Gerando resumo
Um novo aplicativo de transporte que funciona desde janeiro em São Paulo apresenta como principal diferencial não a rapidez nas viagens ou o preço mais barato: é a segurança. Todos os carros da empresa, grandes e fabricados há menos de quatro anos, são blindados.
As comodidades elevam o preço – uma viagem custa até o dobro do valor cobrado por um Uber Black, a versão mais cara da Uber, para o mesmo trajeto. Por enquanto, o app – chamado Rhino – atende apenas alguns bairros de classe alta da capital paulista.
Como o Estadão mostrou, vários bairros da cidade tem visto escalada da insegurança, a exemplo do Morumbi, região que teve a maior alta de roubos da cidade em 2023 e onde comércio tem fecha as portas mais cedo. A ação de quadrilhas do “quebra-vidro”, em que ladrões partem o vidro dos automóveis para roubar celulares, também assusta motoristas e passageiros, sobretudo no centro.

A ideia do modelo foi do russo Daniil Sergunin, que mora no Brasil há três anos. Ele era executivo de uma empresa e morava na Suíça, onde assalto no trânsito é impensável. Ao ser transferido para o Brasil, constatou que muitos crimes são praticados no trânsito de São Paulo e os aplicativos de transporte não oferecem a opção de escolher um carro blindado.
Ter o próprio veículo ajuda, mas há restrições: em um dia da semana o veículo não pode ser usado nos horários e trechos em que vigora o rodízio por placas; quando a pessoa consome álcool não pode dirigir; quem vai viajar precisa deixar o carro no aeroporto etc.
Sergunin decidiu criar a Rhino, em sociedade com o também russo Alexander Karbankov. Sergunin é o CEO da empresa, fundada em outubro de 2023 e em operação desde o mês passado, por meio do aplicativo disponível para iOS e Android.
O plano da Rhino é expandir para toda a cidade até o final do ano. Para os próximos dois anos, o plano é atender outras cidades – em 2025 a empresa pretende atuar no Rio de Janeiro e em Brasília.
Como funciona?
Antes de oferecer o serviço, foi preciso organizar a empresa. Seria impossível apenas conectar motoristas com clientes, como faz o Uber, por exemplo, porque quem tem condições de comprar e manter um carro blindado e nas demais condições estabelecidas pela Rhino provavelmente não tem interesse em trabalhar como motorista de app. Por isso, a companhia russa decidiu comprar sua própria frota e contratar motoristas.

A empresa oferece várias opções de carros, entre elas o Volkswagen Taos, todos com pelo menos 4,4 metros de comprimento e blindagem do tipo III-A, não apenas nos vidros. Por enquanto não há carros elétricos, mas eles serão oferecidos em breve, diz a Rhino.
Como a blindagem não é aparente, é possível que criminosos abordem veículos da Rhino durante as corridas, como se fosse um carro qualquer, para praticar assaltos ou outros crimes. Então, qual a orientação da empresa aos motoristas, para esses casos? “A orientação aos motoristas é tentar sair do perigo o mais rápido possível, sempre pensando na segurança do cliente. Como os carros são blindados, esse processo de sair de uma ocorrência é mais fácil e mais seguro”, afirma a Rhino.
Por estratégia, a empresa não informa o número de carros que compõem sua frota nem o número de motoristas contratados. “Mas o tamanho da frota nos permite atender à área priorizada”, diz a empresa, por e-mail.
- Por enquanto, a empresa opera nos bairros da Vila Olímpia, Moema, Vila Nova Conceição, Itaim Bibi, Jardins, Pinheiros e Vila Madalena.
A procura tem sido alta, segundo a própria companhia. Foi adotado um modelo de lista de espera para os passageiros. “Esperar pode ser frustrante, mas foi uma saída para tentar garantir qualidade no atendimento até ter a frota necessária para atender todos os clientes”, diz a Rhino.
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Usuários ouvidos pela reportagem aprovaram o serviço: “Peguei (um carro) para ir a um concerto na Sala São Paulo com a minha mulher”, conta o engenheiro de produção Pedro Vidigal, que tem 35 anos e mora na Vila Nova Conceição. “Sabia que passaríamos por uma área ‘esquisita’ e não queria expor a mim e sobretudo a minha mulher às pessoas que frequentam aquela região (onde se concentra a Cracolândia). Por isso, nem olhei outras opções (de transporte), e não achei o preço proibitivo”, relata.
Nos últimos anos, bares, restaurantes e espaços de espetáculos no centro de São Paulo têm apostado em seguranças à paisana e até escolta de clientes para diminuir a sensação de insegurança e não perder mais público.
O diretor comercial Pedro Liguori, de 33 anos, também usou o serviço. “Com os outros aplicativos, nunca tive sustos relacionados à criminalidade, mas fui me decepcionando com a queda da qualidade do serviço”, afirma ele, que diz não ver problema no preço maior.
A reportagem procurou a Uber e a 99 para verificar se alguma dessas empresas tem planos de lançar serviço semelhante à Rhino, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.




