Análise|Biden perde apoio entre eleitores negros, e isso não é uma surpresa

Amparo do eleitorado negro ao Partido Democrata atingiu ápice quando Obama disputou a Presidência, e só cai desde então

“Quase votei nele”, disse Felicia Lowe, uma mulher negra de 55 anos, na terça-feira, 12, a Superterça, ao sair de sua seção eleitoral.

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O “ele” nessa declaração é Donald Trump. Lowe contou que pretendia votar nele na primeira vez em que ele concorreu à Presidência, mas foi diagnosticada com câncer e não votou naquele ano.


Lowe se diz feliz por não ter votado em Trump naquela época, porque agora ela acha que “ele está tentando tornar grandiosa os Estados Unidos dos brancos [referência ao slogan do republicano], e todos nós deveríamos ser incluídos”.

“Apoio Joe Biden ”, disse ela. “Sou democrata.” Mas explicou o apelo de Trump para pessoas como ela: “Trump nos usou e, ao mesmo tempo, nos enganou com seu charme, seu humor e seu discurso direto. Não que tudo seja verdade, mas ele simplesmente não se omitiu em relação a certas coisas. E muita gente quer alguém com os pés no chão”.

O ex-presidente republicano Donald Trump em um comício de campanha, em 2 de março, no Estaso de Virgínia. Foto: AP/Steve Helber, Arquivo

Para alguns, manter essas duas ideias ao mesmo tempo —que Trump é “preconceituoso”, como ela disse, mas ainda assim divertido— pode parecer contraditório a ponto de ser implausível, mas está longe de ser a primeira vez que ouço essa resposta. Embora pessoas como eu achem a personalidade do candidato repulsiva, essa não é uma opinião unânime. Algumas se sentem atraídas por ele.

O ponto de vista de Lowe ilustra a complexidade que certos eleitores negros —alguns deles, apoiadores de Joe Biden— trazem para esta eleição e para a política em geral. São essas mesmas complexidades que aterrorizam alguns democratas.

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As primárias do último dia 12 foram completamente previsíveis, confirmando as indicações de Biden e de Trump à Presidência por seus respectivos partidos. Mas, na Geórgia, aproveitei o dia para conversar e entender melhor os eleitores negros, que serão fundamentais em termos de como o estado se comportará em novembro.

Primeiramente, é sempre importante observar que as mulheres negras votam nos democratas mais do que qualquer outro dos principais grupos demográficos. O segundo lugar fica com os homens negros. Segundo o Pew Research Center, em 2020, 95% das mulheres negras e 87% dos homens negros votaram em Biden.

Mas, daqui para frente, esses altos níveis de apoio não estarão garantidos. Para os democratas, o medo não é que os eleitores negros comecem a votar de forma diferente dos outros eleitores, mas que comecem a votar da mesma forma que eles.

É quase certo que o apoio dessa fatia do eleitorado aos democratas atingiu o ponto mais alto quando Barack Obama concorreu à Presidência e venceu, em 2008. Mas, desde então, esse apoio está voltando aos níveis pré-Obama.

Presidente dos EUA Joe Biden em conferência de imprensa na Casa Branca, em 23 de fevereiro. Foto: AP / Evan Vucci, Arquivo

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Como acontece com outros grupos, uma das grandes questões que os negros frequentemente levantam ao discutir política é a economia —sobretudo o alto custo de tudo, de moradia a comida.

E, assim como os demais eleitores, a comunidade afro-americana se lembra dos cheques com o nome de Trump emitidos em 2020. Só aqueles que passam longe das dificuldades financeiras não conseguem entender como uma ajuda inesperada, mesmo de um valor relativamente baixo, cria uma lembrança duradoura para quem mal conseguem sobreviver.

E há eleitores negros que acreditam que o ambiente de negócios era melhor sob Trump do que sob Biden. Kevin Wesley, proprietário de uma barbearia, contou: “Acho que Trump garantiu que os empresários mantivessem a estabilidade para manter nossa comunidade empregada”.

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Quando se trata de economia, Biden se saiu melhor do que a maioria pensa, mas não soube fazer propaganda de suas ações. Isso contrasta com o crédito dado a Trump, às vezes por coisas que ele nem fez. Como Clifford Albright, diretor executivo do fundo Black Voters Matter, me disse sobre Trump na Super Terça: “Ele faz o que os vigaristas fazem. Sabe como mandar recados”.

Há também a questão da religiosidade, relativamente alta dentro da comunidade negra. Marius Mitchell, 46, pai de dois filhos, afirmou há algumas semanas que ele e seus amigos estão se afastando de Biden e dos democratas por causa da adesão deles à luta pelos direitos LGBTQIA+.

Geannie Shelton, 85, que disse ter apoiado Biden, acredita que quem quer que vença simplesmente fará parte do plano e da mensagem de Deus e que Ele está furioso porque perdemos o rumo. “Alguma coisa tem que mexer com as pessoas, e Trump está fazendo isso.”

Por fim, há os temas específicos deste ciclo eleitoral, como a guerra na Faixa de Gaza e as preocupações com a idade e a competência dos candidatos, embora na Geórgia eu tenha sentido as pessoas menos encucadas com esses assuntos do que em outros estados para os quais viajei nas últimas semanas.

Sem dúvida, encontrei eleitores negros e entusiasmados com Biden em Atlanta, mas fiquei impressionado com o apoio moderado ao presidente entre muitos eleitores negros e como poucos falaram da possibilidade de uma segunda Presidência de Trump em termos apocalípticos.

Como muitas outras pessoas, eu costumava acreditar que as deserções dos negros do Partido Democrata, por mais incrementais que fossem, eram apenas a manifestação de um fracasso na transmissão de mensagens e no cuidado com o eleitorado. Mas estou começando a ver parte disso como um desvio natural que aproxima os negros dos padrões de outros grupos raciais e étnicos.

Análise por Charles M. Blow

é colunista do New York Times desde 2008 e comentarista da rede MSNBC

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