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Como tornar um bairro mais agradável para morar? Veja 5 caminhos para mudança

Guia indica mudanças necessárias para o planejamento urbano local; veja sugestões para tornar bairros mais resilientes, vibrantes, compactos, inclusivos e conectados

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Por Priscila Mengue
Atualização:

Como tornar um bairro mais saudável, sustentável e resiliente? Dezenas de indicações estão reunidas na edição atualizada do guia “My neighborhood” (“Minha vizinhança” em tradução livre), lançada no início deste ano pela ONU Habitat, agência da Organização das Nações Unidas (ONU) voltada à promoção de um desenvolvimento urbano social, econômico e ambientalmente sustentável.

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Com autoria principal da urbanista Anastasia Ignatova, o manual se propõe a ser uma base adaptável a diferentes realidades. O material reúne indicações de possíveis melhorias no transporte, na habitação, nos espaços públicos e em outros aspectos cotidianos da escala local (de um bairro ou de uma rua, por exemplo), visando a um planejamento urbano integrado.

Os pontos são separados em cinco temáticas: cidades compactas, cidades conectadas, cidades vibrantes, cidades inclusivas e cidades resilientes. Entre as mudanças defendidas, estão a verticalização, a promoção do uso misto, o desestímulo ao transporte motorizado e a difusão de telhados verdes. A seguir, confira algumas das principais sugestões para cada um dos cinco eixos.

Movimentação no entorno do Museu do Louvre, em Paris; capital francesa é referência em políticas públicas para cidades compactas Foto: Gonzalo Fuentes/Reuters - 27/03/2024

Por que tornar um bairro mais compacto? E como?

Bairros compactos são bairros completos. Isto é, têm o essencial a uma curta distância, desde o atendimento em saúde e uma escola até comércios, serviços, moradia e lazer. Em locais como Paris, políticas públicas têm buscado a transformação em uma “cidade de 15 minutos” a pé. O guia é ainda mais ambicioso, pois fala na disponibilidade de parte dos serviços mais básicos a cinco minutos, o que representa cerca de 400 metros de distância.

Para otimizar o acesso a essas facilidades, o manual defende a alta densidade, o que representaria cerca de 150 habitantes por hectare. Essa média indicada é o dobro da registrada na cidade de São Paulo, segundo o IBGE.

Internacionalmente, um dos principais exemplos é Barcelona, com 164 moradores por hectare, segundo dados oficiais de 2020. Uma referência na América do Sul é a Cidade Autônoma de Buenos Aires, com 150 moradores por hectare, de acordo com censo argentino de 2022.

“No entanto, os indicadores de densidade podem variar e devem ser cuidadosamente avaliados dependendo do contexto”, pondera a publicação.

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Além disso, a distribuição dos usos indicada é de 40% a 60% da área voltada ao econômico, de 30% a 50% ao residencial e 10% aos serviços públicos. “Os níveis mais baixos do edifício devem ser reservados para usos comerciais ou serviços públicos”, aponta o guia.

Praça de Maio, na Cidade Autônoma Buenos Aires; densidade populacional local está dentro dos parâmetros indicados pelo guia da ONU Foto: Agustin Marcarian/Reuters - 24/03/2024

Outro ponto é a promoção de “ruas completas”, com acessibilidade universal, usos diversificados e infraestrutura para mobilidade a pé e de bicicleta, por exemplo. Isto é, são vias que não priorizam o tráfego por carro. “Alcançar uma cidade compacta implica em criar um espaço urbano eficiente, seguro, confortável e atrativo para todos os seus moradores”, destaca o guia.

Dentre as características de um bairro compacto, estão:

  • Infraestrutura adequada e acessível para deslocamentos a pé e de bicicleta;
  • Praça ou outro espaço público ao ar livre a 5 minutos a pé;
  • Arborização (a fim de melhorar o microclima e bem-estar local);
  • Alta densidade populacional e edifícios de uso misto (que têm simultaneamente apartamentos e escritórios e/ou estabelecimentos comerciais e de serviços, por exemplo);
  • Verticalização, com bom aproveitamento dos térreos (com lojas e outros espaços de acesso ao público em geral) e terraços verdes (com hortas e espaços de lazer);
  • Transporte coletivo eficiente, com um modo de baixa capacidade (como ônibus) a até 500 metros de distância e/ou, no caso de alta capacidade (como metrô), a até 1 quilômetro;
  • Menor oferta de estacionamento em área pública e preferência por pavimentação permeável ou semipermeável (a fim de desestimular o transporte por carro e melhorar a drenagem).
Movimento na Praça da Catalunha, em Barcelona; cidade espanhola tem alta densidade populacional, próxima da média indicada por guia da ONU Foto: Albert Gea/Reuters - 20/03/2024

Por que tornar um bairro mais resiliente? E como?

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Com o avanço das mudanças climáticas, a adaptação das cidades para chuvas intensas, ondas de calor e outros extremos tem se mostrado ainda mais necessária. “Os bairros resilientes são menos vulneráveis a mudanças repentinas e sustentam o funcionamento de serviços e sistemas urbanos, que podem ajudar a resistir a qualquer crise potencial e facilitar o processo de recuperação”, diz o guia.

A publicação da ONU Habitat fala em medidas para a redução de vulnerabilidades e rápida resposta em situações de emergência. Nesse contexto, é ainda mais importante que as vizinhanças sejam autossuficientes, especialmente para evitar a escassez de itens básicos. Por isso, defende o uso misto e a alta densidade, dentre outros aspectos já citados nos demais temas.

Além disso, destaca que o planejamento urbano local permite a identificação de pequenas intervenções para tornar os bairros mais resilientes, a partir das características topográficas, de incidência solar e climáticas, por exemplo. Isso envolve desde a drenagem urbana até a construção de edificações melhor adaptadas (o que pode reduzir o consumo de energia, por exemplo).

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Exemplos frequentes neste campo são as “soluções baseadas na natureza”, como os “parques esponja”, com recuos na topografia voltados ao funcionamento como “piscinões” naturais nos períodos de chuva intensa, diminuindo alagamentos no entorno. Esse tipo de espaço ganhou expressão principalmente após experiências em cidades da China, como Shenzhen e Pequim.

Movimento no entorno da Cidade Proibida, em Pequim; China é principal referência mundial em Soluções Baseadas na Natureza Foto: Edison Veiga/Estadão - 08/09/2016

Dentre as características de um bairro resiliente, estão:

  • Uso misto, alta densidade e disponibilidade de serviços a uma distância caminhável;
  • Quarteirões pequenos (a fim de facilitar os deslocamentos no dia a dia e evacuação no caso de desastres);
  • Acessibilidade universal nas vias e transporte multimodal;
  • Oferta de habitação a preços acessíveis;
  • Desenho urbano responsivo e adaptado às características locais;
  • Mitigação de perigos, especialmente em zonas de risco (com a adoção de medidas diversas, como a criação de rotas de evacuação e a implantação de sistemas de alerta);
  • Ruas arborizadas e com superfícies permeáveis;
  • Implantação de espaços públicos de mitigação (como parques inundáveis, jardins de chuvas e outros);
  • Edifícios responsivos ao clima (projetados para melhor aproveitar as condições locais e reduzir o consumo energético, voltadas a incidência solar e ventilação natural, por exemplo);
  • Preservação e integração com a natureza;
  • Promover a agricultura urbana;
  • Investimento em telhados verdes (com hortas e vegetação em geral);
  • Utilização prioritária de matéria-prima local;
  • Acesso ao emprego próximo da moradia.

Por que tornar um bairro mais conectado? E como?

O guia explica que o “ambiente urbano da cidade conectada considera as ruas como espaços públicos abertos, vibrantes, seguros, atraentes e acessíveis”. Isto é, a mobilidade urbana é pensada em conjunto, a fim de otimizar os deslocamentos não motorizados e desestimular o uso do carro.

Para tanto, indica-se que cerca 30% das áreas públicas destinadas ao tráfego sejam voltadas à circulação e parada de pedestres e ciclistas, por exemplo. Além disso, há a indicação de que a velocidade dos automóveis seja reduzida para 30 km/h.

Essa limitação de velocidade envolve políticas de “traffic calming”. Zonas com tráfego a 30 km/h têm crescido na Europa, com ampla difusão em metrópoles e cidades médias, como Londres, Bruxelas e, mais recentemente, Bolonha, na Itália, dentre outras.

“É importante que os percursos para deslocamentos a pé, de bicicleta e em transporte público estejam claramente definidos. A hierarquia geral deve dar prioridade aos modos de transporte sustentáveis (‘hierarquia verde’) e incluir rotas arteriais e ruas locais com base nas diferenças de velocidade do tráfego”, salienta a publicação da ONU Habitat.

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Dentre as características de um bairro conectado, estão:

  • Priorização do transporte não motorizado e a pé;
  • Vias e ciclovias com rotas conectadas, que permitam deslocamentos medianos e longos;
  • Rede de transporte multimodal (isto é, oferta variada, que permita que um mesmo deslocamento utilize mais de uma opção, por exemplo);
  • Oferta de transporte coletivo a cerca 500 metros de distância, a depender das características do modo disponível;
  • Instalação de bicicletários em diversas áreas;
  • Serviços básicos localizados a uma distância “caminhável”, de 5 a 15 minutos a pé;
  • Caminhos seguros e confortáveis, com boa iluminação, arborização e sinalização;
  • Espaços de descanso e estar nas calçadas, com arborização e mobiliário urbano;
  • Acessibilidade universal, adequada a pessoas de todas as idades e com deficiência (como rampas no meio fio e superfície tátil, por exemplo);
  • Fachadas ativas (estabelecimentos comerciais e de serviços nos térreos dos prédios).

Por que tornar um bairro mais inclusivo? E como?

Vizinhanças inclusivas são aquelas em que todos têm acesso a serviços, emprego, transporte, espaço público e oportunidades. O guia da ONU destaca que os “espaços públicos abertos de uma cidade inclusiva são acolhedores para todos os visitantes, a habitação é acessível e atrai uma gama diversificada de residentes”.

A inclusão envolve também uma diversidade populacional, que engloba moradores com variados perfis socioeconômicos. Isto é, um bairro no qual pessoas de faixas de renda e perfis de famílias distintos convivam, com opções de moradia de diversos portes e custos, por exemplo.

O manual indica de 20% a 50% de habitações de renda acessível. Esse ponto engloba também o tipo de posse, isto é, imóvel próprio ou alugado. Nesse caso, o sugerido é que seja por volta de meio a meio.

Além disso, a diversidade também está ligada ao uso misto. “Em um bairro com uso misto do solo, são geradas oportunidades de emprego para residentes de diferentes origens e níveis de renda”, justifica o guia.

Um exemplo de política pública inclusiva ocorre em Paris. Uma reportagem recente do The New York Times chamou a atenção para os investimentos em aluguel social na capital francesa, na qual cerca de um quarto da população vive em moradias públicas. A medida tem o objetivo de garantir a diversidade social e reduzir a elitização de bairros de melhor infraestrutura.

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Jardins das Tulherias, em Paris; capital francesa tem políticas públicas para promover diversidade social Foto: Gonzalo Fuentes/Reuters - 27/03/2024

Dentre as características de um bairro inclusivo, estão:

  • Opções de moradia variadas (para diferentes perfis socioeconômicos);
  • Quadras com moradia diversificada (com distintos tamanhos, padrões e tipos de posse);
  • Estações e paradas de transporte coletivo com acessibilidade, sombra e assentos;
  • Calçadas, prédios e espaços públicos com “desenho universal”, com rampas, piso tátil, largura adequada para circulação e outras intervenções de acessibilidade;
  • Ambientes acolhedores (para que a população de todas as rendas e origens, como imigrantes, se sintam à vontade para frequentar).

Por que tornar um bairro mais ‘vibrante’? E como?

Vizinhanças vibrantes são aquelas em que há uma ampla gama de atividades, oportunidades e serviços. “Um ambiente urbano vibrante forma a identidade do lugar, facilita a interação social, a comunicação, as atividades físicas e a aprendizagem e atrai as pessoas a viver, trabalhar e passar tempo”, explica o manual da ONU Habitat.

O material também defende uma multiplicidade de propostas na arquitetura, no design e nos usos dos espaços, assim como opções de diversos portes e características. “A diversidade de parcelas e lotes promove uma grande diversidade de tecido urbano e formas arquitetônicas necessárias para criar uma paisagem urbana vibrante”, destaca.

Além do já citado exemplo de Paris, outra capital que tem chamado a atenção com ações contra a gentrificação há anos é Viena. A capital austríaca tem milhares de apartamentos de propriedade municipal, alugados para moradores a partir dos 17 anos.

Movimentação de pessoas em Paris; capital francesa tem investido em políticas para combater a gentrificação Foto: Gonzalo Fuentes/Reuters - 27/03/2024

Ao longo do guia, diversos aspectos aparecem em mais de um dos cinco eixos temáticos. No caso das cidades vibrantes, por exemplo, o manual volta a defender o uso misto, os espaços públicos qualificados e a diversidade populacional, dentre outros pontos.

Nesse aspecto, é importante considerar técnicas e materiais ideais para a realidade climática e necessidades locais. “Para facilitar a vitalidade do ambiente construído e das comunidades, deve ser apoiado um certo grau de densidade urbana”, salienta a publicação.

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“O desenvolvimento vertical de uso misto facilita a ativação da borda da rua através de usos comerciais e de varejo no térreo, ao mesmo tempo que proporciona fácil acesso a oportunidades de emprego locais, promovendo a facilidade de locomoção, garantindo melhor segurança e enfatizando a identidade local por meio de pequenas empresas e elementos de design”, justifica.

Dentre as características de um bairro vibrante, estão:

  • Uso misto, fachadas ativas, verticalização, espaços públicos qualificados, boa oferta de transporte multimodal e diversidade populacional;
  • Intervenções urbanas temporárias (a fim de identificar demandas locais e que até possam se tornar mudanças definitivas, como restrições ao tráfego de automóveis em determinados dias);
  • Equilíbrio na oferta de emprego, serviços, comércio e lazer;
  • Diversidade no porte e nas características das construções e espaços públicos;
  • Remodelação de espaços e construções subutilizados ou abandonados;
  • Valorização da identidade local (o que vai desde costumes até a arquitetura vernacular, com técnicas e materiais tradicionais);
  • Planejamento urbano e arquitetônico adaptado às características locais (cultura, clima, topografia etc);
  • Transporte público com tarifa acessível a toda população;
  • Preservação e valorização do meio ambiente local (da vegetação nativa e dos cursos d’água, por exemplo);
  • Oferta diversificada de atividades nos espaços públicos;
  • Presença de pequenos comércios e serviços locais.

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