Policial morto em Santos já teve irmão PM assassinado: ‘Nossa família dilacerada e ninguém liga’

Soldado da Rota foi morto na sexta-feira no litoral paulista. Pai lamenta a perda do segundo filho para a violência: ‘Estamos sem chão’

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Por José Maria Tomazela
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“Nossa família está dilacerada. Nós, os pais, avós, os irmãos que ficaram, os primos, as duas netinhas, estamos sem chão. Somos uma família de oito policiais, mas esta é a segunda perda nas mesmas circunstâncias. E ninguém liga para isso, é uma luta inglória.” O desabafo é do policial civil Antônio Marcos Cosmo, de 52 anos, pai do soldado da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), Samuel Wesley Cosmo, de 35, assassinado em Santos, no litoral de São Paulo, na última sexta-feira, 2. Ele é pai também do PM Kennedy Willian Cosmo, morto em serviço por criminosos em abril de 2018.

Cosmo, que é chefe de divisão na Polícia Civil do Distrito Federal, falou com o Estadão por telefone, ainda abalado pelo recente episódio de violência que vitimou seu filho.

“A gente tem uma guerra e é uma luta inglória porque veem como se fosse uma causa pessoal nossa. Você não vê hoje uma política de segurança do País, de apoio aos policiais como uma base legal forte, nem uma política do Estado voltada para isso. É por isso, que entra dia, sai dia, morre um, morre outro. Veja quantas pessoas se arvoraram para criticar esse criminoso”, disse.

Samuel foi o quinto policial morto no Estado em um período de menos de 20 dias, entre janeiro e o início de fevereiro. Além dele, outros três policiais de folga (um deles da reserva) e um em serviço foram mortos em ações violentas. A Secretaria da Segurança Pública diz investigar o caso e adotar medidas de investigação e repressão à criminalidade, como a deflagração de operações Escudo. Sete pessoas já foram mortas na região em ações policiais recentes; a pasta fala em confrontos.

Com 52 anos, Cosmo atuou também na Polícia Militar de São Paulo, onde dois de seus irmãos e uma cunhada também atuam. O filho do meio, entre Samuel e Kennedy, é policial civil na capital paulista.

“Eu fui o primeiro a entrar na polícia, infelizmente ou felizmente, e arrastei todos eles pelo exemplo. Sabendo de como era (ser policial), eu nunca falei nem incentivei nenhum deles a entrar na polícia, porque eu sabia da ingratidão que é isso. Eles entraram porque gostam, amavam o que faziam, têm o sangue do pai.”

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Samuel Cosmo, da Rota, ao lado do irmão Kennedy, na festa de formatura dele, na PM de São Paulo Foto: Antônio Marcos Cosmo

Quando era policial militar, Cosmo, o pai, e um irmão dele PM também foram baleados em serviço, por isso ele torcia para que Samuel deixasse a polícia.

“Era um menino que amava o que fazia. Nunca fez outra coisa senão ser polícia. Entrou novinho e eu cansei de falar: ‘Faz outra coisa, estuda’. Estava agora fazendo escola de educação física, mas porque gostava, não para sair da PM. Mas eu falei para sair, fazer curso superior e ir para outra coisa. Nem teve tempo de terminar os estudos.”

O pai tem Samuel na lembrança como um filho extremamente dedicado à polícia. “Ele fazia tudo com excelência. Um jovem com 63 elogios e quatro condecorações em sua carreira tão curta, só pode ter sido em exímio policial. E ficaram aí suas filhinhas, as duas menininhas gêmeas, mas você não vê política do Estado, cultura da população, ninguém criticando o criminoso. Arranjam um monte de gente para falar que o marginal, quando morre, ele se santifica. É esse tipo de coisa que mata a gente todo dia.”

Cosmo está em vias de se aposentar na Polícia Civil do Distrito Federal, onde chefia uma equipe da Divisão de Repressão a Sequestros. “Se tem uma coisa de que mais me arrependo é de ter levado meus filhos para a polícia. Hoje só penso em parar, o mais rápido possível. O problema não é o criminoso, é quem defende o criminoso. Você vê na Câmara (dos Deputados) eles se estapeando por causa orçamento, mas nenhum tem um projeto que dê efetivamente amparo legal à polícia.”

O policial lembrou que o filho usava câmera corporal no uniforme, mas isso não deteve o agressor. “Tem uma campanha grande para colocar câmeras corporais, porque na visão deles os policiais são verdadeiros assassinos e precisam ser controlados pelas câmeras. Esse marginal que matou meu filho sabia que não ia morrer porque estava sendo gravado, mesmo assim, na frente da câmera ele teve a ousadia de assassinar meu filho.”

O uso de câmeras corporais está sob debate no governo de São Paulo, Estado que dispõe de 10 mil equipamentos para a tropa. No País, o uso da tecnologia quadruplicou nos últimos dois anos, como mostrou reportagem do Estadão. Estudos apontam que o equipamento favorece a redução da força letal por parte dos policiais e potencializa a qualidade do atendimento às ocorrências. Especialistas ressaltam também que a câmera pode ser instrumento de produção de provas, o que pode favorecer os agentes em julgamentos, por exemplo.

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Soldado Samuel Wesley Cosmo foi morto em Santos, no litoral paulista Foto: Reprodução/Facebook/Polícia Militar

Irmão foi assassinado na saída do trabalho

Em 2018, o pai amargou a perda do outro filho policial militar em São Paulo. Kennedy era quatro anos mais novo do que Samuel e tinha 25 anos quando foi assassinado na saída do trabalho, em Santo André, na região metropolitana de São Paulo.

“Era o caçula entre os policiais, tinha só três anos de PM. Agora só me resta na polícia o filho que é policial civil.” Cosmo perdeu outro filho aos 18 anos – ele tinha paralisia cerebral. Ele tem outros dois filhos menores.

Cosmo espera o envio de documento a Brasília pela PM de São Paulo para se aposentar. “Levo, de um lado, a dor, de outro o orgulho de toda nossa família ter se destacado na polícia de Brasília e de São Paulo. Uma corporação deste tamanho e oito policiais que se destacaram pelos serviços prestados com valentia e profissionalismo. Meu filho morreu como herói.”

De outro lado, ele disse levar no coração a tristeza e frustração com o tratamento dado ao trabalho policial. “Alguma coisa está errada. Se o próprio sistema público não acredita no policial e usa essas ferramentas para oprimir o policial mais do que para apoiar, não tem como ter coragem de continuar trabalhando. A gente vai continuar entregando nossas vidas e as de nossos filhos nessa luta inglória que não vai nos levar a lugar algum.”

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