Cansados de propagandas falsas, jornalistas russos se demitem da imprensa estatal

Pelo menos quatro jornalistas deixaram seus empregos publicamente; eles alegam arrependimento pelo papel desempenhado em reforçar narrativas falsas

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Por Anton Troianovski, The New York Times
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O jornalista Dmitri Likin passou mais de duas décadas ajudando a formar o visual da televisão estatal russa, mas conta que nem ele nem seus amigos nunca assistiam ao noticiário. A situação ilustra o tipo de concessão feita há muito tempo por alguns funcionários da máquina de propaganda do Kremlin: são pessoas que valorizam o emprego e o desafio criativo, mesmo que não concordem com a missão do local onde trabalham.

Foi apenas neste mês, depois que o presidente Vladimir Putin invadiu a Ucrânia, que Likin renunciou ao cargo, o qual ocupava há muito tempo, de diretor de arte do Canal 1, o canal de televisão estatal russo que é um importante participante do aparato de propaganda do Kremlin. Likin insistiu que “não era um político”, mas que a invasão significava que agora ele fazia parte de uma operação com uma agenda de “genocídio”.

“Na Rússia, a televisão é feita para pessoas que, por uma razão ou outra, são preguiçosas demais para usar fontes alternativas de informação”, disse Likin em entrevista por telefone ao The New York Times, refletindo sobre seu público. “São simplesmente pessoas que não têm educação, ou que não têm o hábito da análise.”

Sede da TV Ostankino em Moscou, em fotografia registrada no dia 15 deste mês. Funcionária do canal entrou no estúdio do noticiário no dia 14 de março com um cartaz anti-guerra Foto: AFP

A invasão da Ucrânia por Putin levou alguns russos que trabalham há muito tempo para o governo a cortar os laços com ele, o que representa um sinal de como o Kremlin luta para manter a sociedade unificada por trás da guerra. Milhares foram presos protestando contra a invasão da Ucrânia, dezenas de milhares fugiram do país e, nesta quarta-feira, 23, o enviado climático de Putin, Anatoli Chubais, se tornou o primeiro alto funcionário do governo a renunciar desde o início da invasão, no dia 24 de fevereiro.

Nos canais de televisão estatais da Rússia, um pilar crucial do domínio de Putin sobre a política interna do país, houve pelo menos quatro renúncias de cargos de alto nível. Marina Ovsiannikova, a funcionária do Canal 1 que interrompeu um noticiário ao vivo na semana passada para exibir um cartaz antiguerra (”Eles estão mentindo para você aqui”, dizia), ofereceu o ato de protesto mais impressionante.

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Outros, como Likin, foram mais discretos, fornecendo um vislumbre do crescimento da insatisfação dentro do sistema de Putin - e um lembrete do imenso poder da televisão em moldar como a maioria dos russos vê a guerra. “As pessoas estão apenas deprimidas – clinicamente deprimidas”, disse Zhanna Agalakova, uma correspondente do Canal 1 que renunciou este mês, sobre alguns dos colegas deixados para trás.

“Muitas pessoas que pensam estão sentindo sua própria culpa. E não há saída, entende? Simplesmente pedir perdão não é suficiente”, continuou.

Todas as redes nacionais de televisão da Rússia são controladas pelo Kremlin e, embora sua influência tenha diminuído com a ascensão do YouTube e das mídias sociais, elas continuam sendo a principal fonte de notícias do público. Cerca de dois terços dos russos confiaram na televisão estatal no ano passado para receber suas notícias, abaixo dos 90% em 2014, de acordo com pesquisas do Levada Center, um instituto de pesquisa independente de Moscou.

Marina Ovsiannikova, editora da emissora estatal Canal 1, protestou contra a invasão russa na Ucrânia durante transmissão de noticiário. Na foto, Marina conversa com a imprensa no dia 15 de março Foto: AFP

Durante a guerra, os canais de televisão estatais entregaram aos russos uma imagem do conflito que é o oposto do que as pessoas veem no Ocidente : os russos são os mocinhos, como eram quando combateram a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial, trazendo libertação para terras ucranianas tomadas por neonazistas financiados pelo Ocidente hegemônico. Fotos de civis mortos e casas destruídas são rotuladas como falsas ou como consequência do bombardeio dos ucranianos.

“Os moradores locais estão dizendo que os militares ucranianos estão atirando deliberadamente em prédios residenciais”, disse um repórter do Canal 1 em uma transmissão feita nesta quarta-feira da cidade ucraniana de Mariupol, alvo de alguns dos mais violentos bombardeios russos da guerra. “Outros estão dizendo que os nacionalistas foram ordenados a destruir a cidade o máximo possível antes de recuar.”

A maioria dos russos, dizem os pesquisadores, acredita na mensagem transmitida pela televisão – especialmente porque a guerra está sendo apresentada como uma extensão lógica da narrativa de inimizade e ressentimento contra o Ocidente que a televisão russa promove há anos. E a maioria dos jornalistas da televisão estatal, por enquanto, permanecem em seus empregos, ampliando ao máximo a mensagem da Rússia lutando por seu direito de existir.

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Liliya Gildeyeva, uma âncora que deixou o canal estatal NTV, disse ao jornal russo The Insider esta semana que não podia julgar seus colegas que ficaram para trás – e reconheceu que ela mesma havia feito concessões após concessões, percebendo apenas quando a guerra começou o quão longe ela tinha ido. “Quando você se cede gradualmente, não percebe o quanto a queda é profunda”, disse ela.

Jornalista Zhanna Agalakova, ao microfone, pediu demissão neste mês por discordar de princípios do Canal 1. Ela era correspondente do jornal na França Foto: Marta Garde / EFE

O choque da guerra parece ser o que levou dezenas de milhares de russos a um êxodo histórico nas últimas semanas, levando aviões para destinos que ainda aceitavam voos da Rússia, como Turquia e Armênia. Alguns eram jornalistas e ativistas fugindo de uma possível prisão, muitos outros eram trabalhadores de tecnologia e jovens profissionais que de repente deixaram de ver um futuro para si na Rússia.

Alguns membros da elite russa também se dirigiram para fora do país. A notícia da partida mais importante até agora veio nesta quarta-feira, quando a Bloomberg News informou que Chubais, o assessor climático do Kremlin, deixou o país por causa da guerra na Ucrânia. O Kremlin confirmou que Chubais deixou o cargo. Ele era visto como um dos poucos funcionários liberais que permaneceram no governo de Putin, e seu papel de liderança nas reformas econômicas de Moscou na década de 1990 o tornou impopular em grande parte da sociedade russa.

Não está claro se as insatisfações entre alguns membros da elite podem de alguma forma desestabilizar o governo de Putin. Likin, ex-diretor de arte do Canal 1, disse acreditar que pessoas como ele, dispostas a renunciar por causa de seus princípios, constituem uma “pequena minoria” da população russa.

“Muitas pessoas não trabalham por uma ideia”, disse Agalakova, ex-correspondente do Canal 1, sobre seus ex-colegas que ficaram para trás. “As pessoas têm uma família, têm empréstimos e têm algum tipo de necessidade de sobrevivência.”

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Aqueles que deixam os empregos na televisão estatal, e especialmente aqueles que se manifestam, enfrentam um futuro incerto. Agalakova falou com o New York Times por telefone de Paris, onde está como correspondente, e disse que alguns de seus conhecidos pararam de se comunicar com ela depois que ela se demitiu. Likin contou que planeja ficar na Rússia e continuar uma carreira paralela como arquiteto. Ele disse que poderia se imaginar voltando à televisão se ela “mudar sua agenda de exterminar a vida para uma de afirmação da vida”.

Pesquisas patrocinadas pelo governo afirmam que a maioria dos russos apoia a invasão de Putin, embora os analistas alertem que as pessoas são ainda menos propensas a responder a pesquisas em tempos de guerra com a verdade.

Os anos de propaganda na televisão russa prepararam o terreno para a guerra, principalmente ao ligar o sentimento da lembrança dos russos do sacrifício durante a Segunda Guerra Mundial ao apoio às políticas atuais de Putin, diz Agalakova.

“É claro que, quando o conceito de nazismo é lançado na sociedade, como se estivesse literalmente em nosso quintal na Ucrânia, todos reagem instantaneamente”, afirmou a jornalista, referindo-se às falsas alegações do Kremlin de que a Rússia está lutando contra nazistas na Ucrânia . “Este é um jogo sem pudor. Este é um jogo fraudulento.”

Telespectadora assiste telejornal russo no momento em que jornalista invade estúdio com um cartaz anti-guerra, no dia 15 de março deste mês Foto: EFE

Em meio à enxurrada de propaganda, os russos que desconfiam da televisão encontraram cada vez menos lugares para procurar notícias mais precisas. Desde o início da guerra, a estação de rádio liberal Eco de Moscou foi fechada, o canal de televisão independente TV Rain saiu do ar para a segurança de sua equipe e o acesso ao Facebook e Instagram foi bloqueado pelo governo.

Na terça-feira, 22, as autoridades russas anunciaram que um jornalista popular, Aleksandr G. Nevzorov, estava sob investigação criminal por postar sobre o bombardeio russo de Mariupol em sua página do Instagram. Foi o mais recente esforço para espalhar o medo entre os críticos da guerra, ao alardear a aplicação de uma nova lei que prevê até 15 anos de prisão por qualquer diferença da história oficial sobre o que o Kremlin chama de “operação militar especial” em Ucrânia.

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Denis Volkov, diretor do centro de votação Levada, diz que o verdadeiro teste para a opinião pública russa ainda está por vir, à medida que as dificuldades econômicas desencadeadas pelas sanções ocidentais se infiltram na sociedade. Ainda assim, ele disse que achava que a narrativa do Kremlin de um Ocidente subvertendo a Ucrânia para destruir a Rússia - e da Rússia travando uma luta nobre para proteger seu povo no exterior - se tornou tão fortemente arraigada no público telespectador que era improvável que seja uma ideia desalojada em breve.

“O que parece se encaixar à narrativa oficial é aceito, o que não se encaixa é simplesmente rejeitado”, disse Volkov sobre a percepção dos russos sobre as notícias que estão fora da narrativa da televisão russa. “O que é verdade ou não verdade não importa.” /THE NEW YORK TIMES

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