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Histórias reconfortantes, com gatos e livrarias: Entenda o fenômeno da healing fiction; veja livros

Nova tendência literária encanta editores e leitores brasileiros com títulos trazidos sobretudo do Japão e da Coreia do Sul; são livros mais leves e com histórias inspiradoras se desenvolvendo em ambientes acolhedores com livrarias, bibliotecas e cafés

Por Amanda Calazans

Um livro de ficção é capaz de aliviar angústias - de um rompimento entre pai e filho, de um sonho abandonado. Mas agora chega às estantes das livrarias uma categoria literária que se propõe a dar conforto: a healing fiction (ficção de cura, em inglês).

“A minha suposição é que os livros de healing fiction têm a intenção de oferecer ao leitor a possibilidade de transpor aquele conflito interno, aquela questão de saúde mental, aquela angústia da contemporaneidade. E num livro sem essa intenção você acompanha de uma forma mais distanciada a história da outra pessoa”, diferencia Renata Pettengill, editora executiva da Bertrand Brasil, selo da Record.

Livros da 'healing fiction' tem livrarias, gatos e ambientes 'aconchegantes'. Foto: Bertrand Brasil e Intrínseca/Divulgação

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O fenômeno chamou a atenção da editora durante a leitura de A Livraria Mágica de Paris, de Nina George, lançado no País em 2016. Na história, o dono de um barco-livraria na capital francesa vende não o livro que o cliente procura, mas o que ele precisa, de acordo com o problema de cada um.

Ao indicar A Elegância do Ouriço, por exemplo, o livreiro receita: “A senhora precisa de um quarto só seu. Não muito claro, e com um gato que lhe faça companhia. E este livro, a senhora deve lê-lo devagar, por favor. (...) A senhora vai refletir bastante e, provavelmente, chorar também. Por si mesma. Pelos anos. Mas depois vai se sentir melhor”.

A orientação do monsieur Perdu vale para os próprios livros de healing fiction. “Quem está sensível aos temas retratados no livro tende a ter uma catarse e uma epifania. Pelo menos naquele momento em que você termina a leitura, você se perdoa”, diz Renata.

Livros leves, com histórias se desenvolvendo em ambientes acolhedores: a healing fiction é um fenômeno crescente no Brasil e no exterior Foto: Werther Santana/Estadão

Após o sucesso editorial de Nina George, veio Matt Haig com A Biblioteca da Meia-Noite, título frequente nas listas de livros mais vendidos no Brasil. “Por causa da característica do brasileiro de ser um leitor de livros de autoajuda e de romances inspiracionais, a gente identificou que tinha um público para esse livro.” Desde então, a Bertrand Brasil publicou A Inconveniente Loja de Conveniência, Meus Dias na Livraria Morisaki e Se os Gatos Desaparecessem do Mundo, e planeja mais seis lançamentos de healing fiction para este ano.

Gato, livro e café

A livraria, a biblioteca e a cafeteria são cenários comuns na literatura de cura por causarem sensação de acolhimento tanto nos leitores quanto nos personagens, que podem ser de qualquer gênero ou idade. Um personagem recorrente nesse tipo de ficção, no entanto, é o gato.

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“Os gatos, em geral, apresentam um elemento ao mesmo tempo de conforto e de mistério, muitas vezes uma ponte com o desconhecido, de uma forma amistosa, e não assustadora”, diz a diretora de Aquisições da Sextante e Arqueiro, Nana Vaz de Castro.

Os livros do Japão e Coreia do Sul são maioria na categoria, como o japonês A Biblioteca dos Sonhos Secretos, de Michiko Aoyama, publicado pela Sextante, que deve lançar outros dois do mesmo país em 2024.

Geralmente com ilustrações de fachadas e janelas, as editoras aproveitam as capas estrangeiras, seja por conterem elementos que vão povoar o imaginário do leitor durante a leitura, seja pela estética asiática, que tem sido valorizada pelos jovens. “Vale lembrar que muitos desejam compartilhar posts bonitos sobre o livro que leram”, afirma Nana.

“Acredito que atualmente o leitor brasileiro está mais atento e ativamente em busca de narrativas fora do eixo Estados Unidos-Europa, e isso inclui as histórias sul-coreanas”, diz a editora de Aquisições Marina Ginefra, da Intrínseca, que publicou Bem-Vindos à Livraria Hyunam-dong, de Hwang Bo-reum, e prevê A Incrível Lavanderia de Corações para este ano. Os dois são coreanos.

Saúde mental

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O aumento da preocupação com saúde mental durante a pandemia de covid-19, devido à angústia de ficar em casa e ao medo do vírus, pode ter impulsionado o interesse por healing fiction. Para Marina, “nós viemos de um momento muito pesado de isolamento em que as histórias mais leves e reconfortantes se tornaram uma necessidade, além de ajudarem a aliviar o estresse e servirem como uma válvula de escape”.

“Honestamente, acho que a sociedade sempre precisou desse tipo de conteúdo e sempre precisará”, afirma Nana. A editora da Arqueiro lembra sucessos como A Cabana, de William P. Young, lançado em 2008. “Embora não tenham gatos, livrarias ou cafés, e não sejam japonesas nem coreanas, são histórias emocionantes que mostram personagens lidando com momentos difíceis da vida, e superando os obstáculos por meio de relacionamentos.”

Cena do filme 'A Cabana', inspirado do livro de 2007 de William P. Young. Foto: Jake Giles Netter/Summit Entertainment/Divulgação

As pessoas ainda estão sofrendo com as questões psicológicas que surgiram na pandemia, concorda Renata, da Bertrand Brasil. “Mas como problema de saúde mental sempre existiu e sempre vai existir. Então, esse é um campo fértil para esse tipo de livro. As pessoas sempre vão precisar de algum tipo de apoio”.

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Oito livros de ‘healing fiction’

  • A Biblioteca da Meia-Noite, de Matt Haig (Bertrand Brasil, 308 págs.; R$ 54,90, R$ 31,90)

Nora Seed é uma mulher de 35 anos que, decepcionada com o rumo de sua vida, decide desistir de tudo. No entanto, ela vai parar na Biblioteca da Meia-Noite, um lugar onde pode “testar” todas as diferentes decisões que poderia ter tomado - se mudar de país, terminar ou começar relacionamentos, etc - e, então, compreender por que a vida merece ser vivida. (Bertrand Brasil, 308 págs.; R$ 54,90, R$ 31,90)

Capa de 'A Biblioteca da Meia-Noite', de Matt Haig Foto: Bertrand Brasil/Divulgação
  • A Inconveniente Loja de Conveniência, de Kim Ho-yeon

Um morador de rua sem memórias de seu passado encontra uma bolsa com os documentos de uma professora de história aposentada e dona de uma loja de conveniência. Ao devolver os objetos, ele acaba salvando a loja de um assalto e ganhando uma vaga no turno da noite. Mesmo com desconfiança dos colegas, acaba criando uma relação cativando os funcionários e a professora. (Bertrand Brasil, 272 págs.; R$ 54,90, R$ 34,90)

Capa de 'A Inconveniente Loja de Conveniência', de Kim Ho-yeon. Foto: Bertrand Brasil/Divulgação
  • Meus Dias na Livraria Morisaki, de Satoshi Yagisawa

A jovem Takako, de 25 anos, enfrenta uma depressão após ser abandonada pelo namorado com quem planejava formar uma família. Desempregada, ela recebe uma oferta de um tio distante para morar no quartinho em cima da livraria Morisaki, na família há gerações, e, em troca, ajudá-lo na loja. Mesmo relutando, Takakoa precisa aprender a conviver com o tio excêntrico enquanto descobre uma paixão pela literatura. (Bertrand Brasil, 176 págs.; R$ 49,90, R$ 34,90)

Capa de 'Meus dias na livraria Morisaki'. Foto: Bertrand Brasil/Divulgação
  • A Livraria Mágica de Paris, de Nina George (Record, 308 págs.; R$ 59,90, R$ 37,90)

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Monsieur Perdu é um homem que, de seu barco-livraria no rio Sena, consegue indicar um livro para qualquer dificuldade da vida, menos para ele mesmo, que há anos sofre com o desaparecimento da mulher. Ela o deixou apenas uma carta, que ele nunca abriu. Mas quando finalmente é forçado a ler o que a mulher o deixou, Perdu acaba embarcando em uma jornada de conhecimento pelos rios da França, acompanhado de um escritor que enfrenta um bloqueio criativo.

Capa de 'A Livraria Mágica de Paris', de Nina George. Foto: Record/Divulgação
  • Se os Gatos Desaparecessem do Mundo, de Genki Kawamura (Bertrand Brasil, 176 págs.; R$ 49,90)

Um carteiro solitário, sem família e que vive apenas na companhia de seu gato, recebe a notícia de que tem uma doença terminal e apenas poucos meses de vida. Mas ele é surpreendido com um proposta do Diabo: para cada coisa que ele escolher extinguir do mundo, ele ganhará mais uma dia de vida. Ele, então, precisa decidir: o que vale um dia extra na terra?

Capa de 'Se os Gatos Desaparecessem do Mundo', de Genki Kawamura. Foto: Bertrand Brasil/Divulgação
  • A Biblioteca dos Sonhos Secretos, de Michiko Aoyama (Sextante, 240 págs.; R$ 49,90, R$ 28,49)

Cinco pessoas lidando com diferentes problemas e frustrações visitam a biblioteca de um centro comunitário de Tóquio e, como todos os que chegam lá, são recebidos pela Sra. Komachi, uma bibliotecária que, com o dom de saber o livro que cada leitor precisa, lhes recomenda uma obra inusitada. A partir daí, a leitura será o pontapé para uma mudança total na vida de cada um deles.

Capa de 'A Biblioteca dos Sonhos Secretos', de Michiko Aoyama Foto: Sextante/Divulgação
  • Bem-Vindos à Livraria Hyunam-dong, de Hwang Bo-reum (Intrínseca, 272 págs.; R$ 49,90, R$ 34,90)

Yeongju, uma jovem frustrada e desmotivada, decide abandonar tudo e realizar o antigo sonho de abrir uma livraria. Enquanto aprende a administrar o local, ela vê a loja se tornando uma espaço para que clientes se sintam confortáveis para, a partir dos livros, compartilhar. suas histórias e sentimentos. Ao mesmo tempo, Yeongju começa a encontrar o sentido que há tempos procurava em sua vida.

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Capa de 'Bem-Vindos à Livraria Hyunam-dong', de Hwang Bo-reum. Foto: Intrínseca/Divulgação
  • O Jogo dos Desejos, de Meg Shaffer (Intrínseca, 336 págs.; R$ 59,90, R$ 39,90)

Lucy Hart teve uma infância triste em que os livros eram seu único conforto. Já adulta, ela é uma professora com o desejo de adotar Christopher Lamb, um de seus alunos, que perdeu os pais de forma trágica. Quando Jack Masterson, o escritor que publicou sua série favorita quando criança, anuncia que promoverá um concurso na verdadeira Ilha Relógio, no nordeste dos Estados Unidos, para decidir quem será o detentor da única cópia de seu novo livro, Lucy vê a oportunidade de conquistar os sonhos dela e de Christopher.

Capa de 'O Jogo dos Desejos', de Meg Shaffer. Foto: Intrínseca/Divulgação
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