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Cultura, comportamento, noite e gente em São Paulo

‘Existem mimados de todas as idades. Veja o Elon Musk’, diz Marcelo Tas

Apresentador lançou este mês o livro ‘Hackeando Sua Carreira’, com dicas sobre como melhorar a vida profissional

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Por Marcela Paes
Atualização:

Marcelo Tas começou a carreira em 1983 e passou por várias experiências – foi responsável por personagens memoráveis como Ernesto Varela e o Professor Tibúrcio, além de comandar programas de sucesso como o CQC (Band). Agora, o apresentador – que é formado pela Poli e pela Eca – reúne suas dicas no livro Hackeando Sua Carreira (Editora Planeta), lançado este mês. “Ter pressa para que as coisas aconteçam é um gigantesco erro, especialmente agora, onde tudo se acelera, às vezes, de uma maneira descontrolada”, diz ele à repórter Marcela Paes sobre um dos ‘erros’ na sua vida profissional. Leia abaixo a entrevista:

O apresentador, ator, roteirista e escritor Marcelo Tas Foto: Alex Silva/Estadão

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Você usa a experiência da sua carreira para falar sobre aspectos profissionais. Qual foi o maior acerto da sua vida profissional?

Uau, pergunta difícil. O maior acerto foi eu tomar consciência que o meu negócio é educação. Eu levei muito tempo pra essa ficha cair, pra perceber uma coisa muito óbvia: que eu sou filho de dois professores, por exemplo. E isso veio com o Telecurso, quando a Fundação Roberto Marinho me chamou para coordenar o Telecurso. Aí eu olhei pra trás, e eu tinha feito Rá-tim-bum…Eu tinha um amor pela educação que vinha desde o início da carreira.

E o maior erro?

Erros, têm muitos mesmo. No livro, eu conto alguns. Talvez o que caracteriza os erros é a pressa, sabe? O Varela foi um trabalho que eu tenho o maior carinho, porque fui reconhecido logo no primeiro trabalho, mas foi uma casca de banana perigosíssima. Fiquei famoso, digamos assim, em um ano. E mesmo eu procurando deixar ele descansar um pouco, quando eu voltei pra fazer o Varela, na MTV, tive um acidente e quebrei os dois calcanhares com 30 anos de idade. Fiquei dois anos sem poder andar. Percebi que estava vivendo com pressa, querendo voltar com tudo. Esse é um erro recorrente na minha vida. Ter pressa para que as coisas aconteçam é um gigantesco erro especialmente agora, onde tudo se acelera, às vezes, de uma maneira descontrolada.

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Muita gente fala que a geração Z, no ambiente de trabalho, é mimada. Você concorda?

Não. É uma falácia. Existem mimados de todas as idades. Veja o Elon Musk, que está aí para confirmar a minha tese. A imaturidade não tem idade. Vou defender um pouco essa geração, porque vejo que ela é trollada de um modo muito injusto. É uma geração muito curiosa, que vai atrás de resolver os problemas, ao contrário da minha. Eu era um cara que se alguém me apresentasse um problema, eu pensava ‘vou perguntar pro meu tio, tenho que perguntar para o professor, para minha mãe’, entendeu?

Você tem três filhos. Aprende muito com eles?

Sim. É o único jeito de aprender essas coisas. Eu pergunto uma coisa pro Miguel, por exemplo, daqui a pouco ele vem me mostrar e eu falo ‘onde você aprendeu isso?’ Ele fala ‘eu pesquisei agora aqui antes de te responder’. Eles vão atrás, entendeu? Eles têm uma curiosidade, nasceram em um universo em que as informações estão disponíveis. Os que são acordados, os que não recebem as primeiras respostas e se satisfazem, eles sabem que dá pra você aprender as coisas assim: ver se funciona e se não funcionar, buscar um outro cara pra ver se esse cara sabe fazer, entendeu? Eu nunca fui assim, sempre fui uma pessoa que ficava esperando o professor. Mas existem os efeitos colaterais dessa era.

Quais?

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Especialmente foco. É uma turma que vive dentro de um assunto. O cara sabe tudo de GTA ou tudo de futebol, não importa, mas ele tem pouca experiência e aí vem uma casca de banana difícil pra essa geração. Eles têm uma vida afetiva, na minha opinião, muito pobre. Pouco contato inclusive físico, pouca interação ou, quando têm, são interações muito brutas. No rolê acontece tudo, todo mundo beija todo mundo, mas ninguém beijou gostoso, por exemplo. Acho isso muito triste e torço para que eles se permitam a viver romances, se olhar.

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Na sua opinião, como as empresas podem melhorar?

Três coisas: transparência. Não pode ser só discursinho. Transparência não é opcional, ela está dentro do pacote da revolução digital. Deu ruim? Tem que dizer ‘Erramos, o erro foi esse, ficamos oito horas sem energia no bairro tal por causa disso e disso’, entendeu? Ouvir os dados é outra coisa. Todo mundo fala de dados hoje, mas pouca gente fala de ouvir. Como ouvir os dados? Essa é uma tarefa gigantesca. No livro eu conto como que eu ouvia os dados no CQC, por exemplo. Você tem que querer ouvir de verdade. A última é mais difícil: coragem. Nós vivemos uma época dificílima. É uma época de competitividade muito acirrada, de transformações muito rápidas. Em muitas empresas, que eu inclusive me relaciono, eu levei um tempo para convencê-las a falar sobre medo. O medo da inteligência artificial, por exemplo, é um tema muito pouco abordado. Conversar sobre isso é algo essencial. E aí tem a forma de conversar. Eu procuro sempre fazer com humor, porque o humor é uma maneira de você desarmar o medo e azeitar um pouco a comunicação.

No seu livro você fala de ter o espírito de criança pra saber lidar com as coisas. Como fazer para manter esse espírito mais lúdico em uma época em que somos confrontados com muita informação negativa?

Olha pra dentro, sabe? Toda vez que a gente fica com muita informação, temos uma tendência assim de querer absorver tudo. Esses anúncios mesmo do Instagram são assim ‘as 10 coisas que você precisa aprender pra usar agora na sua profissão’. Isso é um truque muito baixo de vendas. Dá aquela angústia. Acaba que você nunca está no único lugar em que dá pode resolver isso, que é o presente, que é você olhar pra dentro e pensar ‘Cara, o que é que eu tô fazendo hoje nesse emprego? Qual é a minha situação nessa empresa? Onde que eu vou procurar uma saída de aperfeiçoamento aqui dentro?’ Muitas vezes somos cúmplices da precarização do trabalho porque deixamos a situação chegar naquele ponto.

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Você é uma pessoa pública, o seu trabalho é muito público. Como lida com as críticas?

Eu sinto bastante, é bom dizer, as coisas doem. No livro eu ensino uma técnica de deixar no spa essas coisas que nos machucam, um spa que eu chamo ‘amam me odiar’. Por quê? Porque é legal você olhar com distanciamento tanto aos haters quanto às críticas. E depois que você deixa elas descansando, você vai olhar de novo e pode até ver coisas que podem ser muito boas pra melhorar o que você faz. Falar ‘caramba, esse hater aqui tinha razão’.

Já aconteceu isso com você?

Muitas vezes. Quer ver uma óbvia? Falavam que eu gritava muito no CQC. Aí eu falei, ‘caraca, eu acho que eu realmente tô falando alto’. Mas isso tem que ser depois que você passou daquela fase de ficar muito puto com aquela crítica, de ficar muito machucado na sua vaidade. Não é que eu vou tirar um pouco da minha personalidade, eu tenho uma impedância, digamos, num grau mais alto em alguns momentos, mas descobrir outras nuances. Foi um hater que me ensinou isso. Agora, é importante também você saber que tem hater que está lá só pra te botar pra baixo. No meu livro, eu coloquei as 10 maiores agressões que eu já sofri. Tem gente, por exemplo, que fica me xingando de careca. Aí você fala ‘bom, realmente você tem razão, eu sou careca, mas do que nós estamos falando?’ A crítica é uma coisa difícil de ouvir, volto a reconhecer, mas extremamente valiosa para se aperfeiçoar.

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