Gerando resumo
GENEBRA - O novo acordo de paz liderado pelos EUA para a Ucrânia está ganhando impulso, com avanços alcançados no fim de semana em Genebra e novas reuniões envolvendo delegações dos Estados Unidos, da Rússia e da Ucrânia nos Emirados Árabes Unidos. O presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, deverá viajar aos Estados Unidos nos próximos dias para se encontrar com o presidente Donald Trump para discutir o acordo.
Apesar disso, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, disse esperar que os americanos apresentem em breve à Rússia sua versão provisória do acordo, após contribuições dos ucranianos e europeus, mas alertou que, se o acordo se desviar do que Putin exigiu na cúpula do Alasca em agosto, haverá um problema.
“Porque se o espírito e a letra do acordo de Anchorage forem apagados, com base nos principais entendimentos nele contidos, então, é claro, estaremos em uma situação fundamentalmente diferente”, afirmou.

A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse nesta terça-feira, 25, que os EUA fizeram “progressos tremendos” rumo a um acordo de paz ao trazer a Rússia e a Ucrânia à mesa de negociações.
“Há alguns detalhes delicados, mas não insuperáveis, que precisam ser resolvidos e exigirão novas conversas entre a Ucrânia, a Rússia e os Estados Unidos”, disse ela em uma publicação no X. Os ucranianos afirmaram que a questão crucial do território será resolvida diretamente entre Trump e Zelenski.
Os esforços para elaborar um plano de paz que fosse de alguma forma aceitável para todos os lados e pusesse fim a quase quatro anos de guerra ocorreram enquanto dezenas de mísseis russos atingiam Kiev durante a noite, destruindo prédios residenciais e a infraestrutura de energia.

O tenente-coronel Jeff Tolbert, porta-voz do secretário do Exército, Daniel Driscoll, disse que as negociações com a delegação russa em Abu Dhabi, que continuam nesta terça-feira, “estão indo bem e permanecemos otimistas”. Ele acrescentou que estão em sincronia com a Casa Branca.
Uma delegação ucraniana também está em Abu Dhabi, afirmou um funcionário americano, “e tem estado em contato com o Secretário Driscoll e sua equipe”. Ele falou sob condição de anonimato devido à sensibilidade do assunto.
O alto funcionário ucraniano Rustem Umerov afirmou nesta terça-feira que Zelenski viajará aos Estados Unidos ainda este mês para finalizar o acordo com Trump.
O plano original, amplamente criticado por ucranianos e europeus por ser excessivamente pró-Rússia e uma capitulação para a Ucrânia, foi endossado na sexta-feira pelo presidente russo Vladimir Putin como uma possível base para a paz. A maioria dos analistas acredita que as últimas alterações serão inaceitáveis para Moscou, deixando a Rússia com a opção de tentar revisar o projeto de acordo mais uma vez ou rejeitá-lo completamente.
A mais recente onda de diplomacia dos EUA, realizada antes do Dia de Ação de Graças e com o objetivo de pôr fim à guerra, pode acabar fracassando, assim como os esforços anteriores.
Em suas declarações ao Conselho de Segurança da Rússia na sexta-feira, Putin afirmou que a Rússia estava “feliz” em continuar lutando e derrotar a Ucrânia por meios militares. “Mas, como já disse muitas vezes, também estamos prontos para negociações de paz e para a resolução pacífica dos problemas.”
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Enquanto as autoridades americanas se esforçavam para tentar aproximar as partes, a Rússia lançou um ataque devastador com mísseis e drones contra a capital ucraniana durante a noite, atingindo prédios residenciais em vários bairros e matando pelo menos sete pessoas. Este foi o mais recente de uma série de ataques contra infraestrutura civil que parecem ter como objetivo aumentar a pressão sobre a população civil da Ucrânia para quebrar a resistência do país. A Rússia também atacou várias outras regiões, incluindo Chernihiv, Dnipro e Kharkiv.
Um ex-alto funcionário do Kremlin com conhecimento das negociações afirmou que o plano original de 28 pontos era apenas um “ponto de partida” para a Rússia, com alguns elementos aceitáveis para Moscou e outros não.
“Putin também acha que ninguém está levando sua posição a sério. Putin não quer realmente continuar a guerra, mas é um oportunista. Ele precisa receber algo significativo em troca dessa guerra”, disse o ex-funcionário, desdenhando dos esforços ucranianos e europeus para influenciar o processo.
“É um plano pró-Rússia, mas a Rússia está em uma posição mais forte, então qualquer plano teria que ser pró-Rússia porque este é mais realista”, disse o ex-funcionário.
A Rússia tem criticado sistematicamente qualquer participação europeia nas negociações, insistindo que as nações europeias são belicistas que buscam apenas perpetuar a guerra com seu apoio à Ucrânia.
Entre as linhas vermelhas para a Rússia nas negociações, está a medida, noticiada anteriormente pelo The Washington Post, de, por ora, deixar de lado a controversa exigência de Moscou de que a Ucrânia se retire do território na região leste de Donbas que a Rússia não conseguiu conquistar, e que essa questão seja decidida em conversas entre Trump e Zelenski. A Rússia também rejeitaria a exigência de que as aspirações da Ucrânia de ingressar na Otan sejam decididas com base nas regras da aliança, o que eliminaria o veto absoluto à adesão presente na versão anterior do documento.
Nas conversas de domingo, os negociadores ucranianos disseram aos seus homólogos americanos que Kiev estaria disposta a iniciar as discussões a partir das suas atuais posições militares, e não com base nas exigências russas de que a Ucrânia ceda a porção da região de Donbas que não controla, como estipulado na versão anterior do acordo.
O ex-alto funcionário do Kremlin disse que a Rússia pode estar disposta a congelar as linhas de frente nas regiões de Zaporizhzhia e Kherson. “Mas a questão mais complicada é Donetsk. Acho que um acordo sobre Donetsk seria possível, mas apenas no final das negociações.”
A região de Donetsk faz parte de Donbas.
Os negociadores americanos estão cientes da sensibilidade das concessões territoriais para os ucranianos, afirmou Oleksandr Bevz, assessor do governo ucraniano que participou das negociações em Genebra, e percebem que tais questões podem provocar agitação social ou protestos militares na Ucrânia.
Tatiana Stanovaya, pesquisadora sênior do Carnegie Russia Eurasia Center, descreveu o plano original de 28 pontos como nada mais do que uma versão ampliada da proposta que a Rússia entregou ao enviado especial Steve Witkoff quando ele visitou Putin no Kremlin em abril — um plano que, naquela época, assim como agora, foi prontamente rejeitado pela Ucrânia e pela Europa.
“Do ponto de vista de Moscou, pouco mudou desde abril, além do fato de a situação da Ucrânia ter piorado”, disse ela. Quando Putin afirmou que o plano poderia servir de base para discussões, ficou claro que sua intenção era torná-lo ainda mais favorável à Rússia.
Afinal, como destacou Alexander Baunov, também da Carnegie, o simples fato de o plano de 28 pontos ter sido tornado público significa que a Rússia não pode aceitar algo pior. “Todos já leram os 28 pontos e devem entender que a orgulhosa Rússia não se curvará mais em público. Portanto, ou mais, ou pelo menos igual; ou melhor, ou nada”, afirmou.
Na verdade, nem mesmo esse plano era bom o suficiente, disse um acadêmico russo próximo a altos diplomatas russos, já que o Kremlin há muito insiste em desmantelar o governo de Zelenski e seu poderio militar.
“Eles não estão fazendo concessões. Vão simplesmente reconstruir suas forças, que serão abastecidas pelo setor de defesa europeu, e, quando tiverem recuperado a força, continuarão a guerra. Pelo menos é assim que muitos especialistas próximos à liderança russa veem a situação”, disse o acadêmico, referindo-se à Ucrânia.
Ao longo do último ano de iniciativas de paz, tanto os russos quanto os ucranianos se esforçaram para evitar parecer a Trump qualquer tipo de obstáculo à paz.
Trump demonstrou, por vezes, sinais de impaciência com Putin, que repetidamente ignorou seus apelos por um cessar-fogo ou uma suspensão dos combates nas atuais posições de batalha, e a Casa Branca impôs, no mês passado, sanções às duas maiores empresas petrolíferas da Rússia.
Mas grande parte da pressão dos EUA ao longo de 2025 recaiu sobre a Ucrânia, vítima da agressão russa, desde uma tensa reunião na Casa Branca em fevereiro, quando Trump disse a Zelenski que “você não tem as cartas na manga”, até o abandono dos apelos por um cessar-fogo após sua cúpula com Putin no Alasca, em agosto. Quando o último acordo de paz foi apresentado, veio acompanhado de ameaças de retirar todo o apoio .
“Para Putin, é importante não perder Trump”, disse o acadêmico. “E acredito que ele não gostaria que a Rússia fosse vista por Trump como o principal obstáculo à paz. Portanto, ele está disposto a demonstrar alguma flexibilidade. Mas em que escala e em que áreas, ainda não sabemos.”
A posição final de Putin provavelmente dependerá de sua visão sobre as “reservas de estabilidade” da Rússia sob o crescente peso das sanções, disse ele. “Se ele considerar que os problemas estão se acumulando e que o próximo ano será mais difícil, isso poderá ser um estímulo para adotar uma posição mais flexível”, afirmou.
O analista russo Vladimir Pastukhov, professor honorário do University College London, afirmou que, embora o plano de 28 pontos não tenha atingido os objetivos centrais da Rússia quando iniciou a guerra — derrubar os líderes da Ucrânia, reduzir seu exército a um contingente mínimo e neutralizá-lo —, ele ainda pode ser aceitável.
O aspecto importante do plano é como ele confere legitimidade a Putin, podendo levar à rendição da Ucrânia em relação a Donbas e legitimar a ideia de desmembramento da Ucrânia.
“Com esse plano, Trump legitimou as discussões em torno de muitos assuntos que eram tabu — a divisão da Ucrânia, a possibilidade de mudar o status quo pela força, e assim por diante. Esse é o objetivo do plano, não detalhes específicos.”/ W.POST




