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Labirintos da Política

Opinião|Operação da PF que atinge generais de quatro estrelas na reserva constrange o Exército

Oficiais consideram devastadores os diálogos dos militares envolvidos e temem o impacto que as conversas de baixo calão possam ter na caserna

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Foto do author Monica  Gugliano

A Operação Tempus Veritatis da Polícia Federal, deflagrada na manhã desta quinta-feira, 8, constrange as Forças Armadas, especialmente o Exército de cujas fileiras saiu a cúpula do governo de Jair Bolsonaro e que, agora, se vê às voltas com investigações e inquéritos. Sem contar que os alvos de hoje passaram pelo Alto Comando do Exército, são generais de quatro estrelas que comandaram unidades importantes e participaram das mais relevantes decisões da Força, durante os últimos anos em que estiveram na ativa.

Alguns oficiais chegaram a definir a operação como devastadora e têm receio sobre o impacto que as revelações e os diálogos possam ter na caserna. Afinal, os documentos revelam um flagrante descumprimento dos pilares das Forças Armadas de hierarquia e disciplina. A delação do coronel Mauro Cid revela diálogos com palavras de baixo calão, ataques e acusações contra os que não se dispunham a aderir à trama do golpe e até críticas ao general Tomás Paiva que viria a ser Comandante o Exército, feitas pelo general Braga Netto.

General Walter Braga Netto é um dos alvos da operação da Polícia Federal, assim como outros integrantes das Forças Armadas Foto: Wilton Junior/Estadão

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No WhatsApp, Braga Netto escreve: “O Tomás foi no VB (general Villas Boas, ex-comandante do Exército)...E aí...acredite... ele deu uma mijada no VB e na Cida (mulher de Villas Boas)! Terminou dizendo que os dois serão prejudicados com as intervenções ‘sem noção’ que estão fazendo... na saída, ele resolveu abrir o jogo e falou mal de todo o ACE (Alto Comando do Exército). Principalmente do Theóphilo (general Estevam Cals Theophilo Gaspar de Oliveira, ex-chefe do Comando de Operações Terrestres do Exército Estevam Cals Theophilo Gaspar de Oliveira. que foi alvo de busca e apreensão na operação de hoje), do Barata. Parece até que ele é PT desde pequenininho...! Mostrou que ele tem que estar contra tudo que está acontecendo... inclusive contra o Arruda (general Júlio César de Arruda, ex-comandante do Exército) etc. Nunca valeu nada (Tomás)!! A ambição derrota o caráter dos fracos. Aliás...revela. Ele ainda meteu o pau no Paulo Sérgio (ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira), disse que ele tem que ficar quieto! A Cida ficou louca. Se retirou da sala pra não botar o artista pra fora! Na verdade, o VB tinha paixões discutíveis, Fernando (general Fernando Azevedo, ex-ministro da Defesa) (...)”

As mensagens foram consideradas “não republicanas” e, de acordo com oficiais, neste momento, não há nem condições de medir o “tamanho do estrago”. Mas já se sabe que alguns militares passarão a ser pessoas “non gratas”, como o coronel Mauro Cid, que ainda contava com alguma boa vontade nos quartéis. E outras figuras que estão em postos relevantes e, certamente, perderão os cargos.

Para o Exército chegou a hora de pagar a conta dos quatro anos de simbiose com o governo de Bolsonaro. Prestigiados e incensados como “meu Exército”, generais de quatro estrelas na reserva construíram o projeto de poder que, em suas cabeças, faria de Jair Bolsonaro presidente por oito anos, nem que fosse num governo de exceção. De Augusto Heleno, um dos primeiros a aderir à ideia de fazer do ex-capitão presidente da República, ainda em 2017, ao general Luiz Eduardo Ramos, colega de Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) e que despachava no Planalto ao lado do presidente - mas, até agora, não apareceu nas investigações – todos os generais, em causa própria e pela manutenção do Governo, misturaram ações e posições.

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A operação pôs por terra o trabalho de apaziguamento que vinha sendo feito há um ano, envolvendo inclusive o ministro da Defesa, José Múcio. Não que as críticas aos militares estivessem mais amenas. Mas agora a quantidade de provas conseguidas pela PF, fornecidas pelos próprios militares, vai redobrar o trabalho da recuperação de imagem que o Exército almejava retomar.

Opinião por Monica Gugliano

É repórter de Política do Estadão. Escreve às terças-feiras

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