Vídeo engana ao usar resultado de busca no Google Acadêmico para defender ivermectina contra dengue

Post alega que artigos científicos provam que medicamento pode ser usado contra a doença, mas nenhum dos estudos exibidos faz essa afirmação

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Por Giovana Frioli

O que estão compartilhando: vídeo no Instagram reproduz busca na ferramenta de pesquisa Google Scholar que mostra diversos trabalhos científicos que estudam a ação antiviral da ivermectina. O post contesta uma matéria da Agência Brasil que diz que não há dados que comprovem que o medicamento seja eficaz no tratamento da dengue.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é enganoso. Os artigos científicos exibidos no vídeo viral não provam que a ivermectina é eficaz para o tratamento ou prevenção da dengue. Os documentos indicados são estudos iniciais sobre um possível potencial do uso do medicamento para o desenvolvimento de antivirais contra a doença, sendo que nenhum deles indica o uso da ivermectina para a dengue. O Google Scholar é uma plataforma abrangente que coleta dados de sites com potencial informação científica. No entanto, o mecanismo de busca não tem filtros que garantam a validade e confiabilidade dos trabalhos. Cabe a cada usuário fazer uma análise criteriosa, diz o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict).

Estudos exibidos por Google Scholar em postagem não provam que ivermectina é eficaz contra a dengue Foto: Foto

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Saiba mais: Publicação no Instagram indica o uso da ivermectina contra a dengue com base em artigos científicos sobre o tema recomendados na busca do Google Scholar. Entretanto, os documentos exibidos não concluem que o medicamento parasitário deva ser usado para a prevenção e tratamento da dengue. Consultado pelo Estadão, o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia explicou que a plataforma reúne trabalhos sem um filtro que seja capaz de distinguir produções que passaram ou não por avaliação da comunidade científica.

No vídeo analisado são exibidos oito artigos. Quando se procura individualmente pelos documentos listados, nenhum deles concluiu ou indicou o uso do medicamento para prevenção ou tratamento da doença. A maioria dos estudos investiga a ação da ivermectina nas proteínas virais e o seu potencial para o desenvolvimento de tratamentos contra a doença.

O Estadão Verifica já publicou que a ivermectina não pode ser considerada cura ou prevenção da dengue. O Ministério da Saúde também não reconhece nenhum protocolo que inclua o medicamento para o tratamento da doença. Durante a pandemia de covid-19, a ivermectina foi defendida como terapia precoce de combate ao vírus sem eficácia comprovada.

Ivermectina não é eficaz contra dengue, alertou o Ministério da Saúde. Foto: Gerard Julien/ AFP

Nenhuma pesquisa mostrada no vídeo concluiu que a ivermectina deva ser usada contra a dengue

Apesar dos estudos citados no post serem publicados por sites de divulgação de trabalhos acadêmicos, isso não significa que sejam confiáveis. Entre os artigos, há, por exemplo, uma investigação sobre o efeito da ivermectina em mosquitos Aedes albopictus infectados com a dengue que recebeu o selo de “Preocupação” dos editores da revista científica PLOS Neglected Tropical Diseases. Os pesquisadores indicaram inconsistência na “viabilidade, integridade e fiabilidade dos resultados”.

O post checado cita como suposta prova da eficácia da ivermectina, uma pesquisa sobre o potencial do medicamento em inibir a replicação do vírus da dengue, desenvolvida na Monash University, Austrália. No entanto, na conclusão do estudo, os cientistas frisam que não há recomendação do uso do medicamento para o tratamento da dengue. “Deve-se notar que o presente estudo teve como objetivo provar o princípio de que um inibidor da importação nuclear de proteína viral poderia ter propriedades antivirais, e não está de forma alguma propondo que a ivermectina deva ser usada ou algo próximo disso para tratar doenças virais.”

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Também são exibidos estudos que apontam um possível potencial da ivermectina para o desenvolvimento de antivirais contra a dengue no futuro. Porém, nenhum indica que o medicamento parasitário deva ser usado hoje como tratamento da doença. Ainda há trabalhos não-relacionados à dengue e, sim, a outras enfermidades como zika – que não se provou eficaz na conclusão do estudo – ou ao vírus da covid-19. Nesse caso, a conclusão apontou que seriam necessários mais estudos para demonstrar uma possível eficácia.

Google Scholar não filtra se pesquisas são confiáveis e revisadas pela comunidade científica

A ferramenta de pesquisa Google Scholar ou Google Acadêmico é um sistema de busca que recomenda trabalhos com potencial informação científica. Entretanto, como explica Washington Carvalho Segundo, coordenador-geral de Informação Científica e Técnica (CGIC) do Ibict, não há filtros de rigor científico ou de avaliação de cumprimento de conduta ética nos resultados exibidos pelo portal. “O Google Scholar é um sistema de recuperação de documentos extremamente completo e rico, mas há que se ter ter uma visão crítica e analítica sobre a informação exibida nas buscas realizadas”, diz.

É uma prática da pesquisa científica que os trabalhos sejam avaliados por um grupo de especialistas antes de serem publicados e validados, porém não há filtros dessa avaliação na ferramenta. “O Google Scholar não tem um mecanismo de busca que faça essa distinção entre as revistas que têm esse processo de avaliação por pares de forma confiável. Isso não significa que as revistas indexadas são de má qualidade ou que veiculam conteúdos inverídicos, mas que sempre se deve ter um olhar refinado sobre os artigos e pesquisas recuperados pelo sistema”, afirma o especialista.

Ele frisa que é necessário ter cuidado com revistas que apenas simulam o processo de avaliação, sem de fato realizá-lo, publicando resultados que não passaram pela checagem científica para lucrar com as taxas de processamento. Há ainda trabalhos que estão em curso e em discussão pela comunidade de especialistas, que devem ser sinalizados com a classificação de que se trata de uma pesquisa que ainda não passou por revisão dos pares.

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A recomendação do especialista é observar se a revista onde o artigo foi publicado possui credibilidade e se há algum tipo de alerta ou retratação sobre o trabalho publicado. “É o caso de uma pesquisa que chegou a um resultado, que depois se confirmou falho ou duvidoso. Quando esse fato ocorre, o próprio veículo onde o trabalho foi publicado, exibe um alerta ao se acessar o documento”, explica Washington.

Também é importante que pessoas não especializadas na área tenham cuidado ao interpretar trabalhos científicos. “Por exemplo, um trabalho pode afirmar que um medicamento é eficaz contra um vírus. Mas, ao realizar o teste em animais, verifica-se que a dose necessária seria letal em humanos”, enfatiza ele. O título de uma pesquisa pode gerar uma interpretação do senso comum que não se confirma na prática.

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