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Casal de mecenas doa US$ 1,9 bi para arte e combate às mudanças climáticas. E acaba na mira; entenda

Conheça a história de Lynda e Stewart Resnick, donos de império bilionário que estão recebendo a gratidão de instituições e de pessoas e, ao mesmo tempo, críticas

Por Robin Pogrebin

THE NEW YORK TIMES - De pé na imensa escadaria da opulenta mansão de Lynda e Stewart Resnick, em Beverly Hills, durante uma festa no ano passado – com luminares como Diane Keaton, Bob Iger e Brian Grazer batendo papo sobre crudités e coquetéis Sazerac – o autor Walter Isaacson pediu um momento para agradecer aos anfitriões.

Os Resnick não só deram a festa para celebrar sua nova biografia de Elon Musk, como também foram grandes patrocinadores da antiga sede profissional do biógrafo, o Aspen Institute: doaram US$ 36 milhões ao think tank ao longo dos anos.

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Isaacson não era o único ali com motivos para agradecer. Circulando pela casa – cujas paredes estão repletas de obras de Pablo Picasso, Jean-Honoré Fragonard e François Boucher – estavam Michael Govan, diretor do Museu de Arte do Condado de Los Angeles (o LACMA, que recebeu US$ 90 milhões dos Resnick) e Ann Philbin, diretora do Museu Hammer (US$ 30 milhões), bem como Michael Milken, ex-rei dos títulos podres que depois fundou um think tank, o Milken Institute (US$ 25 milhões).

Ao todo, os Resnick – cujo império de negócios Wonderful Company inclui o suco de romã Pom Wonderful, o Pistachios Wonderful, a água Fiji, as tangerinas Halos e o Teleflora, um serviço de entrega de flores – doaram US$ 1,9 bilhão de sua fortuna estimada em US$ 13 bilhões para instituições acadêmicas e iniciativas de combate às mudanças climáticas, além de organizações e programas culturais no Vale Central da Califórnia. Suas doações os colocaram três vezes na lista anual dos 50 maiores doadores da revista Chronicle of Philanthropy.

A filantropa Lynda Resnick em um jardim na Wonderful College Prep Academy em Lost Hills, Califórnia, em 8 de fevereiro de 2024. Ela e seu marido, Stewart, apoiam a escola como parte dos US$ 580 milhões que doaram a programas no Central Valley, onde vivem muitos de seus funcionários. Foto: Adam Amengual/The New York Times

“Eles são de fato um dos maiores defensores do investimento nas instituições públicas de Los Angeles”, disse Govan.

Lynda Resnick, 81 anos, a força motriz por trás dos esforços de caridade do casal, tem como foco particular retribuir ao Vale Central – especificamente a Lost Hills, onde 1 em cada 2 famílias tem um funcionário da Wonderful Company.

Na última década, os Resnick investiram cerca de US$ 580 milhões em Lost Hills e Delano, outra cidade do Vale Central, criando habitação a preços acessíveis; centros de saúde, fitness e bem-estar; um parque e uma nova ponte para pedestres na rodovia 46; e escolas autônomas que oferecem disciplinas facultativas de robótica, ioga e mariachi.

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“É a coisa mais gratificante que já fiz na vida”, disse Lynda Resnick em uma entrevista recente em sua casa. “Você conhece os jovens. Você os vê passar pela escola. Você os vê voltando para o vale, que era meu sonho. Alguns deles estão entrando na política. Muitos deles voltaram a trabalhar para nós em cargos de gerência, não nos trabalhos que seus pais tiveram.”

Mas neste momento em que os filantropos estão cada vez mais sob escrutínio – os museus se afastaram da família Sackler por causa de seu papel na crise dos opiáceos, Warren Kanders deixou o cargo de vice-presidente do Whitney Museum of American Art após protestos contra a venda de gás lacrimogêneo pela sua empresa e ativistas climáticos protestaram contra doadores de museus e membros do conselho – os Resnick descobriram que não estão imunes.

Pessoas caminham ao redor da pista do parque de Lost Hills, Califórnia, financiado por Lynda e Stewart Resnick.  Foto: Adam Amengual/The New York Times

Eles enfrentaram escrutínio pelo uso de um dos recursos mais escassos da Califórnia: água. Uma investigação de 2016 da revista Mother Jones descobriu que os negócios agrícolas dos Resnick “consumiam mais água do estado do que qualquer outra família, fazenda ou empresa”, e suas operações foram criticadas no ano seguinte no documentário Water & Power: A California Heist [”Água e Poder: Um assalto na Califórnia”, em tradução livre].

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No outono passado, dois ativistas protestaram contra os Resnick tanto no LACMA, que deu o nome do casal a seu pavilhão de exposições em reconhecimento a uma doação de US$ 45 milhões, quanto no Hammer, que nomeou seu Centro Cultural Lynda e Stewart Resnick em homenagem aos US$ 30 milhões doados pelo casal. Um dos manifestantes, Yasha Levine, que está trabalhando em um documentário chamado Pistachio Wars, carregava uma placa que dizia: “Hammer homenageia criminosos climáticos”.

“Eles trouxeram muitas melhorias, mas nem tudo são flores”, disse em entrevista Rosanna Esparza, ativista do condado de Kern que se manifestou contra o uso da água pelos Resnick. Em resposta às críticas, Lynda Resnick disse:

Há gerações que somos atacados por causa da água. Não estamos tirando água da torneira de ninguém. Não tenho nada a ver com o abastecimento municipal de água.

Lynda Resnick

O governador da Califórnia, Gavin Newsom, disse que, apesar das críticas às suas práticas agrícolas e apesar de anos de ações judiciais que até agora não conseguiram derrubar os acordos hídricos que os beneficiam, os Resnick estão simplesmente tirando proveito de um bom negócio para eles.

“As regras são essas, e eles as cumprem”, disse Newsom. “Se vamos fazer acusações, nós, como formuladores de políticas, também temos que refletir sobre o sistema que criamos.”

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Os compromissos de caridade dos Resnick, acrescentou ele, são autênticos, consistentes e impactantes. “Conheço muitas pessoas ricas”, disse Newsom, a quem os Resnick fizeram doações generosas, bem como a outros candidatos democratas. “Muitas delas só fazem pose com filantropia. Só querem ver seu nome na fachada. Mas com eles é diferente. Com eles é para valer”.

Em uma tarde recente no Vale Central, Naomi Cruz estava na sala de aula da Wonderful College Prep Academy, onde leciona espanhol no ensino médio, anos depois de se formar na escola em 2018. Manpreet Kaur, que ganhou uma bolsa Wonderful que a ajudou a concluir a faculdade, é gerente do programa de responsabilidade social corporativa da Wonderful e no ano passado foi eleita para o Conselho Municipal de Bakersfield. Andy Anzaldo, neto de um trabalhador rural que vivia ilegalmente no país, começou a trabalhar na fábrica de pistache da Wonderful Company logo depois da faculdade e agora é diretor de operações de responsabilidade social corporativa.

Alunos no refeitório da Wonderful College Prep Academy em Lost Hills, Califórnia, em 8 de fevereiro de 2024. Os Resnicks concedem mais de 300 bolsas de estudo todos os anos para alunos que se formam no ensino médio.  Foto: Adam Amengual/The New York Times

“Stewart e Lynda Resnick não vão estar aqui para sempre. Então, o que vai acontecer com esta comunidade?”, disse Anzaldo, acrescentando que a empresa pretende, portanto, construir um modelo sustentável que dure “centenas de anos”.

A Wonderful Company disse que o impacto é mensurável, com taxas de pré-diabetes caindo no Vale Central, mais de 90% dos estudantes de Delano se formando a cada ano e cerca de 70% frequentando uma faculdade de quatro anos. (Os Resnick concedem mais de 300 bolsas de estudo universitárias todos os anos).

O meio ambiente também está entre as prioridades dos Resnick. Em 2019, doaram 750 milhões de dólares à Caltech para pesquisas sobre mudanças climáticas e sustentabilidade, à época a segunda maior doação a uma universidade americana, depois da doação de 1,8 bilhão de dólares de Michael Bloomberg à Johns Hopkins. Um novo Centro de Sustentabilidade Resnick será inaugurado na Caltech até o fim do ano.

“Se não conseguimos resolver as mudanças climáticas e a sustentabilidade, qual é o sentido de curar o câncer? É um problema de longo prazo”.

Stewart Resnick

Nos últimos cinco anos, o casal destinou mais de US$ 110 milhões para outras universidades e agora está anunciando uma doação de US$ 20 milhões à Universidade Estadual Politécnica da Califórnia para fundar um centro de serviços de carreira para alunos de famílias carentes.

Em Los Angeles, cidade que não tem uma longa tradição de filantropia, os Resnick fizeram grandes doações e serviram como um elo glamoroso entre Hollywood, a arte e a política – eles são próximos de Nancy Pelosi, anfitriã da festa de 100 anos de Norman Lear (que contou com nomes como Warren Beatty e Jane Fonda) e recentemente coorganizaram uma arrecadação de fundos para o presidente Joe Biden em Los Angeles, com Steven Spielberg, Shonda Rhimes e entre outros.

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“Os Resnick deram um grande exemplo”, disse Philbin, que planeja deixar o cargo em novembro. “Não pedimos nada diretamente para nossa campanha de construção, mas Lynda nos procurou e ofereceu a maior doação que já recebemos”.

E embora Govan temesse que, à medida que a economia entrava em colapso em 2008, os Resnick pudessem voltar atrás na doação prometida para o novo pavilhão do LACMA, que tinha acabado de ser construído, ele contou que Lynda Resnick lhe disse que o apoio “agora era mais necessário que nunca”.

Criada na Filadélfia – onde visitava regularmente o Museu da Filadélfia – e em Los Angeles, Lynda Resnick fundou sua agência de publicidade aos 19 anos. (Ela ajudou Daniel Ellsberg a copiar os famosos documentos do Pentágono no xerox da agência).

Desde então, ela aplicou sua abordagem de pesquisa de mercado a empreendimentos de caridade como os do Vale Central, onde, com ajuda de grupos focais e questionários, entendeu que os moradores temiam pelo futuro dos filhos.

Uma ponte para pedestres construída pelos Resnicks sobre a State Highway 46 em Lost Hills, Califórnia. Lynda e Stewart Resnick direcionaram sua fortuna para doações grandes e transformadoras, mas também receberam algumas críticas pelo uso da água em um estado frequentemente árido. Foto: Adam Amengual/The New York Times

“Você não pode chegar, construir uma escola e ir embora. Você não pode chegar, construir um hospital e ir embora”, disse Lynda Resnick. “Se você vai ajudar, você tem que chegar e ficar. Você tem que ficar porque ficar é o mais importante. Então, ficamos”.

Ao longo de muitos anos colecionando arte – Lynda Resnick é conselheira vitalícia do LACMA e conselheira emérita do Museu de Arte da Filadélfia – o casal acumulou um tesouro de pinturas, esculturas e artes decorativas dos séculos 16 ao 20. Obras de arte decoram seus escritórios e casas em Beverly Hills e Aspen, Colorado.

Desde 1993, eles têm um curador particular em tempo integral, Bernard Jazzar, que anteriormente trabalhou no Museu Getty.

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No fim, suas obras irão para instituições públicas como o LACMA, o Metropolitan Museum of Art, a National Gallery e o Museu de Arte da Filadélfia, disse Lynda Resnick. Para tanto, ela recentemente permitiu que diretores de museus se manifestassem e expressassem suas preferências.

“Não estou construindo um museu para mim”, disse ela. “Tudo irá para museus. Você pega emprestado durante a vida e devolve às pessoas quando se vai”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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