Ele sobreviveu ao Holocausto. No Brasil, amou a filha de oficial nazista. Agora, conta essa história

Gabriel Waldman, judeu, lança, aos 86 anos, livro sobre romance que viveu - duas vezes - com a filha de Franz Stangl, comandante de dois campos de extermínio que também encontrou refúgio no Brasil pós-guerra - e trabalhou na Volkswagen

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Por Julia Queiroz
Atualização:
Foto: Daniel Teixeira/Estadão
Entrevista comGabriel WaldmanEscritor

Gabriel Waldman era apenas uma criança quando as tropas alemãs invadiram a Hungria em 1944. O pai e boa parte da família foram levados para campos nazistas, e nunca mais retornaram. Ele e a mãe ficaram, enfrentaram a fome, sede e as perseguições e sobreviveram. Depois da 2ª Guerra, vieram os soviéticos e eles fugiram para a Áustria, em 1949. Passados três anos, encontraram asilo no Brasil.

Já um adolescente, Waldman precisou se adaptar ao País, aprender o português, construir uma vida. Em São Paulo, conheceu uma jovem alemã. Imigrantes no Brasil e podendo se comunicar em alemão, os dois se apaixonaram. Engataram um namoro intenso, que terminou repentinamente, por decisão da garota, e sem nenhuma explicação clara.

Como podia? Waldman não se esqueceu dela, mas seguiu a vida. Uma década depois, já um adulto casado, ele se deparou com uma manchete no jornal. Reconheceu um nome. Leu duas vezes. E, então, descobriu: o pai da menina - que ele havia conhecido e com quem tinha convivido - era o ex-oficial nazista Franz Stangl, comandante dos campos de extermínio de Sobibor e Treblinka, e tinha acabado de ser extraditado do Brasil. (Veja aqui e aqui como o Estadão noticiou o caso na época).

Waldman não conseguia conceber o fato de que havia convivido de maneira civilizada com o possível assassino de sua família. E não entendia como a garota tinha escolhido namorar um judeu, mesmo que a família tivesse tal histórico. Preferiu esquecer. “Aquilo me chocou profundamente. Eu enterrei isso no meu âmago, bem no fundo”, conta, aos 86 anos, ao Estadão.

Gabriel Waldman, de 86 anos, em seu apartamento em São Paulo. Ele sobreviveu ao Holocausto, mudou-se para o Brasil e, aqui, na década de 1950, se apaixonou pela filha de um comandante nazista.  Foto: Daniel Teixeira/Estadão

A história permaneceu enterrada por décadas. Agora, no entanto, Waldman resolveu contá-la no livro Ingrid, a Filha do Comandante, que acaba de chegar às livrarias pela editora Buzz. A obra é uma “biografia literária”, como descreve o autor, e conta, com uma mescla entre realidade e ficção, esta história que marcou a juventude dele.

Por que contar essa história agora?

No Brasil, Waldman tornou-se administrador de empresas, se casou e teve um casal de filhos. Construiu uma vida boa, como ele próprio descreve, mas, no fundo, permanecia uma vontade de escrever, que ele alimentava desde a infância. “Escrevi meu primeiro livro aos 11 anos”, diz à reportagem, antes de mostrar um pequeno caderno, preservado por anos, escrito em húngaro.

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Gabriel Waldman mostra um livro em idioma húngaro, que escreveu aos 11 anos e foi guardado com ele durante décadas. Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Já aposentado, Waldman começou a circular o País com palestras para conscientizar a população sobre o antissemitismo e o Holocausto. Um dia, pouco antes da pandemia de covid-19, encontrou-se com Celso Lafer (ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil, membro da Academia Brasileira de Letras e colaborador do Estadão), de quem é amigo desde os 15 anos. Lafer tinha em sua mesa um livro que citava Franz Stangl, e Waldman acabou por contar a coisa toda, revelando que, à época, chegou a apresentar o amigo para a então namorada.

“Ele olhou para mim e disse: ‘Gabriel, você tem que escrever sobre isso. Isso é uma coisa que não se pode deixar em branco’”, lembra. Ele não deu muita atenção. Mas, no dia seguinte, chegou um e-mail com uma frase de Isak Dinesen (pseudônimo da dinamarquesa Karen Blixen): “Toda grande dor pode ser suportada se você escrever sobre ela”.

Aquilo mudou tudo para Waldman: “De repente, eu caí em mim. O único jeito de me salvar dessa maldição que aconteceu na minha vida era escrever sobre isso”.

A menina ganhou um nome fictício, Ingrid, e a memória se transformou em narrativa. Nesta conversa com o Estadão, numa tarde de abril em sua casa, Waldman falou sobre o livro, as memórias daquele período, a banalização do mal e a importância de preservar a memória do Holocausto.

Como escrever o ajuda a lidar com o trauma?

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O que é uma lembrança? Quando você tem uma lembrança do passado, você tem fotografias. Quando você escreve sobre o fato, a fotografia se transforma num filme. De repente, você começa a ver a sequência com todas as minúcias. Eu posso dizer que, hoje em dia, já tenho condições de falar sobre o assunto. É por isso que essa frase [de Isak Dinesen] é essencial na minha vida. É uma coisa que me tocou profundamente e me fez escrever o livro.

Quanto do livro é um complemento de sua memória, aquilo que o senhor preencheu com a ficção?

A história é uma biografia literária, digamos. O fato em si é absolutamente verdadeiro. Obviamente, eu não me lembro mais de cada diálogo ou de cada acontecimento. Isso, em grande parte, é ficção.

Gabriel Waldman segura um exemplar de seu livro, 'Ingrid, a Filha do Comandante'. Foto: Daniel Teixeira/Estadão

O senhor chegou a reencontrá-la?

Isso é mais uma coisa que é ficção. Eu namorei com ela duas vezes, não uma vez só [como no livro]. Só que eu não queria alongar o livro porque isso não era essencial. Quando eu cheguei ao Brasil, aos 15 anos de idade, eu entrei no curso de Madureza e lá encontrei com ela. Foi aquele namoro de adolescência. Depois, ela foi para um lado e eu, para outro. Ainda nos telefonamos algumas vezes, mas a vida nos separou completamente. Eu pensava nela com saudades, mas nos separamos.

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Eu fiz científico, faculdade, morei por quase dois anos na Austrália e, depois, voltei ao Brasil e me empreguei na Volkswagen. Lá, encontrei com ela novamente. Agora, uma mulher separada, sem filhos e eu, solteiro. Não deu outra. Recomeçamos o namoro. O pai dela trabalhava lá também. Nessas alturas, já éramos adultos, então eu frequentava muito a casa dela. Lá, eu conheci os pais dela - o pai especialmente.

Mesmo agora, pensando nisso, fico com calafrios. É inimaginável. Eu não posso conceber que esse homem, em parte, que eu conhecia, tenha sido um assassino de um milhão de pessoas. 800 mil em Treblinka e 200 mil em Sobibor. Um milhão. É quase inimaginável.

Gabriel Waldman

O senhor diz que encontrou o pai de Ingrid e o descreve como um sujeito civilizado, simpático até. Como é possível pessoas que cometeram tanto mal possam se disfarçar dessa maneira?

Essa é uma grande pergunta que eu faço a mim mesmo também. É tão cômodo e fácil pensar que, ora, esses assassinos eram psicopatas, ou então fruto de algum germe que veio do espaço. Mas não é. Eram iguais a mim. Portanto, em circunstâncias devidas, será que eu poderia fazer a mesma coisa? Será que eu também poderia me transformar num assassino serial? Afinal, eu sou igual a ele.

A única coisa que posso dizer para você é o seguinte: a ideologia. Nas devidas circunstâncias, o pensamento ideológico é, em si, um pensamento extremado. Os soviéticos fizeram coisas similares. Stalin fez mais vítimas do que Hitler, se você contar os números - só que teve muito mais anos de vida. A única coisa que eu posso dizer é que é a ideologia que transforma as pessoas em monstros.

Na dedicatória do livro, o senhor escreve ‘para meus mártires e monstros que me perseguem até hoje’. Quem, ou o que, são esses mártires e monstros?

Os mártires são aqueles que morreram. Os monstros, aqueles que fizeram tudo isso. Mas eu estava pensando especificamente no pai [Franz Stangl] e mesmo na filha. A mãe dela, por exemplo, também estava lá. Não era tão simpática como o pai. Eu sentia nela um pouco de dupla visão. Foi a única que me perguntou uma vez - isso está no meu livro - “como vocês conseguiram escapar das perseguições?”. Essa “perseguição” pode ter sido mil coisas. Eu não quis entrar no assunto a fundo, porque eu sabia que a menina era alemã, então eu só falei: “eu tive sorte”.

Esses são meus monstros. É aquela velha pergunta: se eu encontrasse com ela agora na escadaria, o que eu faria? Porque uma coisa é ler sobre a coisa, outra é vivenciar. Com quem eu me encontraria na escadaria? Com aquele fulano com quem eu convivi, com quem conversei, que me ofereceu bolo e café? Ou com aquele que exterminou os meus parentes e meu pai? Quem eu encontraria na escadaria? É terrível essa pergunta.

O senhor gostaria de reencontrá-la hoje?

Eu gostaria muito de um dia conversar com ela e perguntar algumas coisas. Por que ela escolheu um judeu para namorar? Tudo bem, ela se apaixonou. Mas o fato é o seguinte: você não se apaixona de um minuto para o outro. Ela simpatizou comigo no começo, mas eu revelei que era judeu. Ela poderia ter dito ‘não quero mais nada’ ou ter deixado passar. Mas não, ela insistiu em continuar comigo. E por que me largou depois? Por eu ser judeu ou a despeito de eu ser judeu? Tem uma grande diferença nas duas coisas.

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Como o senhor e sua mãe sobreviveram?

Aquilo que eu respondi para a mãe da menina era verdade: nós tivemos sorte. Minha mãe fez, sem querer talvez, sempre a escolha certa. Naquela época, a morte era a coisa mais fácil de acontecer. Podíamos morrer com as bombas. Depois, com a batalha de Budapeste, que era muito feroz, entre o exército nazista e o exército soviético. Podíamos morrer com balas, artilharia, tiroteio e assim por diante. Tinha a fome, a sede, que era terrível, e o frio. As perseguições. Eram tantas formas de morrer que a morte tornou-se o novo normal. Sobreviver era a exceção.

Gabriel Waldman segurando uma fotografia de quando era criança, ainda na Hungria. Em seu colo, ele exibe também fotografias do casamento de seus pais. Toda a família paterna de Waldman morreu em campos de concentração nazistas. Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Depois da batalha de Budapeste, quando a guerra ainda estava sendo travada, minha mãe encontrava pessoas na rua e dizia ‘nossa, você sobreviveu, que bacana’. Quer dizer, a vida era uma coisa excepcional. As ruas cheias de cadáveres, as pessoas que foram levadas para o campo. A essa altura, já sabíamos das câmaras de gás. Antes, não sabíamos.

Minha mãe estava sempre esperando meu pai voltar. Mas, devagarzinho, nós perdemos a esperança. Portanto, a coisa mais imediatista era reconstruir a vida. Todo mundo arregaçou as suas mangas e começou a trabalhar. Um ano depois, quando já não tinha mais esperança nenhuma de que meu pai voltasse, minha mãe começou a chorar.

Como o senhor lidou com a ausência do seu pai ao longo da vida?

Eu sentia muita saudade dele, obviamente. Hoje, sei mais do que sabia naquele tempo. Eu diria o seguinte... que eu não tinha um pai que me orientasse, eu não tinha ideia de como as coisas eram e o que fazer. Minha mãe é uma mulher, é diferente. A gente precisa dos dois lados da história.

Além disso, ninguém me orientou profissionalmente. Eu tornei-me administrador de empresas e até que não fiz uma má carreira, mas não estava dentro de mim. Dentro de mim, estava a ânsia de escrever. Eu escrevi o meu primeiro livro aos 11 anos de idade. Eu devia ter escolhido outra profissão. Claro, consegui dar uma boa vida para a minha família, meus filhos se formaram muito bem. Deu tudo certo. Só que eu não me realizei. Eu comecei a me realizar quando me aposentei, há sete anos, e comecei a escrever.

Tem uma passagem do livro que diz o seguinte: ‘O diálogo gera, no máximo, desentendimento. Mas o que é varrido para debaixo do tapete gera suspeita ou mesmo rancor’. Para o senhor, qual é a importância do diálogo nos dias atuais?

O diálogo é o que faz a gente existir e crescer. Um bom exemplo é o diálogo com o Celso [Lafer]. E se não tivesse ouvido aquela frase talvez não teria escrito esse livro. É muito importante esse diálogo, inclusive com a literatura. Eu leio muito e o que eu leio sempre transmite coisas.

Olhando para trás, quais foram os momentos mais difíceis?

Foram tantos. Como criança, eu não tinha nenhuma noção da morte. Eu sentia as profundas dificuldades que a vida apresentava. Sentia fome e frio. Via minha mãe muito preocupada e nervosa.

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Crianças, nesses momentos extremos, de fronteira, tornam-se adultos incompletos. Eu consegui ser adulto, de certa forma, nesses momentos. Eu tinha vivências que, hoje, penso: como é que minha mãe conseguiu lidar com essa situação? Não sei, não tenho ideia. Mas ela conseguiu.

Gabriel Waldman

O segundo momento de dificuldade foi a mudança da Hungria para Áustria, e então para o Brasil. Sem parentes, sem amigos, minha mãe tinha que trabalhar, sem idioma. Eu não sabia o que era cotidiano, a rotina. O terceiro foi essa história com essa menina, que me deixou profundas marcas. A gente não aceita não poder entender coisas da sua própria vida. Essa é uma coisa que, para mim, ficou enigmática até hoje.

Fotografia de Gabriel Waldman quando era adolescente, pouco tempo depois de chegar ao Brasil. Foto: Daniel Teixeira/Estadão

O senhor acha que a distância e o tempo acalentam o coração e a mente? Ou é uma revolta que permanece até hoje?

Não. O tempo dilui a memória. Tem coisas que antes eram insuportáveis e hoje tornam-se mais suportáveis. Especialmente coisas que não têm diretamente a ver com você. Hoje, aceito o fato que eu conheci vários nazistas ao longo da vida. Era fácil conhecer nazistas. Era quase que um apelo. Pelo seguinte: o governo de Getúlio Vargas e porque eu falava alemão perfeitamente. Quem me procurava à lupa eram as empresas alemãs.

Às vezes, a dor nos afunda, mas o senhor parece ter uma leveza ao falar. Como encontrou forças para continuar o seu caminho, para trilhar a vida que trilhou aqui?

Índole. Eu não sou de guardar rancores, sou otimista por natureza. Não sei se consegui superar. Nunca fiz psicanálise, por exemplo. Provavelmente, ela revelaria muitas coisas que não sei de mim mesmo. Mas, hoje, sei lidar com tudo isso.

Gabriel Waldman olha fotografias antigas em seu apartamento em São Paulo, onde deu entrevista ao 'Estadão'. Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Minha grande pergunta sempre foi a seguinte: por que eu sobrevivi? Por que eu sobrevivi e seis milhões de outros não sobreviveram? No judaísmo, existe uma expressão que diz o seguinte: ‘coincidências não existem, tudo está escrito’. Por que foi escrito no livro santo que eu deveria sobreviver? Eu nunca havia conseguido achar a resposta certa. Hoje, eu sei. Sobrevivi para escrever esses livros e para fazer essas palestras contra a intolerância. Não só o antissemitismo, mas contra qualquer intolerância. Mais do que nunca, isso é importante.

E o que gostaria que as pessoas compreendessem e aprendessem sobre o Holocausto?

Que ele existiu - e jamais poderá acontecer de novo. No entanto, pode acontecer de novo se eles não se acautelarem. Temos mais algumas dúzias de sobreviventes no Brasil, mas cada vez menos - e cada vez menos que estão lúcidos. Daqui a pouco, vamos sumir. E aí, o que vai acontecer? Temos que ensinar as novas gerações sobre perigos que tudo isso apresenta. É isso que me norteia.

  • Ingrid, a Filha do Comandante
  • Autor: Gabriel Waldman
  • Editora: Buzz (160 págs.; R$ 38,17 | E-book: R$ 39,90)

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