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USP concede medalha Armando de Salles Oliveira a Julio de Mesquita Filho, In Memoriam

Homenagem foi oferecida na primeira celebração oficial pelo aniversário dos 90 anos da universidade

Foto do author Gonçalo Junior
Foto do author Zeca  Ferreira
Por Gonçalo Junior e Zeca Ferreira
Atualização:

Na primeira solenidade oficial de celebração pelo seu aniversário de 90 anos, a Universidade de São Paulo (USP) concedeu a medalha “Armando de Salles Oliveira” a Julio de Mesquita Filho, In Memoriam, nesta quinta-feira, 25, na Sala São Paulo, nos Campos Elíseos, região central da cidade. O evento contou com a presença do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), ministros de Estado, além de representantes dos poderes Legislativo e Judiciário.

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Instituída em 2008, a honraria foi criada para homenagear pessoas, entidades e organizações que contribuíram de modo excepcional para a valorização institucional, cultural, social e acadêmica da USP. O jornalista e historiador Rodrigo Lara Mesquita, neto de Julio de Mesquita Filho, recebeu a homenagem em nome do avô.

Julio de Mesquita Filho (1892 – 1969) dedicou-se ao jornalismo, à política e à educação. Como jornalista, comandou a redação do jornal O Estado de S. Paulo por 37 anos. Como político, foi exilado em duas ocasiões. E como educador teve atuação intensa em duas conquistas da educação brasileira: a criação da USP e a votação da Lei de Diretrizes e Bases de 1961.

“Mais do que uma homenagem ao meu avô, é um reconhecimento do compromisso do jornal com a sociedade”, afirmou Rodrigo Lara Mesquita.

Rodrigo Lara Mesquita (à esq.) recebe medalha e certificado em homenagem a Julio de Mesquita Filho Foto: Taba Benedicto/Estadão

Em seu pronunciamento, o reitor da USP, Carlos Gilberto Carlotti Junior, destacou o papel central de Julio de Mesquita Filho e do jornal O Estado de S. Paulo na fundação da USP. “A Universidade de São Paulo é o resultado do pensamento livre que existia em nosso Estado no final do anos 1920 e começo dos anos 1930, principalmente considerando as mudanças políticas e sociais após a derrota paulista na Revolução Constitucionalista. Foi na redação do jornal O Estado de S. Paulo, sob a liderança de Julio de Mesquita Filho e de Fernando de Azevedo, que a ideia tomou corpo”, disse o reitor.

“O que estava em questão eram os destinos da República e da democracia. Essas importantes lideranças, em consórcio com os governantes estaduais e com o grupo dos reformadores da educação, autores do Manifesto da Educação Nova, de 1932, mobilizaram energias poderosas”, afirmou.

O presidente Lula destacou a contribuição da Universidade de São Paulo para a formação de líderes no País. “Não tive a oportunidade de estudar na USP. Mas tenho de agradecer muito à USP pelos ministros que vocês ofereceram para a minha presidência”, afirmou. “Também quero agradecer pelos homens e mulheres que ajudaram a construir o Brasil”, afirmou o presidente.

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou da celebração dos 90 anos da USP e foi homenageado como representante do Poder Executivo Foto: Taba Benedicto/Estadão

Lula afirmou ainda a necessidade de replicar o exemplo da universidade em outros Estados. “Sinceramente, eu acho que ter uma USP, apenas uma grande universidade no ranking mundial das 100 melhores universidades, é muito pouco. É muito pouco, querido Camilo Santana (ministro da Educação), nós precisamos de mais. Não uma USP em São Paulo, mas quem sabe uma USP em cada Estado desse país”, afirmou em discurso de encerramento do evento.

Compromisso com a modernização do ensino no País

Julio de Mesquita Filho já se mostrava preocupado com as deficiências do ensino brasileiro no livro A Crise Nacional, publicado em 1925. Universidades que formavam apenas para a profissão, além da falta de preparação de docentes e de uma prática científica consistente, justificavam o descontentamento. Mesquita Filho compartilhou suas inquietações com o educador Fernando de Azevedo, o engenheiro Armando de Salles Oliveira, seu cunhado e também diretor do Estadão, e outros intelectuais. Com esse espírito, o jornal O Estado de S. Paulo iniciou uma pesquisa sobre a situação da educação em São Paulo em 1926.

O inquérito, como a pesquisa ficou conhecida, investigou o ensino primário, secundário, profissionalizante e superior em São Paulo com questionários enviados para especialistas e estudiosos. As respostas foram publicadas no jornal sob o título A Instrucção Publica em S.Paulo, em 34 colunas entre junho e dezembro de 1926.

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O projeto de criação de uma universidade em São Paulo, inspirada na experiência francesa, se cristalizou na visão de Mesquita Filho após a prisão e o exílio na Europa, provocados pelas turbulências da Revolução de 1932. A necessidade de reconstrução educacional, compartilhada com outros pensadores de destaque, foi sintetizada no Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, documento publicado em 1932 e que propunha um ensino escolar público, laico, universal, obrigatório e gratuito, oferecido pelo Estado e sintonizado com amplo projeto político democrático e liberal.

Entre os signatários figuram nomes de educadores, cientistas e intelectuais envolvidos com a modernização educacional e cultural do Brasil, como Anísio Teixeira, Cecília Meireles, Roquette Pinto, Mesquita Filho, entre outros. Em seu discurso, o reitor da USP recomendou a leitura do documento, destacando sua atualidade.

1937. Forma-se a primeira turma da Faculdade de Filosofia. O paraninfo é Julio de Mesquita Filho (no centro), um dos fundadores da universidade. Foto: Acervo/Estadão

Quando Armando de Salles Oliveira foi nomeado interventor do Estado, Julio de Mesquita Filho voltou a integrar a comissão para a criação da USP, posição que já havia ocupado. Como coordenador, encarregou o professor Teodoro Ramos de buscar jovens talentos na Europa. Vieram Georges Dumas, Claude Lévi-Strauss, Fernand Paul Braudel, Roger Bastide e Pierre Monbeig. Armando de Salles Oliveira publicou o decreto da criação da USP em 25 de janeiro de 1934.

“É de capital importância para as nacionalidades a organização de um ensino secundário capaz de suscitar valores e capacidades em condições de constituir uma sólida elite dirigente”, afirmou o jornalista no discurso de paraninfo da primeira turma da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, em 25 de janeiro de 1937.

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Luta pela educação gratuita e universal

A atuação decisiva na criação da USP não seria menos importante que a luta de Mesquita Filho pela instituição do dever do Estado brasileiro de oferecer escola básica para todos. O engajamento foi simbolizado pela Campanha em Defesa da Escola Pública, de 1959 e 1960. Foi uma discussão sobre o que deveria ser o cerne da própria educação pública.

Críticos da escola pública destacavam suas deficiências, comparando-a com a escola privada. Defendiam a tese de que o eixo da educação brasileira deveria ser invertido, com favorecimento ao ensino privado.

O ex-diretor do 'Estado' Julio de Mesquita Filho Foto: Editora Albatroz

Um grupo de educadores, liderados por Fernando de Azevedo, com o apoio de Mesquita Filho, redigiram o Manifesto dos Educadores, publicado em janeiro de 1959 e reproduzido em vários jornais brasileiros, até mesmo no Diário do Congresso Nacional. O texto fazia referência ao documento de 1932.

No final dos anos 1950, o novo manifesto tomou a forma de uma verdadeira convocação à sociedade e ao governo para uma tomada de posição em defesa “da educação democrática, da escola democrática e progressista que tem como postulados a liberdade de pensamento e a igualdade de oportunidades para todos”.

Mesquita Filho foi acompanhado por representantes da esquerda, como o sociólogo Florestan Fernandes, e educadores liberais. Em defesa da educação pública de qualidade, Mesquita Filho superava as colorações ideológicas ou partidárias.

Professores, especialmente da USP, fizeram conferências e debates em defesa da escola pública, com apoio de pais e alunos. A campanha mobilizou sindicatos operários, com convenções e congressos de diferentes categorias. O envolvimento do jornal O Estado de S. Paulo deu visibilidade ao debate. A campanha alcançou êxito com a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases, de 1961, marco da consolidação da escola pública gratuita e laica no País.

Abaixo a lista dos homenageados com a medalha “Armando de Salles Oliveira” oferecida pela USP:

Entidades associadas

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  • Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP
  • Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto
  • Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares
  • Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo
  • Instituto Butantan
  • Marinha do Brasil

Agências de Fomento

  • Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp)
  • Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)
  • Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes)
  • Financiadora de Estudos e Projetos (Finep)

Sociedades científicas e culturais

  • Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)
  • Academia Brasileira de Ciências (ABC)
  • Academia de Ciências do Estado de São Paulo
  • Academia Brasileira de Letras (ABL)
  • Academia Paulista de Letras
  • Associação Brasileira de Imprensa

Fundadores

  • Fernando de Azevedo (In Memorian): Arturo Alcorta
  • Julio de Mesquita Filho (In Memorian): Rodrigo Lara Mesquita representando a família

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Universidades Estaduais

  • Universidade Estadual de Campinas
  • Universidade Estadual Paulista

Órgãos do Judiciário e Controle Externo

  • Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
  • Supremo Tribunal Federal
  • Tribunal de Contas do Estado de São Paulo
  • Ministério Público do Estado de São Paulo

Órgãos Legislativos

  • Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo
  • Congresso Nacional

Poder Executivo

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  • Governo do Estado de São Paulo
  • Governo da República Federativa do Brasil
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