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Conheça best-seller que faz releitura de Stephen King e leva racismo nos EUA a cenário de terror

‘O Fardo do Sangue’, de Tiffany D. Jackson, transporta trama de ‘Carrie, a estranha’ para dias atuais e discute intolerância e religião. Autora conversou com ‘Estadão’ sobre a história e justificou capa brasileira, que foi criticada por leitores

Foto do author Julia Queiroz
Por Julia Queiroz

E se o clássico de horror Carrie, a estranha, de Stephen King, se passasse nos dias atuais e revelasse as nuances do racismo nos Estados Unidos? Foi isso que a escritora norte-americana Tiffany D. Jackson fez com O Fardo do Sangue, livro que chegou ao Brasil no final de outubro pela Rocco.

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A obra faz uma releitura da primeira história do rei do terror e alcançou a lista de best-sellers de literatura jovem adulta do jornal The New York Times em sua semana de lançamento. No País, causou polêmica antes mesmo de chegar às livrarias após a revelação da capa nas redes sociais - entenda abaixo.

O livro transporta a trama para o ano de 2014 na pequena cidade de Springville, inspirada por municípios reais que têm ou tinham, há até pouco tempo, bailes de formatura separados por raça.

“Stephen King é um dos meus heróis literários, especialmente no gênero de terror. E sempre adorei o filme Carrie, a estranha. Quando estava pensando no próximo livro a ser escrito, pensei que seria interessante fazer uma espécie de homenagem a ele”, contou Tiffany ao Estadão.

A escritora americana Tiffany D. Jackson, autora de 'O Fardo de Sangue'. Foto: Andrew Fennell/Divulgação

“E então ouvi falar de um caso que aconteceu na Geórgia [estado americano], de uma escola que comemorou seu primeiro baile de formatura integrado. Pensei: ‘Ah, isso seria um ótimo cenário para uma homenagem a Carrie’”, disse.

O enredo

O Fardo do Sangue parte do mesmo lugar que Carrie, a estranha: A protagonista, Maddy, é uma adolescente tímida e solitária que vive sendo caçoada pelos colegas de escola. Nesse cenário, contudo, ela é uma jovem birracial: filha de mãe negra e pai branco.

O pai de Maddy é um fanático religioso que acredita que cometeu um grande pecado ao se envolver com uma mulher negra anos antes, e a garota carrega o fardo de ser o fruto dessa relação. Por ser birracial, ela consegue se passar por uma menina branca alisando o cabelo todos os dias à força do pai.

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Em ‘Carrie, A Estranha’, você tem uma mãe muito fanática. Mas e quanto ao pai fanático e o que ele faria? Muitas vezes, quando você percebe o quanto esses dois indivíduos eram maus, você também percebe que a maldade deles estava enraizada no amor e no cuidado.

Tiffany D. Jackson sobre a relação entre Maddy e o pai

Quando uma tempestade inesperada cai sobre a escola e revela os cabelos crespos e volumosos de Maddy, todos descobrem que ela é uma menina negra. Com isso, o bullying sofrido pela jovem aumenta e as raízes racistas de Springville ficam ainda mais evidentes.

Capa de 'O Fardo do Sangue', da escritora Tiffany D. Jackson Foto: Rocco/Divulgação

A representante da turma, Wendy, fica preocupada com a sua imagem e convence o namorado, Kendrick - um dos poucos alunos negros da escola -, a convidar Maddy para o primeiro baile de formatura interracial do colégio. Ele aceita com relutância, mas acaba se aproximando e desenvolvendo sentimentos pela jovem.

Em meio a tudo isso, Maddy esconde um segredo: ela possui poderes sobrenaturais cada vez mais difíceis de controlar. Quando a história culmina com uma crueldade no baile, um desastre terrível marca a cidade de Springville para sempre.

Colorismo

A história de Tiffany é construída por meio de um narrador em terceira pessoa, que conta o ponto de vista de diversos personagens ao longo dos dias que antecedem o “massacre de Springville”. Além disso, o leitor acompanha a transcrição de um programa de rádio que tenta desvendar os mistérios por trás da tragédia quase dez anos depois.

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“Adoro começar os livros com a resposta já no início. Nesse livro, você sabe que, basicamente, a cidade inteira está morta. O mistério da história está em como e porque isso aconteceu. Você quer continuar lendo para responder a essa pergunta que acontece literalmente nas duas primeiras páginas do livro”, disse a escritora.

Os motivos, claro, são explorados ao longo da história, mas estão intrinsecamente ligados ao racismo e ao colorismo - palavra que explica que pessoas negras têm experiências raciais diferentes a depender da pigmentação e do tom da pele - abordados na trama.

“Esse foi o primeiro livro em que eu falei diretamente sobre raça”, explica Tiffany. Ela também é autora de livros com tramas de suspense como Adulta, lançado pela Rocco em 2023, e de Fumaça Branca, que chegou ao Brasil em 2022 pela Seguinte, selo da Companhia das Letras.

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“[Em O Fardo de Sangue], eu queria falar sobre a ideia de colorismo e a maneira como as pessoas, especificamente as crianças birraciais, são vistas e que tipo de microagressões aconteceram e acontecem nas escolas”.

Tiffany D. Jackson

Ela também teve que transportar a história de Carrie, a estranha para os dias atuais (algo que foi feito sem muito sucesso por uma das adaptações cinematográficas do livro em 2013) e direcionar a trama para adolescentes, já que o livro de King se passa nos anos 1970 e tem como alvo o público adulto.

“Acho que o maior desafio ao escrever esse livro foi, principalmente, garantir que todos os personagens fossem realistas, especialmente em uma cidade pequena”, contou Tiffany. “E também falar sobre a magia dela, os poderes dela. Fiz muitas pesquisas sobre telecinese, então queria que parecesse o mais realista possível”.

Polêmica com a capa

O Fardo do Sangue chegou ao Brasil com polêmica. No início de outubro, a Rocco fez uma publicação no Instagram revelando a capa nacional do livro, mas a imagem gerou revolta de parte do público por retratar uma menina aparentemente branca.

Os comentários questionavam porque a editora não manteve os traços da personagem que aparece na capa norte-americana,. “Amo muito a Tiffany e estava muito animado para essa publicação. Uma pergunta: por que trocaram a capa e colocaram uma menina branca em vez da mulher preta que estava antes e que fazia sentido com a história?”, questionou um internauta. Veja a comparação entre as capas:

Comparações entre a capa norte-americana e a capa brasileira de 'O Fardo do Sangue'. Foto: Katherine Tegen Books/Divulgação e Rocco/Divulgação

“Só fiquei curiosa quanto a um ponto: a sinopse é sobre o racismo, mas a personagem é branca? Sem maldade nenhuma, mas pessoalmente não estou vendo sentido”, escreveu outra usuária. Alguns internautas também acusaram a Rocco de criar a capa a partir de inteligência artificial.

A publicação tem mais de 550 comentários. Em outros posts de divulgação, tirando sorteios, a Rocco costuma receber entre 10 e 40 comentários. Após a repercussão, a editora divulgou uma nota afirmando que a capa não foi feita com IA e que um novo design precisou ser implementado por questões contratuais.

Além disso, a Rocco diz que “a capa representa os temas tratados na obra, inclusive a complexidade da identidade birracial da personagem, ou seja, o fato de que ela se passa por uma adolescente branca com base apenas em sua aparência e na maneira como seus colegas a enxergam. A autora, Tiffany D. Jackson, e sua equipe aprovaram previamente o design da capa brasileira com base nesse contexto”.

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Parte dos leitores se mostrou insatisfeita com a justificativa. “Ainda que [a Tiffany] tenha aprovado, os conceitos de raça estadunidenses não são os mesmos daqui do Brasil. Em respeito aos leitores brasileiros, reconsiderem a mudança da capa. Demonstraria respeito por aqueles que acompanham vocês. Eu só tenho elogios, por exemplo, à capa de Adulta”, escreveu uma internauta no Instagram.

Ao Estadão, a editora-executiva da Rocco, Ana Lima, argumentou que os temas da trama justificam a imagem criada pela editora: “Essa é uma questão para cada um pensar: o negro de pele retinta é mais negro que o negro de pele clara? A passabilidade [termo que se refere a pessoas que conseguem “se passar” por um grupo racial ou étnico diferente do seu] tem um peso imenso no Brasil, um pais colonizado e com a miscigenação como projeto.”

Contratamos e desenvolvemos todo o projeto alinhados com o objetivo da obra da autora, que é falar sobre preconceito, identidade e o que isso ainda representa e como afeta nossa sociedade. Saber que até dez, 15 anos atrás havia formaturas segregadas nos Estados Unidos é tão chocante quanto os crimes de racismo no Brasil.

Ana Lima, editora-executiva da Rocco

Ela também afirmou que a capa “é uma composição, feita por um designer da [Rocco], a partir de imagens diversas, de bancos de imagem, e inspirada na capa americana”.

O que Tiffany D. Jackson pensa sobre a capa?

“Originalmente, eles me enviaram a capa e eu vi que havia uma grande diferença e então nós meio que conversamos sobre isso e eu pensei: ‘Tudo bem, parece bom. Desde que a Maddy seja representada como alguém que se passa por branca’. Ou seja, ela tem traços muito brancos, mas quando você ler o livro, reconhecerá que ela é, na verdade, birracial ou negra”, disse Tiffany sobre a questão.

A autora argumentou que o conceito de “passing” - ou passabilidade, como descrito por Ana Lima - é comum nos Estados Unidos, mas não tão conhecido no Brasil.

“Há muitas famílias que descobrem mais tarde, por meio de testes genéticos, que na verdade tinham uma avó negra, mas você nunca saberia disso pela foto. Isso acontece com frequência aqui nos Estados Unidos e eu não sabia que esse não era um assunto muito discutido no Brasil”, apontou.

A escritora contou que ficou feliz quando soube da repercussão da capa, porque ficou honrada que muitos leitores se manifestaram em sua defesa, mas que sentiu houve uma “falha de comunicação” em toda a situação. “Espero que as pessoas leiam a história e então a capa fará muito mais sentido”, disse .

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*Estagiária sob supervisão de Charlise Morais

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