‘Quarto da bagunça’ pode render milhões, e herança de coleções pop vira questão séria; entenda

Quando colecionadores morrem, famílias enfrentam muitas decisões, incluindo o que fazer com quadrinhos, bonecos, selos e eletrônicos - que podem não valer nada ou render uma bolada

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Por George Gene Gustines

THE NEW YORK TIMES - “Inúmeras vezes, já ouvi de um cônjuge ou filho: ‘Se ele não estivesse morto, eu o mataria de novo por me deixar com essa bagunça’”, disse Greg Rohan, presidente da casa de leilões Heritage Auctions.

Bonecos de ação Superman da coleção de Karl Heitmueller Jr. Foto: Tony Cenicola/The New York Times

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A maioria das pessoas costuma saber o que fazer com os investimentos tradicionais depois que alguém morre, disse ele, mas, quando se trata de cartões de beisebol, primeiras edições de livros, moedas e outros itens colecionáveis, os entes queridos que lidam com o patrimônio às vezes ficam perplexos (e irritados).

Se alguns colecionadores de, digamos, bonequinhos de vinil parecem ter um gene que os predispõe a dedicar cômodos inteiros da casa aos amigos inanimados de borracha, em outros aspectos eles são como todo mundo. “As pessoas não querem pensar em morrer”, disse Maggie Thompson, 80 anos, ex-editora sênior da Comic Buyer’s Guide, uma revista de notícias que cobria a indústria de quadrinhos. “Quando dou uma olhada na minha casa, vejo que minha família não vai saber o que são as coisas.”

Thompson, cuja coleção eclética guarda fotos Polaroid, pôsteres de filmes e arte em quadrinhos, sabe que não ter um plano pode significar muita responsabilidade para os sobreviventes. Seu irmão, Paul Edgar Curtis, morreu no ano passado, e a família passou meses lidando com suas revistas em quadrinhos e outras lembranças.

O mercado de colecionáveis está aquecido:

  • Em abril, um card raro de Pokémon foi vendido por US$ 300 mil (R$ 1,4 milhão) na Heritage Auctions.
  • No ano passado, a arte original de uma página de quadrinhos com o Homem-Aranha em traje preto foi vendida por US$ 3,36 (R$ 17,36 milhões) milhões na Heritage,
  • e uma cópia da Superman nº 1 foi vendida por US$ 5,3 milhões (R$ 25,4 milhões) em uma venda privada.
  • Em 2021, um jogo Mario de Nintendo 64 na embalagem original foi vendido por US$ 1,5 milhão (R$ 7,22 milhões).

Supertestamento

Fora o caso dessas raridades e seus proprietários enriquecidos, os colecionadores às vezes ficam desconectados de suas famílias. “Não converso com minha companheira e meus filhos sobre o que coleciono porque, nove em cada dez vezes, eles não estão nem aí”, disse Josh Benesh, 38 anos, diretor de estratégia e conselheiro geral da Heritage Auctions. Seus colecionáveis incluem adereços de televisão e filmes, arte regional americana e joias modernistas.

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Detalhe da coleção do Sr. Heitmueller, que administra um perfil no Instagram onde mostra sua coleção de peças do Superman. Foto: Tony Cenicola/The New York Times

Muitos colecionadores mantêm um registro mental de seus produtos, mas seria prudente ter uma lista física e mencionar suas coleções no testamento. “Não é por dinheiro, mas sim para garantir que a administração responsável de sua coleção se estenda além de sua vida”, disse Benesh.

Karl Heitmueller Jr., 58 anos, dirige o perfil The Daily Superman no Instagram, onde destaca seus itens sobre o Homem de Aço. Ele muitas vezes se perguntou sobre o destino de sua coleção. “Todas as pessoas a quem planejo passar minhas coleções têm quase a minha idade”, disse ele. “Então é um jogo de dados. Quem vai bater as botas primeiro?”

Não quero velório, quero dar action figures

Heitmueller disse que seu irmão, que colecionou mais de 10 mil discos de vinil, seria o principal beneficiário, com outros itens destinados a amigos. “É uma das coisas que preciso resolver”, disse ele. “Se ele morresse primeiro, não saberia quais de suas coisas valem muito dinheiro e quais não valem nada”.

Ainda assim, Heitmueller tem uma visão do que gostaria de ver após sua morte. “Não quero funeral”, disse ele. “Não quero velório. Não quero dinheiro desperdiçado com essas coisas”.

Em vez disso, ele gostaria que a família e os amigos examinassem sua coleção e pegassem o que quisessem. “Se eu morresse amanhã, gostaria de pensar que todos eles levariam um action figure do Super-Homem para se lembrar de mim”, disse ele.

Richard Pini e Wendy Pini, cuja série de fantasia em quadrinhos ElfQuest estreou em 1978, discutiram sobre o que fazer com sua obra durante a maior parte de suas vidas profissionais.

Desenhos de ElfQuest, que, juntamente com materiais do criador de histórias em quadrinhos, acabará na Universidade de Columbia, em LaGrangeville, N.Y. Foto: Tony Cenicola/The New York Times

Ao longo dos anos, eles acumularam milhares de páginas, incluindo toda a arte original da série, que foi editada por Richard Pini, 73 anos, e desenhada e escrita por Wendy Pini, 72. “Ele jamais imaginaria vender as obras individualmente”, disse Wendy Pini.

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Richard Pini disse que teria sido doloroso vendê-las aos pedaços. “Vi as linhas sendo traçadas”, disse ele. “Ouvi os palavrões quando ela precisava acertar o tom. Foi tudo muito pessoal”.

‘Tralha’ ou coleção milionária?

Vender a obra poderia ter sido lucrativo. “Os negociantes de arte procuram o Richard nas convenções”, disse Wendy Pini. “Eles nunca nem falaram com ele, mas a primeira coisa que dizem é: ‘Seu idiota. Você poderia ter ganhado milhões com suas obras’”.

Richard Pini disse que eles sabiam que não deixariam as coleções para suas famílias, que nunca estiveram particularmente interessadas em ElfQuest. O temor, então, era que o material fosse parar em uma venda de garagem.

Seu cavaleiro de armadura brilhante veio na forma de Karen L. Green, curadora de quadrinhos e desenhos animados da Universidade de Columbia, que adquiriu a obra dos Pini em 2013. “Apreciamos a ideia de estudantes e fãs analisando isso no futuro, quando não estivermos mais aqui”, disse Wendy Pini.

Mas muitas coleções vão parar em instituições menos sagradas. Quando chega o fim, as famílias às vezes procuram a fonte mais conveniente - uma loja de quadrinhos local, uma casa de penhores - e podem obter apenas uma fração do valor de suas coleções. Em outros casos, uma coleção vale muito menos do que o proprietário ou herdeiro pensava.

Vincent Zurzolo, proprietário da Metropolis Collectibles e da ComicConnect, relembrou uma história do início de sua carreira. Um homem achou que tinha um conjunto de selos extremamente valiosos, disse ele, mas “meu patrão foi dar uma olhada na coleção e, na verdade, tudo o que o cara tinha feito foi cortar fotos de selos e colocá-los no álbum”.

Ainda assim, é difícil prever o valor dos itens colecionáveis, já que não muito tempo atrás um iPhone de primeira geração foi vendido por US$ 63.356,40. Os colecionadores - e suas famílias - precisam ter em mente que o mercado é inconstante. “O valor dos itens pode cair”, disse Benesh. “Não gostamos de falar sobre isso, mas tem muita tranqueira neste mundo”./ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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