Protocolo com vitaminas e própolis para pacientes com dengue não tem embasamento na ciência

Em vídeo viral, médico sugere que pacientes tomem as substâncias juntamente com remédio contra infecções respiratórias, mas fabricante nega haver estudos indicando uso para dengue

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Por Clarissa Pacheco
Atualização:

Texto atualizado em 28 de fevereiro de 2024, às 12h03, para acrescentar resposta do autor do vídeo.

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O que estão compartilhando: que, além da hidratação, existe um protocolo que aumenta a imunidade do paciente com dengue e o faz ter uma melhora mais rápida da doença. O protocolo, segundo o médico que o divulga, inclui própolis, vitamina C, vitamina D e um medicamento chamado Broncho-Vaxom.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. De acordo com o Ministério da Saúde e com o coordenador científico da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), o infectologista Alexandre Naime Barbosa, não há comprovação científica de que as substâncias citadas sejam eficazes.

“Infelizmente, não existem medicações que, usadas durante o curso da doença, melhorem a imunidade. Divulgar protocolos assim é um problema porque, ao utilizar uma medicação achando que vai ajudar, você pode deixar de fazer o que realmente importa, que é ser hidratado de forma correta e seguir as orientações da forma recomendada”, explica Alexandre Naime, que também é professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Além disso, a farmacêutica Chiesi, fabricante do Broncho-Vaxom, medicamento citado no vídeo, afirma que “não há estudos específicos relacionados ao uso do medicamento para o tratamento de pacientes com dengue”.

O autor do vídeo é o médico Renan Botelho. Ele não tem especialidades registradas no Conselho Federal de Medicina. Em suas redes sociais, diz trabalhar com um programa para emagrecimento feminino. No vídeo, ele afirma que trabalhou em um pronto-socorro há cerca de dez anos e que seus pacientes com dengue melhoravam mais rápido do que os demais. Ele atribui este benefício a um protocolo para melhorar a imunidade.

Outro lado

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Por e-mail, o médico Renan Botelho alegou que não divulgou um protocolo para tratar da dengue. “No vídeo, eu deixo claro que o objetivo destes componentes é aumentar imunidade e, aumentando a imunidade, a resposta a qualquer tipo de doença acontece de forma mais potencializada. Portanto, o protocolo passado não é para tratar dengue e sim para otimizar a imunidade, favorecendo assim uma melhorar em qualquer processo infeccioso”, escreveu.

Médico indica protocolo para aumentar imunidade e melhorar rápido da dengue, mas ministério não reconhece e especialista diz não haver eficácia comprovada Foto: Reprodução/Facebook/Instagram

Saiba mais: Só este ano, cerca de 500 mil casos prováveis de dengue foram registrados em todo o Brasil, de acordo com dados do Ministério da Saúde. A estimativa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) é que o número de casos chegue a 5 milhões, mais do que o triplo registrado em 2023.

No ano passado, o Brasil foi o país com o maior número de casos da doença – 1,6 milhão de casos prováveis –, e bateu o próprio recorde de mortes desde 2000, quando começou a série histórica: foram 1.094 vidas perdidas ao longo de 2023. De acordo com a ONU, o mundo vive um patamar histórico relacionado à doença, agravado pela crise climática e pelo El Niño. No final de janeiro, o governo federal começou a distribuir as primeiras vacinas contra a dengue, mas elas não são suficientes para toda a população.

No vídeo investigado, o médico responde a uma pergunta no Instagram de uma pessoa que procurava dicas para se curar mais rapidamente da doença. Ele faz uma espécie de prescrição e pede que as pessoas anotem as orientações e salvem o vídeo. Segundo ele, os pacientes devem se hidratar – o que está correto. Também recomenda a ingestão de 50 gotas de própolis uma vez ao dia por uma semana; um comprimido de vitamina D 50.000 unidades por três dias, além de vitamina C de 500 mg e um medicamento chamado Broncho-Vaxom.

Não há comprovação de eficácia, diz infectologista

Consultado pelo Estadão Verifica, o médico Alexandre Naime Barbosa explica que não existe nenhum tipo de tratamento, do ponto de vista da eficácia, seja fitoterápico ou por vitaminas, que aumente a imunidade no curso de doenças provocadas por vírus. “Não existe nenhum estudo feito com seres humanos constatando que qualquer intervenção desse tipo possa melhorar a imunidade da pessoa, direta ou indiretamente. Isso vale pra dengue, covid, HIV. Nada disso aumenta a imunidade, isso é uma falácia, não existe comprovação que indique benefícios”, diz.

Vacinação contra a dengue começou no Distrito Federal em 9 de fevereiro de 2024. Foto: Wilton Junior/Estadão - 9/2/2024 Foto: Wilton Junior

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Outra variável é a da segurança. Sobre o própolis, uma substância natural, Alexandre Naime afirma que, desde que seja feita uma dosagem habitual, indicada pelo fabricante, não há riscos. Mas a vitamina D em excesso pode, sim, ser um problema. “A vitamina D em excesso durante um tempo prolongado pode levar a problemas renais e intoxicação. Você tem que ter esse tipo de cuidado”, alerta.

O infectologista disse não conhecer o Broncho-Vaxom, mas alertou, mais uma vez, que não há medicamentos que melhorem a imunidade do paciente no curso da doença, bem diferente do que diz o autor do vídeo (leia abaixo sobre o medicamento).

Para que serve o Broncho-Vaxom?

O último item do “protocolo” indicado pelo médico que aparece no vídeo checado é um medicamento chamado Broncho-Vaxom, fabricado pela farmacêutica Chiesi. Ele é um lisado bacteriano, um tipo de composto formado por partes das bactérias que mais frequentemente causam infecções respiratórias.

No vídeo, o médico diz que o medicamento irá “melhorar” e “ativar o sistema imunológico”. De acordo com a bula do produto, ele é indicado para o “tratamento auxiliar e prevenção dos processos infecciosos dos pulmões, da garganta, dos seios da face e dos ouvidos (bronquite aguda e crônica; amigdalite, faringite e laringite; rinite, sinusite e otite); de infecções resistentes aos antibióticos convencionais e de complicações bacterianas decorrentes de infecções virais do trato respiratório, especialmente na criança e no idoso. É indicado também para a prevenção de recidivas (recaídas) e da transição para o estado crônico”.

Em nota, a farmacêutica Chiesi explicou que isso ocorre porque “o medicamento estimula as defesas naturais do organismo, aumentando sua capacidade de combater as doenças, fortalecendo a resistência às infecções do trato respiratório e reduzindo o risco de recorrência”. Diferentemente do que sugere o médico, a própria farmacêutica nega que haja estudos que relacionem o uso do medicamento no tratamento de pacientes com dengue.

O que diz o Ministério da Saúde

Em nota, o Ministério da Saúde informou que recomenda apenas os medicamentos indicados no Manual de manejo clínico de dengue, disponível no site do ministério e em processo de atualização. Existe uma conduta diferente – e medicamentos distintos – para cada nível de gravidade em que o paciente se encontra. Neste fluxograma é possível identificar as orientações para a hidratação oral para adultos e crianças.

Aqueles do Grupo A são os casos suspeitos de dengue, sem sinais de alarme e em pacientes sem comorbidades, que não sejam de grupos de risco ou que não tenham condições clínicas especiais. Nestes casos, a conduta deve ser a seguinte:

  • Realização de exames laboratoriais complementares a critério do médico
  • Prescrição de paracetamol e/ou dipirona
  • Não utilização de salicilatos ou anti-inflamatórios não esteroides
  • Orientação de repouso e prescrição de dieta e hidratação oral.
  • O médico também deve orientar o paciente a não se automedicar e procurar imediatamente o serviço de urgência em caso de sangramentos ou sinais/sintomas de alarme. O retorno médico deve ser previsto para o dia da melhora da febre ou o quinto dia da doença

Os do Grupo B são os casos suspeitos de dengue, sem sinais de alarme, mas com sangramento espontâneo ou induzido de pele e em pacientes com condições clínicas especiais e/ou risco social ou comorbidades. Nestes casos, o médico deve:

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  • Solicitar exames complementares: hemograma completo com coleta no momento do atendimento, avaliar a hemoconcentração e pedir outros exames, dependendo do resultado
  • Manter o paciente em observação até o resultado dos exames
  • Prescrever hidratação oral, como no Grupo A, até o resultado dos exames
  • Prescrever paracetamol e/ou dipirona
  • Orientar o paciente a não se automedicar e procurar imediatamente o serviço de urgência em caso de sangramentos ou sinais/sintomas de alarme. O retorno médico deve ser agendado até 48 horas após a queda da febre ou imediatamente, no caso na presença de sinais de alarme

Os pacientes do Grupo C são aqueles que têm caso suspeito de dengue com a presença de algum sinal de alarme, como dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, acúmulo de líquidos, sangramento de mucosa, letargia e/ou irritabilidade, aumento progressivo do hematócrito etc.

  • O mais importante para estes pacientes é iniciar a reposição de líquidos por via intravenosa imediatamente. Eles devem ficar em acompanhamento em leito de internação por pelo menos 48 horas
  • Realizar exames complementares obrigatórios: hemograma completo e dosagem de albumina sérica e transaminases, além de exames de imagem (raio-X e ultrassonografia)
  • Pacientes do Grupo C precisam de avaliação contínua porque, em caso de evolução para quadro de choque ou de não melhora dos sinais, eles devem ser considerados do Grupo D. Exames para confirmação de dengue também são obrigatórios para estes pacientes
  • O médico deve prescrever paracetamol e/ou dipirona e notificar o caso.

Os pacientes do Grupo D são os mais graves. São casos suspeitos com presença de sinais de choque, sangramento grave ou disfunção grave de órgãos. Entre os sinais de choque estão taquicardia, extremidades distais frias, pulso fraco e filiforme, enchimento capilar lento, taquipneia, hipotensão arterial e cianose. A conduta recomendada é:

  • Iniciar imediatamente a fase de reposição de líquidos por via intravenosa
  • Fazer reavaliação clínica a cada 15 a 30 minutos, com monitoramento constante
  • Manter o paciente em leito de UTI até a estabilização, por no mínimo 48 horas
  • Realização exames complementares obrigatórios: hemograma completo e dosagem de albumina sérica e transaminases, além de exames de imagem (raio-X e ultrassonografia)

O Ministério da Saúde acrescentou que a conduta clínica recomendada se baseia em evidências clínicas robustas. “Não é de conhecimento do Ministério da Saúde que existam outros tratamentos de dengue além daqueles recomendados pela pasta. Os medicamentos indicados para o tratamento dos sintomas têm aprovação da Anvisa e constam na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais do Sistema Único de Saúde”, diz a nota.

A página dedicada à dengue do Ministério da Saúde explica que “ainda não existe um tratamento específico para a doença”. Por recomendação médica, ele é baseado principalmente na reposição adequada de líquidos. Por isso, aqueles que estiverem em casa, devem repousar; ingerir líquidos; não se automedicar e procurar imediatamente o serviço de urgência em caso de sangramentos ou surgimento de pelo menos um sinal de alarme; e retornar para reavaliação clínica conforme orientação médica.

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Prevenção

Em dezembro do ano passado, a vacina contra a dengue foi incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS), mas não há doses suficientes para todo mundo e, por enquanto, o imunizante foi distribuído prioritariamente para cidades de 16 Estados, com o intuito de serem aplicadas em crianças e adolescentes de 10 a 14 anos.

A vacina é apenas uma forma de se prevenir contra a doença. O principal método de prevenção, diz o Ministério da Saúde, é controlar o vetor de transmissão, ou seja, as fêmeas do mosquito Aedes aegypti.

Soldados do Exercito atuam no combate a Dengue em Samambaia, cidade satélite de Brasília. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil - 31/1/2024 Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agvônc

Ações são desenvolvidas por agentes de saúde, principalmente, mas a população deve ficar atenta e uso de telas nas janelas e repelentes em áreas de reconhecida transmissão; remover recipientes nos domicílios que possam se transformar em criadouros de mosquitos; vedar os reservatórios e caixas de água; desobstruir calhas, lajes e ralos; e participação na fiscalização das ações de prevenção e controle da dengue executadas pelo SUS.

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