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Roubos frequentes no Morumbi fazem comércio fechar a porta mais cedo: ‘Estamos morrendo de medo’

Dados oficiais apontam que região teve a maior alta de crimes desse tipo na capital; tentativa de assalto terminou em tiros nesta semana. Estado diz reforçar policiamento quando necessário

Foto do author Giovanna Castro
Por Giovanna Castro
Atualização:

A recorrência e a violência de assaltos no Morumbi, bairro da zona sul de São Paulo, tem preocupado comerciantes e moradores da região. O bairro teve a maior alta de roubos (37%) de toda a capital no último ano, apontam dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado. Para tentar se proteger, os empresários têm fechado as portas mais cedo e, assim como os prédios residenciais, contratado segurança particular.

Nesta terça-feira, 13, uma tentativa de assalto resultou em disparo de arma de fogo e morte de um suspeito em plena luz do dia na Rua Deputado João Sussumu Hirata, uma das mais movimentadas da região. Quatro homens armados, que chegaram em motocicletas, tentaram roubar um veículo e foram surpreendidos por um policial militar que, mesmo de folga, reagiu. Uma câmera de segurança filmou o episódio.

“Os clientes que estavam nas mesas da calçada tiveram de entrar correndo na loja para se proteger. Uma mulher usou o próprio corpo de escudo para a mãe idosa. Cena de horror”, contou um comerciante, que preferiu não se identificar, ao Estadão. “Naquela hora, pensei em fechar a loja de vez”, disse.

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“O faturamento já caiu muito nos últimos anos, porque as pessoas têm medo de andar na rua, não passeiam mais a pé como antes. O que me mantém firme é saber que tenho oito funcionários, e consequentemente, famílias, que dependem deste negócio”, completou o lojista.

Na opinião dos empresários e vendedores, a falta de mais policiamento e uma iluminação pública insuficiente nas ruas contribuem para o cenário.

Alguns comércios, como o de Eliane Silvestre, dona de um ateliê de costura, têm optado por fechar as portas mais cedo. “Estamos morrendo de medo, mantendo a porta fechada e abrindo só para clientes. Antes, fechávamos às 19h, mas agora estamos preferindo começar mais cedo e fechar às 18h”, diz.

“As clientes dizem ter medo de vir. Muita gente prefere fazer compras só no shopping, entrando direto pelo estacionamento, do que parar o carro na rua e comprar em lojas de rua, como a nossa”, afirma Eliane, que mora no bairro há mais de 20 anos. Segundo ela, a área sempre foi violenta, mas piorou nos últimos anos, o que se reflete até mesmo na desvalorização dos imóveis.

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Marcia dos Santos, 32 anos, vendedora, diz que o sentimento coletivo é de tensão. “Pelo menos uma vez por semana, a gente vê algo parecido (com a tentativa de assalto nesta semana) ou alguém contando sobre um assalto”, afirma. “No caminho para o ponto de ônibus, ali na (Avenida) Giovanni Gronchi, também ficamos com medo, andamos sempre em alerta. É estressante.”

O Estadão mostrou que, no geral, os roubos tiveram queda no ano passado na cidade - os dados mais recentes são de dezembro, já que os dados de janeiro serão divulgados apenas no fim de fevereiro. Foram 133 mil roubos no ano passado, ante 142 mil em 2022 em toda a cidade, queda de 6,7%.

Apesar da redução, especialistas apontam que os roubos seguem em patamares elevados e aumentam a sensação de insegurança. Isso faz com que esses crimes sejam um dos principais desafios do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) nessa área.

Casos violentos têm feito comércios recorrerem à contratação de segurança privada  Foto: Daniel Teixeira/Estadão

A Secretaria de Segurança Pública disse que “enfatiza que suas forças policiais monitoram de perto os índices de criminalidade (caso do Morumbi) em todas as regiões da capital e do Estado”.

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Quando identificada uma área com alta de crimes patrimoniais ou contra a vida, prossegue a pasta, “são implementadas medidas como o reforço do efetivo policial ou realocação de recursos, de acordo com a estratégia operacional mais eficaz”.

Conforme a secretaria, na região do 89° Distrito Policial (Morumbi), houve 1.395 prisões e apreensões em 2023, aumento de 38,7% em comparação a 2022. Ao longo do ano, também foram retiradas das ruas do bairro 167 armas de fogo e recuperados 401 veículos roubados ou furtados.

Sobre a iluminação pública do bairro, procurada pelo Estadão, a Prefeitura de São Paulo disse que “em atenção às reclamações dos moradores sobre a iluminação, a SP Regula (pasta responsável pelo tema) vai realizar uma inspeção no local e avaliar possíveis deficiências, visando aprimoramentos necessários”.

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Segurança privada e carros blindados

Os comerciantes têm se unido e contratado empresas de segurança particular, que fazem rondas. “Mesmo assim, parece não inibir os bandidos. Até porque esses seguranças particulares não têm arma nem podem prender”, comentou uma empresária, que também pede anonimato. Condomínios residenciais também pagam por esse tipo de segurança para além dos muros dos prédios.

Boa parte dos roubos ocorre por meio de abordagens a carros. “Quem tem condições só anda de carro blindado no Morumbi. Eles atacam principalmente em locais onde tem trânsito de carros, como nas portas de escolas e nos semáforos”, diz Maria Paula Albuquerque, 42 anos, contadora e moradora do bairro há mais de 20 anos.

Entradas e saídas de comércios, especialmente os de grande porte, como supermercados, também são visadas, segundo moradores. Na maioria das vezes, eles levam o celular da vítima. A facilidade de transferências bancárias pelo telefone, como o Pix, aumentou o interesse das quadrilhas nesses equipamentos.

Moradores e comerciantes relatam maior sensação de insegurança. Na Rua Deputado João Sussumu Hirata, uma tentativa de assalto terminou com um suspeito morto por um PM nesta semana Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Na capital paulista, 58 dos 93 distritos apresentaram redução de roubos no ano passado, enquanto o crime subiu em outros 21. Em 14, houve estabilidade (com 2% ou menos de variação).

As maiores altas de roubos foram no Portal do Morumbi (37%) e Itaim Bibi (28%), na zona sul, assim como na Aclimação (28%), no centro expandido. A maior queda de roubos foi no Butantã (29%), zona oeste da capital, seguido de Parque Bristol (28%), na zona sul, e Teotônio Vilela (26%), na leste.

Sobre a tentativa de roubo que acabou com a morte de um suspeito, a Secretaria da Segurança disse que o jovem baleado, de 19 anos, fazia parte da quadrilha e que o PM, de 27 anos, reagiu ao ver a cena.

“Ao perceber a presença do policial, o jovem apontou uma arma de fogo em direção ao policial, que interveio. O homem foi atingido e socorrido ao Hospital do Campo Limpo, onde veio a óbito”, diz a SSP. Os outros três suspeitos fugiram.

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As armas do policial e do suspeito foram apreendidas e a perícia acionada, conforme a pasta. “O caso foi registrado como roubo tentado, resistência e morte decorrente de intervenção policial no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).”

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