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Ricardo Antunes: ‘Sindicatos não podem ser estatizados’

Sociólogo afirma que aproximação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o movimento sindical se encontra em momento diferente dos primeiros mandatos do petista

Foto do author Gustavo Queiroz
Foto do author Marcelo Godoy
Por Gustavo Queiroz e Marcelo Godoy
Foto: Antonio Scarpinetti/SEC/Unicamp
Entrevista comRicardo AntunesSociólogo e professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp

O professor titular de Sociologia do Trabalho da Unicamp Ricardo Antunes avalia que o sindicalismo se encontra enfraquecido economicamente, politicamente e socialmente no Brasil, resultado de uma crise do modo de vida e do ostracismo que vivenciou durante políticas encampadas pelos governos anteriores.

Isso faz com que seja natural a tentativa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de abrir diálogo e trazer uma parcela do movimento sindical para seu governo, mas a aproximação se encontra em um período distinto de seus primeiros mandatos. Ele avalia que questões como a abordagem sobre a reforma trabalhista serão cruciais na definição desta relação.

Também entende, porém, que se o governo repetir a estratégia dos primeiros mandatos de Lula de buscar nomes no sindicalismo para loteamento de cargos, pode cometer o erro de esvaziar o movimento sindical. “O sindicato não pode ser estatizado, não pode ser apêndice do governo, nem com Lula, nem com ninguém. O sindicato tem que preservar sua autonomia, o que é muito difícil porque se redesenhou a classe trabalhadora”, afirmou. Leia a entrevista:

Sociólogo da Unicamp Ricardo Antunes vê sindicalismo enfraquecido e defende autonomia do movimento Foto: Antonio Scarpinetti/SEC/Unicamp

Os sindicatos foram cruciais nos primeiros mandatos de Lula. Como está a relação entre o sindicalismo e o governo?

Não será como nos primeiros governos. Há uma crise no modo de vida e um quadro de desemprego. Lula ganha a eleição em uma aliança policlassista onde o centro é dominante. É evidente que se Lula foi feliz de trazer para seus governos uma parcela importante do movimento sindical, por óbvio, vai tentar fazer o mesmo de novo. O sindicalismo brasileiro está muito enfraquecido economicamente, politicamente e socialmente. A primeira discussão será o que fazer com a reforma trabalhista. Lula tem uma certa simpatia pelo modelo espanhol de rever e ‘modernizar’ a relação de trabalho. Esse vai ser o calcanhar de Aquiles do governo. Ele vai tentar ter o apoio das centrais sindicais, e por outro lado, corre o risco de perdê-las.

Indicações de sindicalistas em cargos e fundos de pensão podem ser um problema para o governo?

No primeiro governo o erro foi crasso porque quase todas as lideranças que o PT e a CUT tinham forjado tornaram-se ministros, parlamentares ou foram para os conselhos. Esse é um problema que o PT vai enfrentar. Se não quiser repetir o erro do primeiro ciclo, não pode tirar os melhores quadros do sindicalismo, que está muito mais fragilizado.

Os sindicatos precisam garantir independência?

O sindicato não pode ser estatizado, não pode ser apêndice do governo, nem com Lula, nem com ninguém. O sindicato tem que preservar sua autonomia, o que é muito difícil porque se redesenhou a classe trabalhadora.

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