Putin pressiona Tailândia para mandar banda de rock que o criticou de volta para a Rússia

Apoiadores do grupo temem que se músicos forem deportados para o território russo, eles poderiam enfrentar acusações criminais ligadas as suas declarações anteriores contra a guerra

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Por Mary Ilyushina

Membros de uma proeminente banda de rock russa autoexilada, que se opôs publicamente à invasão na Ucrânia, podem encarar a deportação da Tailândia de volta para Moscou.

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Apoiadores temem que os músicos da banda — chamada Bi-2 — possam ser perseguidos se voltarem à Rússia e que o caso deles poderia ser um alerta para artistas que criticam o presidente Vladimir Putin, mas que conseguem prosperar foram do país, apesar dos esforços do Kremlin para isolá-los de seus públicos.

Sete membros da Bi-2 foram detidos na Tailândia na semana passada, depois de um show na ilha Phuket, com autoridades citando problemas com permissões.

Em comunicado, a banda disse que sempre realizou shows “de acordo com as leis e práticas locais”, acrescentando que o organizador local do show preencheu incorretamente a papelada, um delito menor pelo qual cada um deles foi multado em cerca de US$ 84, pagos na hora.

Mas depois da audiência, os membros da banda foram detidos pela polícia de imigração tailandesa e levados para Bangkok, onde espera-se que as autoridades realizem sua deportação.

“Não nos foram apresentados a qualquer custo adicional”, disseram os representantes da manda em uma mensagem publicada no Vkontakte, uma versão russa do Facebook. “A situação e o ruído em volta sugerem que a pressão externa teve um papel significativo na nossa detenção. Nós sabemos que as razões para essa pressão são a nossa criatividade, nossas visões, nossa posição.”

O político de oposição Dmitri Gudkov, que tem estado em contato com a banda, disse que as autoridades russas têm pressionado seus homólogos tailandeses a deportar os músicos para a Rússia.

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“Com todas as violações processuais... fica claro que esse processo está sendo controlado por Moscou”, disse o jornalista e produtor musical Mikhail Kozyrev, em uma entrevista com o canal independente em idioma russo TV Rain. “Isso é uma represália tão demonstrativa para reprimir todos os artistas que escolhem não apoiar a guerra. A mensagem aqui é: ‘nós iremos encontrar você e pegar você, seja onde estiver’.”

Aleksandr "Shura" Uman, à esquerda, e Yegor "Lyova" Bortnik se apresentam durante o show da banda de rock Bi-2 em Moscou, em 2011.  Foto: AP/Pavel Golovkin, Arquivo

O cônsul-geral da Rússia em Phuket, Vladimir Sosnov, disse à agência estatal de notícias RIA Novosti que os oficiais consulares não foram envolvidos no processo de deportação.

De acordo com Sosnov, cinco dos sete membros da banda têm passaporte russo, enquanto outro entrou na Tailândia com passaporte israelense e outro com australiano. “Segundo as leis locais, a deportação é realizada em voo direto para o país onde o passaporte foi emitido”, acrescentou a agência.

Maria Zakharova, a porta-voz do Ministério de Negócios Estrangeiros da Rússia, disse que ela não está surpresa que artistas contrários à guerra estão enfrentando problemas enquanto viajam fora do país, e procurou estabelecer uma ligação com o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski.

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“Ninguém quer os problemas que podem surgir com pessoas que patrocinam o terrorismo”, ela disse ao Podyem. “Os ataques terroristas cometidos pelos carniçais de Zelenski horrorizam o mundo inteiro.”

Não há nenhum processo legal conhecido iniciado na Rússia contra os membros da Bi-2, então Moscou não tem base para solicitar a extradição deles. Mas os apoiadores da banda temem que se eles forem deportados para a Rússia, eles poderiam enfrentar acusações criminais ligadas as suas declarações anteriores contra a guerra.

Para a Tailândia, o caso é diplomaticamente complicado. Vários membros da banda são cidadãos russo-israelenses, o que permite a eles contestarem o país de destino caso sejam deportados. Dois outros membros da banda não são da Rússia, de acordo com o comunicado do grupo, e não podem ser deportados para lá.

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Bi-2, cujos fundadores são da Belarus, é uma das bandas de rock de idioma russo de maior sucesso desde o fim da União Soviética. Em 2022, seus membros se recusaram a se apresentar em uma avenida que estava enfeitada com um banner pró-Putin e pró-guerra. Seus shows na Rússia foram cancelados e a banda se exilou.

Membros da banda foram detidos enquanto tocavam em uma famosa ilha da Tailândia, devido à possível pressão russa contra artistas dissidentes.  Foto: Jack TAYLOR/AFP

“Não vou voltar para a Rússia”, escreveu o vocalista Yegor Bortnik, que usa o nome artístico Lyova, em um comentário em sua página do Instagram no ano passado. “A única coisa que a Rússia de Putin evoca neste momento é nojo.”

Os artistas que permaneceram na Rússia após a invasão de fevereiro de 2022 não tiveram outra escolha senão seguir a regra silenciosa de apoiar a guerra ou, pelo menos, não discuti-la. Aqueles que deixaram o país perderam contratos com gravadoras, estúdios e parte do seu público, mas tiveram a liberdade de continuar se manifestando contra a guerra. Muitos descobriram que os seus atos podem prosperar no estrangeiro mesmo sem locais russos ou encontraram novos públicos de russos com ideias semelhantes que também fugiram.

Mas recentemente, alguns shows foram banidos nos países que emergiram como locais de diáspora russa, aumentando o medo de que Moscou está pressionando governos para eliminar artistas dissidentes.

Antes das detenções da Bi-2, a Tailândia cancelou shows de dois artistas russos contrários à guerra, os comediantes Ruslan Beliy e Maxim Galkin, ambos rotulados como “agentes estrangeiros” pelo governo russo, uma designação usada para rotular muitos políticos da oposição, artistas, jornalistas e ativistas.

Galkin, que sempre critica as autoridades da Rússia e a guerra da Ucrânia em seus monólogos, foi recentemente negado de entrar na Indonésia, onde tinha um show marcado. “A razão foi dada quase imediatamente e repetida várias vezes por diferentes funcionários do serviço de fronteira — uma carta do governo russo pedindo para não me deixar entrar em Bali”, escreveu Galkin em sua página no Instagram.

Galkin e outros artistas falaram que as organizações em Dubai pediram aos artistas russos que moderassem qualquer retórica pró-ucraniana

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