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As relações entre o Poder Civil e o poder Militar

Análise|A ‘Operação Tabajara Argentina’ e as suspeitas que ameaçam Filipe Martins e Bolsonaro

Grupo em torno do ex-presidente vive troca de acusações com Wajngarten por avanço do inquérito sobre golpe; PF apreende com Martins crachá da Presidência com validade até dezembro de 2026

Foto do author Marcelo Godoy
Atualização:

Uma nuvem de suspeitas, intrigas e acusações envolve o círculo civil em torno de Jair Bolsonaro (PL) e ameaça o ex-presidente de forma tão contundente quanto àquela que se formou acima da ala militar do bolsonarismo, quando um de seus expoentes, o tenente-coronel Mauro Cid, decidiu firmar um acordo de delação premiada com a Polícia Federal.

Bolsonaro passou duas noites na embaixada da Hungria após ter passaporte apreendido, revelou o jornal New York Times Foto: REPRODUÇÃO / NYT

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Entre os personagens dessa trama estão o poderoso advogado Fabio Wajngarten, que defende Bolsonaro, o presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, o ex-assessor especial para assuntos internacionais da Presidência Filipe Garcia Martins, bem como integrantes do bolsonarismo que saíram em defesa de Martins: como o deputado federal André Fernandes (PL-CE) e o deputado estadual por São Paulo, Gil Diniz (PL), o Carteiro Reaça.

A temperatura do grupo atingiu um nível enorme neste domingo, depois de Wajngarten publicar uma mensagem de “Feliz Páscoa” que muitos entenderam como “um recado”. Trata-se de um tuíte no qual dizia: “Eu gostaria de desejar uma Feliz Páscoa em especial para 3 famílias: Do Tenente Coronel Mauro Cid; Do Coronel Marcelo Câmara; Do Filipe Martins. Muita saúde e bênçãos, o resto a gente vence.”

Cid firmou um acordo de delação com a PF. Acusou Bolsonaro de tal forma que se tornou impossível para outras testemunhas desmentir o que o tenente-coronel disse. Câmara estaria negociando, por sua vez, também uma delação. E Filipe? Por que foi citado ao lado dos outros dois? É o que se questionaram muitos dos bolsonaristas que trabalharam no Planalto.

No caso do ex-assessor da Presidência, seus advogados negam, peremptoriamente, qualquer intenção de negociar uma delação. Pelo menos é o que disse Ricardo Fernandes, que, além de defensor, é amigo de Martins. O ex-assessor, de 36 anos, está na cela 517, na 5.ª Galeria do Complexo Médico-Hospitalar (CMP), em Pinhais (PR), o mesmo que abrigou os detidos da Operação Lava Jato – sua matrícula é 597.543. Ele também mandou avisar que não tem o que delatar aos federais.

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O assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Filipe G. Martins Foto: Nilton Fukuda/Estadão

Bolsonaristas que trabalharam no governo interpretaram a mensagem de Wayngarten como como uma sugestão de que o advogado teme uma delação de Martins. E se perguntam: Se era para demonstrar solidariedade aos presos, por que Wajngarten não citou o coronel Bernardo Corrêa Neto, também detido, mas sobre o qual não há rumores a respeito de delação premiada?

Muitos acreditam que Martins esteja sendo atirado aos leões, como bucha de canhão para proteger Bolsonaro, a fim de poupar o presidente no caso da minuta do golpe, assim como se buscou fazer com Cid no caso da falsificação dos cartões de vacinação e na venda de joias da Presidência, no exterior.

Foi nesse clima que passou a circular uma história entre os bolsonaristas. Ela está em mensagens trocadas por eles pelo whatsapp às quais a coluna teve acesso. Tratam do que chamam de uma “Operação Tabajara Argentina”. Imputam a Wajngarten um plano para asilar Bolsonaro no país vizinho. Até um “especialista” teria sido mobilizado e colocado à disposição do ex-presidente para a empreitada. O mesmo relato afirma que Bolsonaro recusou a proposta. Tudo antes de sua passagem pela Embaixada da Hungria, em Brasília, que levou o ministro Alexandre de Moraes a questioná-lo sobre os propósitos de tal estadia.

A coluna procurou Wajngarten. Não obteve resposta. O advogado contou a amigos que esteve com o ministro Gilmar Mendes, do STF. E disse a eles que pediu por Martins e pelo coronel Câmara, negando que estivesse abandonando os dois presos. Queria saber ainda quem o estaria intrigando com o ex-assessor da Presidência. E no PL. “Eu vou atropelar bem atropelado”, afirmou o advogado. Uma caça às bruxas começou. Seu tuíte de ontem, segundo sua versão, seria uma resposta às desconfianças levantadas, uma forma de dizer: “Não vou abandonar ninguém”.

O problema agora será: quem vazou as tais Operações Argentina e Hungria? Não é difícil que alguém tenha pensado em dar esse tipo de conselho a Bolsonaro. Nada diferente do que muitos defendiam que Lula fizesse na época da Lava Jato: que se recussasse a ser preso – militantes da tal Causa Operária tentaram impedir que o hoje presidente se entregasse, quando a PF chegou ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo Campo. Era 2018. Na época, até o então deputado Bolsonaro questionava se Lula ia fugir. Agora, na sua vez, chamar de “Tabajara” a operação seria até um elogio.

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O ex-presidente da República Jair Messias Bolsonaro (PL) durante entrevista coletiva após prestar depoimento na Policia Federal em Brasília, acompanhado por seu advogado Fabio Wajngarten  Foto: Wilton Junior/Estadão

Tudo virou motivo de versões e de disputas entre os bolsonaristas. O vazamento do áudio de Cid com críticas à condução do inquérito sobre o golpe pela PF que provocou a volta do tenente-coronel ao cárcere alimentou suspeitas e teorias. Afinal, quem está traindo quem? O grupo contrário a Wajngarten critica, por fim, as somas de dinheiro repassadas pelo PL ao advogado por meio da empresa FW Comunicação Ltda, valores mais altos do que os pagos a Bolsonaro. E dizem que ele ambiciona o espólio político do líder – caso seu futuro passe pela prisão ou pelo exílio.

O relatório da prisão de Martins e o crachá da Presidência até 2026

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Não só. A mensagem de Páscoa de Wajngarten chegou três dias depois que o deputado Fernandes publicou a informação de que a Latam confirmou que Martins embarcou de Brasília para Curitiba no dia 31 de dezembro de 2022, o que provaria que o ex-assessor não viajou às escondidas para os EUA, o que motivou a decretação de sua prisão por Moraes. O deputado Gil Diniz fez uma publicação idêntica. Os defensores de Martins se questionavam sobre as razões da demora do STF e da PF em decidir sobre o pedido de liberdade provisória de Martins.

E eis que surge, de repente, o relatório da prisão de Martins. No dia 7 de março, o delegado Fábio Tavares Shor afirmou em representação ao ministro Alexandre de Moraes que as investigações sobre a ala radical do governo Bolsonaro mostraram que o ex-assessor levou ao então presidente no mês de novembro de 2022 um documento com diversos “considerando” a serem implementados “quanto a supostas interferências do Poder Judiciário no Poder Executivo e ao final decretava a prisão de diversas autoridades”.

A história já é conhecida: Bolsonaro teria pedido uma série de alterações na minuta e, após a apresentação de novos termos, o então presidente teria concordado com tudo e convocado uma reunião com os comandantes das Forças Armadas, para pressioná-los a aderir ao golpe. O delegado reafirmou a existência de indícios de que Filipe saiu do País em 29 de dezembro de 2022 sem deixar registro na alfândega. Além disso, na hora da prisão de Martins – detido na casa dos pais de sua noiva, Anelise –, os policiais relataram ter encontrado poucas roupas do ex-assessor no armário do imóvel onde dizia residir.

Martins justificou-se, dizendo que, após ter saído do governo, morou em imóveis alugados em São Paulo e em Balneário Camboriú (SC). Diz o documento:

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“Os elementos demonstram que Filipe Martins, desde a sua saída do governo, não fixou residência em nenhum local, sendo localizado no dia do cumprimento de mandado de busca e apreensão no apartamento de sua companheira na posse de poucos pertences, fato que permite uma fácil alteração de local, em caso de necessidade. nesse sentido, a cidade de Ponta Grossa (PR), local monde Filipe Martins foi localizado, encontra-se a cerca de 461 quilômetros de distância da cidade de Dionisio Cerqueira, fronteira com a Argentina , por sua rodoviária e 551 da cidade de Guaíra, fronteira com o Paraguai”.

A página do relatório da PF no qual ela afirma ter encontrado com martins um crachá da Presidência emitido com data de validade até 2026 Foto: Reprodução / Estadão

Aqui surge também o nome da Argentina, como possível destino de uma fuga de um bolsonarista. Por esse motivo, segundo o delegado Shor, permaneciam de pé os motivos para a manutenção da prisão de Martins. O relatório do delegado foi entregue a Moraes 15 dias depois que a defesa do ex-assessor pedira a libertação do acusado, alegando ter provas – passagens aéreas e confirmação do despacho da bagagem – de que Martins não saiu do Brasil no fim de 2022.

Diante da manifestação da PF e do pedido da defesa, Moraes decidiu aguardar o que diriam a Latam e a administradora do aeroporto de Brasília sobre possíveis imagens do embarque. A Latam confirmou no dia 20 de março o embarque de Martins, mas o aeroporto informou não ter mais as filmagens do saguão. No mesmo dia, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, concordou em ser necessário mais prazo para verificar as informações antes de uma manifestação definitiva sobre o caso do ex-assessor.

E, assim, o caso de Martins se arrasta sem ter quem possa dizer se ele se ausentou ou não do País, se deve ou não permanecer preso. Os federais afirmam ainda que essa não é a única questão que pesa contra o acusado. No dia da busca (8 de fevereiro), eles fizeram uma análise do conteúdo do celular da companheira do ex-assessor, Anelise. Ali encontram um documento com o título de Carta aberta de insegurança e dúvida sobre o processo eleitoral brasileiro.

Datado de 5 de novembro de 2022, o papel trazia em seu sétimo parágrafo o seguinte trecho: ‘Tudo isso me faz protestar pacificamente, implorando ajuda de um poder moderador neutro para investigar e restabelecer a credibilidade da democracia brasileira. Exerço aqui o dever de cidadão e peço a ajuda às Forças Armadas , para que tragam credibilidade e isenção à investigação do processo eleitoral”. Não é preciso dizer que o apelo à ruptura patrocinada pelas Forças Armadas é o ponto central do plano de golpe investigado pela PF.

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Delegado da PF viu risco de fuga de Martins para a Argentina em razão da proximidade da fronteira do local onde estava quando foi preso. Foto: Reprodução / Estadão

Por fim, os federais encontraram com Martins um crachá funcional com o número 123.917 com a seguinte identificação: “República Federativa do Brasil, Presidência da República”. E a validade: 31/12/2026. A data levantou ainda mais suspeitas: Martins contaria com a permanência de Bolsonaro na Presidência por mais quatro anos. Os agentes analisaram até as redes sociais do ex-assessor e constataram que ele postara 32 tuítes por mês de janeiro de 2019 a outubro de 2022. De novembro a 31 de dezembro de 2022, nenhuma mensagem foi publicada.

A carga da PF contra Martins e a manutenção de sua prisão ao mesmo tempo em que as mensagens de Wajngarten mandam sinais estranhos aos seus desafetos no bolsonarismo só acirraram um ambiente de disputa que pode ter consequências imprevisíveis, não só para o grupo, com o surgimento de trocas de acusações e exposição de feridas, mas também para o ex-presidente.

Tudo isso – somado aos próximos passos da PF e de Moraes – pode tornar ainda mais difícil o espaço de manobra de Bolsonaro, bem como o destino de alguns de seus fiéis assessores. O barco do bolsonarismo parece adernar. E são poucos os que conseguem, diante do naufrágio, conservar a calma e a cautela para a tomada de decisões antes que se mutipliquem os gritos de “homem ao mar”.


PS:

À tarde, após a publicação deste texto, Fabio Wajngarten disse que jamais sugeriu ou planejou o asilo de Bolsonaro na Argentina, bem como jamais pensou em abandonar Cid ou sugerir que Martins seja jogado aos leões para presevar o ex-presidente. Negou ainda ter pretensões eleitorais ou políticas e disse rejeitar apenas os “boçais, bajuladores e burocratas” que cercavam Bolsonaro. “Sou o único que não abandona ninguém; pelo contrário – mesmo tendo sido abandonado”, afirmou.

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Análise por Marcelo Godoy

Repórter especial do Estadão e escritor. É autor do livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015). É jornalista formado pela Casper Líbero.

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