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Jornalista e comentarista de economia

Opinião|As aéreas e o descaso no atendimento

Companhias se articulam para exigir benesses do governo, em meio ao aumento dos preços das passagens e das reclamações sobre o atendimento

Foto do author Celso Ming

Houve um tempo em que o passageiro das companhias aéreas era paparicado. O comandante Rolim, fundador da TAM, estendia-lhe tapete vermelho, mais do que um simples gesto. Hoje, é tratado de qualquer jeito.

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Porque as empresas cortaram funcionários, as filas para atendimento produzem quase sempre enorme desconforto.

Sujeito a atrasos e cancelamentos, o passageiro nunca sabe qual é o portão certo de embarque, especialmente em Congonhas. Lá vai ele para o portão número 2, conforme instruído, mas logo aparece na tela que seu voo mudou para o portão 11, na outra ponta do saguão. Mas pode mudar outra vez.

O tratamento para os prioritários vai carregado de enganação. Quando começa o embarque, são atendidos na frente. Mas a espera não termina aí. Têm de aguardar um tempão, do jeito que dá, finger abaixo, sem atenção para com suas dores nem para o desconforto da filharada, até a liberação final.

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O serviço a bordo agora é um miserê. Antes do embarque, o passageiro já teve de submeter-se aos preços absurdos do pão de queijo e do cafezinho no aeroporto – o que não é da conta das companhias aéreas, mas elas nada fazem para que não seja assim. Lá dentro é presenteado com saquinho de lascas de batata doce desidratada. Saudades dos tempos da Panair.

As filas para atendimento nos guichês das companhias aéreas produzem quase sempre enorme desconforto. São Paulo, 27/12/2023 Foto: FELIPE RAU/ESTADÃO

A política radical de redução de custos deveria, ao menos, baratear as passagens. Não é o que se vê. Os critérios para fixação de tarifas, em dinheiro ou em direitos de milhagem, são um mistério, a não ser num ponto: o de que sobem sempre. Os preços aumentaram 17,5% em 2021; outros 23,5%, em 2022; e mais 47,24%, em 2023.

Dados da ferramenta consumidor.gov.br apontam que o setor foi o segundo com o maior número de reclamações no ano passado.

As companhias aéreas nacionais querem porque querem favores do governo. Tentaram forçar subsídios ao querosene de aviação, seu combustível. Logo se viu que a benesse teria de ser estendida para todas as aéreas que operam no País, inclusive as estrangeiras, para os jatinhos particulares e para a frota de helicópteros. Depois, exigiram créditos favorecidos do BNDES ou bancados pelo Tesouro, como se os bancos privados se recusassem a isso.

A Gol, que enfrenta processo de recuperação judicial nos Estados Unidos (Chapter 11), apresentou plano de financiamento de cerca de US$ 950 milhões ou R$ 4,7 bilhões. Os credores sugeriram injetar mais, coisa de US$ 1 bilhão, o que dá quase R$ 5 bilhões.

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A Azul, a mais chorona por favores do governo, obteve dos bancos quase US$ 800 milhões (ou R$ 4,96 bilhões) em julho de 2023. E a Latam, que também acaba de enfrentar processo de recuperação judicial nos Estados Unidos, saiu com caixa de US$ 2,2 bilhões (R$10,8 bilhões). No balanço de 2023, apresentou lucro líquido de US$ 581,5 milhões (R$ 2,9 bilhões).

Se o mercado financeiro está tão disposto a emprestar dinheiro para elas sem medo de perder com isso, por que o poder público tem de se curvar a esse jogo protecionista?

Opinião por Celso Ming

Comentarista de Economia

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