Eles entraram no Tinder em busca de um amor e saíram com um emprego

Aplicativos de relacionamento estão se transformando em ambientes não convencionais para realizar networking e até mesmo conquistar o primeiro emprego

PUBLICIDADE

Foto do author Bruna Klingspiegel
Por Bruna Klingspiegel
Atualização:

William* é advogado e estava havia seis meses procurando um emprego. Tentou pelo LinkedIn, plataformas tradicionais de vagas e nada parecia evoluir. Em paralelo, estava solteiro e utilizava aplicativos de namoro para flertar e conhecer gente nova. Em setembro, começou a conversar e se relacionar com uma recrutadora pelo Tinder e, após algum tempo, ela o indicou para o seu atual emprego.

PUBLICIDADE

Ele não é o único que teve uma experiência inusitada em plataformas de relacionamento. O jornalista Davi conseguiu uma oportunidade em sua área de atuação por meio de uma conexão no aplicativo.

“Às vezes as coisas não vão para frente no sentido amoroso, mas a pessoa é superlegal, e acaba virando amiga”, conta. Em seu caso, após alguns dias de conversa com um rapaz, o relacionamento amoroso não foi para frente, mas a amizade com o colega de profissão resultou em uma indicação e depois em uma oferta de emprego.

Os aplicativos também se tornam uma oportunidade para quem trabalha como freelancer. Foto: DENYS PRYKHODOV

Tinder para trabalho, LinkedIn para paquera virou piada

Usar o Tinder para contato profissional e o LinkedIn para paquerar. A frase virou piada nas redes sociais, graças ao programa Choque de Cultura, no YouTube.

Apesar de parecer apenas uma brincadeira, a situação se tornou realidade para muitas pessoas. No X (antigo Twitter), alguns usuários compartilham suas histórias e contam ter recebido ofertas de emprego em diversas plataformas e, em alguns casos, até resultando em contratação. Confira alguns tweets:

A popularidade dos aplicativos no Brasil é significativa. Segundo dados da consultoria Statista, até o final de 2023, o número de usuários no mercado de namoro online no Brasil deverá chegar a 17,9 milhões.

A recrutadora Mariana Torres destaca que essa tendência de conexão não é nova, mas ganhou força online. Ela compara a dinâmica dos aplicativos à experiência de conhecer alguém em uma festa, onde relacionamentos e oportunidades profissionais podem surgir organicamente.

Publicidade

“Você passa essa mesma situação nos apps de namoro. São pessoas se conhecendo com intuito de relacionamento. Mas são pessoas que trabalham, que têm demandas, que conhecem outras pessoas”, explica.

“Não acredito que profissionais vão até os apps de relacionamento buscar emprego ou fazer seleção. Existem sites específicos para isso, mas que pode acontecer, pode, como em qualquer encontro de pessoas.”

Aplicativo de namoro dá oportunidades a freelancers

Os aplicativos também se tornam uma oportunidade para quem trabalha como freelancer. Cláudia estava prestes a se formar e buscava seu primeiro emprego oficialmente como jornalista em 2017.

Na época, também estava solteira e utilizando o Tinder, onde conheceu um fotógrafo. Apesar de o relacionamento não ter evoluído, acabou se transformando em uma oportunidade profissional.

“A gente começou a trocar ideia sobre trabalho. Falei que trabalhava com produção de conteúdo e ele super se interessou”, conta.

Após uma reunião profissional, ela começou a produzir conteúdo para ele, o que durou três anos, até o início da pandemia quando a área de eventos sofreu com o lockdown.

Cláudia afirma que costumava sugerir outros profissionais conhecidos para as pessoas com quem interagia nas plataformas.

Publicidade

“Às vezes, a pessoa precisava de um conteúdo em vídeo, então eu indicava meus amigos ou alguém que também conhecesse”, explica.

“As coisas acabam se misturando porque quando você começa nesses aplicativos, logo surge o assunto do trabalho, e uma coisa vai levando à outra.”

Bumble e Grindr também são usados para network

Em 2017, o Bumble, aplicativo de namoro onde apenas as mulheres podem iniciar a conversa após o “match” em relacionamentos heterossexuais, inovou ao introduzir uma versão dedicada ao networking em seu aplicativo. Em vez das habituais questões sobre relacionamentos amorosos, os usuários são convidados a compartilhar informações sobre suas profissões, histórico educacional e objetivos no aplicativo, como investimento, mentoria, estágio, networking, freelance, oportunidades de emprego em meio período e integral e busca por talentos para contratação.

Surpreendentemente, até o Grindr, conhecido como um aplicativo de namoro popular na comunidade LGBTQIA+, se tornou um espaço para networking.

Aproximadamente 25% dos usuários do Grindr, conforme relatado pela empresa ao The Wall Street Journal, estão lá com o propósito de estabelecer conexões profissionais.

O CEO do Grindr endossa essa abordagem, destacando que ele próprio contratou e desenvolveu relações profissionais significativas com pessoas que conheceu no aplicativo ao longo dos anos.

Ele encoraja ativamente os usuários a explorarem o Grindr como uma ferramenta de networking para impulsionar suas carreiras.

Publicidade

Tinder diz que uso deve ser apenas pessoal

Por outro lado, o Tinder adota uma postura diferente. Suas diretrizes da comunidade são explícitas ao afirmar que o aplicativo deve ser utilizado exclusivamente para conexões pessoais, e não como uma plataforma profissional.

A especialista em carreira, Bruna Garcia, também destaca a necessidade de tomar cuidado ao compartilhar informações pessoais e interagir em links sugeridos durante as interações nos aplicativos de relacionamento. Quando você inicia uma conversa com alguém e recebe a oferta de uma vaga, é importante manter a cautela.

Ao compartilhar informações, como dados pessoais e documentos, é crucial verificar a legitimidade da proposta. Ela recomenda checar o perfil no LinkedIn e outras redes sociais para confirmar a existência da pessoa e da empresa.

Verificar a validade do CNPJ e identificar outras pessoas que possam estar associadas ao negócio também são passos essenciais para evitar possíveis golpes.

* Os entrevistados ouvidos nesta reportagem pediram para serem identificados com nomes fictícios

Tudo Sobre
Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.