. É uma coisa que eu já conversei com ele e, se fosse o caso também, da gente se unir em torno de uma candidatura do Nikolas, o faria com o maior prazer”, disse Bruno Engler ao ser questionado sobre o tema.

“O importante é a gente colocar um conservador bolsonarista na Prefeitura de Belo Horizonte. O Nikolas está focado no trabalho de oposição ao governo Lula e entende que não é o momento dele disputar a prefeitura”, acrescentou. A assessoria de imprensa de Nikolas confirmou que ele vai apoiar Engler. Interlocutores acrescentam que o plano do deputado federal é disputar o governo de Minas em 2026.

Engler considera que o aliado será peça fundamental em sua campanha e cita também o apoio do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos). Todos os três cresceram politicamente e foram impulsionados pelo habilidoso uso das redes sociais. Pesa a favor de Engler também o fato dele ter sido o deputado estadual mais votado da história mineira e majoritário na capital, onde teve 13,9% dos votos dos belo-horizontinos. “O presidente Bolsonaro foi vitorioso em Belo Horizonte e teve mais votos que o ex-presidiário tanto no primeiro como no segundo turno. A gente acredita que pode repetir esse resultado”, resumiu.

Outro nome à direita é o senador Carlos Viana (Podemos), 60. Ao disputar a eleição ao governo de Minas pelo PL no ano passado, o jornalista foi traído por Bolsonaro, que apoiou Zema, e se distanciou do bolsonarismo. Seu filho, Samuel Viana, vai deixar o PL após enfrentar problemas com a ala mais radical do partido por votar favoravelmente a propostas da área econômica do governo Lula na Câmara dos Deputados, como a reforma tributária.

“Eu sou oposição consciente. Voto [de forma favorável] os projetos que forem interessantes para o país. Os projetos que são contra minha base, evangélica, naturalmente não tem conversa. É uma questão de costumes”, disse Carlos Viana ao endossar o posicionamento do filho. “Eu concordo plenamente em unir a direita, desde que eu seja o coordenador [cabeça de chapa] desse processo”.

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Há dúvidas, porém, se conseguirá se candidatar pelo Podemos. O partido em Minas Gerais é comandado pela deputada federal Nely Aquino, cujo grupo político é aliado do atual prefeito, Fuad Noman. “Estou tentando pacificar o partido em Minas e ter o comando dele para que eu tenha segurança no pleito. Se isso não acontecer, vou realmente avaliar a possibilidade de sair”, afirmou o senador. Como mostrou a Coluna do Estadão, ele pode ir para o Republicanos ou o MDB.

Antes aliado do ex-presidente, Carlos Viana foi traído por Bolsonaro na campanha de 2022 Foto: Twitter-Carlos Viana - 05/08/2022

Esquerda também está fragmentada na capital mineira

Embora os principais nomes defendam união do campo progressista, a esquerda belo-horizontina está dividida entre três pré-candidaturas. Após uma aliança com o PSD mineiro e a dobradinha Lula-Kalil na eleição do ano passado, o PT decidiu não apoiar a reeleição de Fuad e lançar o deputado federal Rogério Correia (PT), 65, que ganhou holofotes pela atuação na CPMI do 8 de janeiro. Influenciou na decisão o fato da sigla não ter candidatos próprios em São Paulo, onde apoiará Guilherme Boulos (PSOL), e no Rio de Janeiro, onde caminha para uma aliança com o prefeito Eduardo Paes (PSD).

Além do petista, há ainda a candidatura de Duda Salabert (PDT) e da federação PSOL-Rede, que cogita os nomes das deputadas estaduais Bella Gonçalves (PSOL), que já se colocou como pré-candidata, Ana Paula Siqueira (Rede) e do ex-vice-prefeito, Paulo Lamac (Rede). Correia quer conseguir o apoio de PV e PCdoB, que formam a federação com PT, e do PSOL e da Rede, para unificar as duas federações. Ele também diz manter conversas com Salabert.

“Na última eleição, não conseguimos fazer isso [unificar as candidaturas]. Foi muito pulverizado e acabou adiantando um certo voto útil no Kalil e a esquerda não conseguiu demarcar um ponto central”, disse ele. “Eu sou vice-líder do presidente Lula na Câmara. Então tenho o respaldo não só do PT nacional, mas do próprio presidente”, completou o pré-candidato.

Duda Salabert (PDT) é uma das três pré-candidaturas de esquerda à Prefeitura de Belo Horizonte Foto: Pedro França

Em 2020, Kalil foi eleito no primeiro turno com 63,3% dos votos. A ex-deputada federal Áurea Carolina (PSOL) ficou em quarto lugar, com 8,33%, e o hoje assessor especial do Ministério dos Direitos Humanos, Nilmário Miranda (PT), em sexto, com 1,8%.

“O ideal é que a gente construa uma frente ampla progressista em BH. Se não for possível, não vejo como um grande empecilho a nossa candidatura. Há que se lembrar que sou a deputada federal mais bem votada da história de Minas Gerais e a vereadora mais votada da história da Câmara Municipal”, avalia Duda Salabert, também integrante da CPMI. Em 2022, além de Nikolas, apenas André Janones (Avante), teve mais votos do que ela para a Câmara dos Deputados no Estado.

‘Bancada do microfone’ ainda não se decidiu

Dois jornalistas não se colocam como pré-candidatos, embora exista a possibilidade deles entrarem na disputa nos próximos meses. O deputado estadual Mauro Tramonte (Republicanos), apresentador na Record Minas, quer o apoio total de seu partido para topar a empreitada. Apresentador da rádio Itatiaia e da Band Minas, Eduardo Costa (Cidadania) chegou a conversar com diferentes partidos e demonstrou intenção de se candidatar, mas, no caso dele, pesa a opinião contrária da família.

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