Móveis e objetos com pegada sustentável ganham destaque na Semana de Design de Milão; veja apostas

Mobiliários compostáveis, releituras sem madeira ou plástico e uso de sucata em produtos de alto valor agregado traduzem urgência de soluções ambientalmente responsáveis

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Por Marcelo Lima

MILÃO - Como queremos viver hoje? De maneira mais ou menos responsável? Frente a um mundo em constante mudança, e no qual a emergência climática é uma preocupação real, o sistema design como um todo – fabricantes, designers e consumidores – se movimenta em torno de práticas e soluções mais sustentáveis. Em busca de inovações, mas não mais a qualquer custo.

Mostra Is One Life Enough?, em Milão, discute inovação e sustentabilidade Foto: Is One Life Enough/Divulgação

Estratégias em vez de coleções. Reedições no lugar de produtos inéditos. O planeta em vez de apenas o interesse humano imediato. A Semana de Design de Milão chama para si a missão de mostrar ao mundo que um viver mais sustentável não só é um objetivo desejado, mas que pode ser, de fato, alcançado. E isso aparece desde o desenho da mostra, passando pelos lançamentos das grandes marcas, até as dezenas de exposições espalhadas pela cidade.

“Somos um evento global. Como organizadores, sabemos o quão importante é partilhar essa escolha ética e responsável com todas as empresas expositoras, os montadores, os visitantes e todo o ecossistema de design”, afirmou Maria Porro, presidente do Salão do Móvel de Milão, durante o evento de lançamento da edição deste ano. E, ao que tudo indica, em consonância com a maioria das empresas participantes da mostra.

Reedição de olho no futuro

É o caso da Arper italiana, que em 2001 criou a cadeira Catifa, um ícone da marca que ressurge agora em versão mais compromissada com os recursos naturais. Seu novo assento é composto por madeira derivada do papel, que captura carbono. O material é feito a partir de subprodutos, como galhos e lascas, e criado com o objetivo de representar uma alternativa ao uso do plástico.

Design sustentável foi aplicado em reedição da cadeira Catifa Foto: Salva Lopez/Divulgação

Resistente e moldável, o novo assento reproduz, com precisão, as curvas da versão original e, quando sua vida útil acabar, ele pode ser transformado em uma espécie de carvão vegetal e ser usado para aprimorar as condições dos solos. Dessa forma, a nova Catifa exibe o mesmo estilo e beleza de seu projeto original, só que agora dentro de um novo padrão de design sustentável.

Sucata de alto design

Para além dos limites do Salão do Móvel, uma das mais interessantes exposições coletivas em cartaz no circuito FuoriSalone, a 100R, que ocupou o Spazio Maiocchi, versava sobre as possibilidades de utilização do alumínio reciclado na produção de móveis e utensílios de design autoral. A ideia central é mostrar que a sucata deste metal pode ser transformada em objetos de alto design e destinados à produção em massa.

Objetos em exposição em Milão sobre as possibilidades de utilização do alumínio reciclado na produção de móveis e utensílios de design autoral Foto: Hydro/Divulgação

Assim, a convite da Hydro, uma empresa norueguesa líder no setor de alumínio, sete designers de diferentes países e com formações diversas – Inga Sempé, Max Lamb, Andreas Engesvik, Shane Schneck, Rachel Griffin, John Tree e Philippe Malouin – desenvolveram seus projetos tendo como base um material descartado e abundante em nosso meio, mas obtendo como resultado final produtos de alto valor agregado. Entre eles, alguns candelabros, uma cadeira, um sistema de componentes de estantes, armários, um biombo e um cabide. “Com essa iniciativa, queremos enfatizar que estamos caminhando em direção a um futuro em que o uso de materiais já em circulação será imperativo para a produção e a vida”, afirma Lars Beller Fjetland, designer norueguês e diretor criativo do projeto.

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Também parte do FuoriSalone, o circuito Isola, instalado no bairro de mesmo nome, não por acaso tem como tema neste ano uma provocação: “O futuro não está mais disponível no momento”. Segundo Gabriele Cavallaro, promotora do Isola Design Group, não é apenas um slogan, mas um apelo à ação e à reflexão. “Este ano, Isola está numa jornada para provar que o design é mais do que apenas sustentabilidade, é uma força motriz para resolver problemas do mundo real”, afirma.

Adega do estúdio Prostor em exposição na mostra Is One Life Enough?, em Milão Foto: Is One Life Enough/Divulgação

Ao reunir designers de diversas origens e nacionalidades, em mostras como Is One Life Enough? (Uma Só Vida Basta?), o circuito pretende inspirar uma abordagem que transcende fronteiras e formas tradicionais de ver o design, destacando propostas voltadas para o nosso presente, mas que não afetem o futuro imediato, misturando inovação, sustentabilidade e habilidade.

Mesas compostáveis

Celebrada como um dos personagens mais relevantes da cena internacional, a designer espanhola Patricia Urquiola apresentou na Semana de Design de Milão a coleção Naturalia: uma composição de mesas de centro e laterais feitas com resina 100% biodegradável e compostável, que demonstra como os grandes nomes do design podem contribuir, e muito, para minimizar um dos nossos maiores problemas globais: o resíduo de plástico.

Mesa lateral da coleção Naturalia, de Patricia Urquiola, é compostável Foto: Etel/Divulgação

Desenvolvida pela ERT (Earth Renewable Technologies), empresa baseada em Curitiba, a resina bioplástica chegou às mãos de Patrícia por intermédio da Etel, movelaria paulistana com filial em Milão. Com coloração particular, decorrente da combinação de vários tipos de argila, as mesas trazem, a distância, uma aparência de pedra, enquanto suas linhas remetem à estética modernista. Tudo, claro, no melhor estilo da designer espanhola.

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