Multidão pede pela queda do regime dos aiatolás em protesto no Irã
Centenas de manifestantes se reuniram na noite desta sexta-feira, 9, em Mashhad, nordeste do País. Crédito: @Mojahedineng via X
Se você está perdido sobre o que anda acontecendo no Irã, seus problemas acabaram. Você chegou ao lugar certo. Aqui embaixo, preparei o que de mais importante você precisa saber o assunto.
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Por que o Irã é importante?
O Irã é o lar de quase 90 milhões de habitantes, dono de uma das civilizações mais antigas da humanidade. É um dos maiores países do Oriente Médio e ocupa uma posição geográfica bastante privilegiada, controlando a margem norte do Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do consumo global de petróleo e derivados. Se Teerã tivesse sucesso em estrangular essa passagem, a sua vida ficaria mais cara já no dia seguinte.

Embora seja majoritariamente muçulmano, os iranianos não são árabes, mas persas. O Islã alcançou o Irã como uma conquista estrangeira no século 7. Os persas adotaram a religião dos conquistadores árabes, mas mantiveram a identidade.
A autoridade máxima do Irã é conhecida como Líder Supremo. Desde 1989, o Líder Supremo do Irã se chama Ali Khamenei.
No Irã, a figura do Líder Supremo é uma mistura de autoridade política e religiosa. Ali Khamenei é o chefe de Estado do Irã, e nesse papel exerce o controle total sobre as forças armadas do país, com capacidade de influenciar todas as grandes posições do governo – incluindo vetar decisões do parlamento e do presidente do Irã (nesse momento, Masoud Pezeshkian). Mas também é um aiatolá – um título de autoridade usado na hierarquia religiosa do islamismo xiita.
Se a maior parte do mundo cristão é dividido entre católicos e protestantes, o islamismo é dividido entre xiitas e sunitas. Essa divisão começou logo após a morte do profeta Maomé no século 7, por divergências sobre quem deveria liderar a comunidade muçulmana. Aqueles que apoiaram Ali, primo e genro do profeta, ficaram conhecidos como xiitas. Os que apoiaram Abacar, amigo de Maomé, viraram sunitas.
Até 90% dos muçulmanos no mundo são sunitas. O Irã é o país com a maior população xiita do mundo.
Como os aiatolás alcançaram o poder?
O cargo de Líder Supremo foi instituído no Irã em 1979, graças a um episódio central no Oriente Médio conhecido como Revolução Iraniana.
Antes da revolução, o Irã, sob o comando de Mohammad Reza Shah Pahlavi, era um país bem diferente.
Mohammad Reza era um monarca que detinha o título de xá. Xá vem do persa e significa “rei”. O xá era o governante absoluto do Irã. Ele detinha o controle total sobre o poder executivo, legislativo e judicial – o que significa que Mohammad Reza era o que nós chamamos de autocrata.
O xá era aliado dos Estados Unidos e muitos persas entendiam que a proximidade dele com Washington gerava uma influência estrangeira excessiva na vida política e econômica do país. Particularmente, as suas tentativas de modernizar o país, que ficaram conhecidas como Revolução Branca – que incluía a secularização da sociedade – foram encaradas como uma imposição dos valores ocidentais e uma ameaça às tradições islâmicas.
É nesse contexto que acontece a Revolução Iraniana. Em 1979, um antigo desafeto do xá – o aiatolá Ruhollah Khomeini – liderou um movimento popular que transformou o Irã de uma monarquia absolutista pró-Ocidente numa teocracia islâmica xiita veementemente anti-Ocidente.
Mais do que isso: Khomeini assumiu que um dos objetivos do Irã era tentar exportar a sua revolução para os seus vizinhos. É por isso que o Irã é hoje aliado do Hezbollah, no Líbano; dos houthis, no Iêmen; do Hamas, na Palestina, e de uma série de milícias xiitas no Iraque e na Síria. Todos esses grupos recebem financiamento, armamento e treinamento iraniano. Eles fazem parte de uma aliança autoproclamada Eixo da Resistência, que tem como adversários os Estados Unidos, a Europa, Israel, a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein.
As diferenças do Irã com os Estados Unidos, a Europa e Israel dispensam explicações. A rivalidade com a Arábia Saudita – e os seus aliados no Oriente Médio – acontece porque os dois países aspiram ser os líderes políticos e espirituais do mundo muçulmano. Mas o Irã, persa, é uma república islâmica xiita, e a Arábia Saudita, árabe, é uma monarquia sunita.
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Por que os iranianos estão protestando?
Nas últimas semanas, os iranianos foram às ruas protestar porque a vida no país vem ficando cada dia mais cara e a população perdeu a confiança no governo. No último semestre, o rial perdeu mais de 40% do valor e a inflação disparou para até 60%.
Inicialmente, os protestos se limitavam a comerciantes e estudantes em áreas urbanas, mas, à medida que foram crescendo, assumiram uma crítica mais ampla ao regime.
Nada disso surgiu de repente. Há anos, o Irã vive um ciclo de revoltas. Uma larga parcela da população não suporta o aiatolá, em parte pela demografia do país – 25% dos iranianos têm menos de 15 anos e outros 22% estão entre os 15 e os 29.
O Irã tem uma geração grande de jovens urbanos que cresceu mais conectada, escolarizada e exposta aos padrões de consumo e liberdade do que os seus pais. O problema é que nós estamos falando de milhões de pessoas entrando na vida adulta sem qualquer perspectiva, num país em decadência econômica, sofrendo diretamente as consequências das sanções ocidentais.
Teerã sempre responde essas manifestações da mesma forma: com prisões e violência, o que só aumenta o ódio e a desconfiança dos mais jovens. Quanto mais o regime reprime, mais as pessoas querem se livrar dele.
Segundo organizações de direitos humanos, em apenas 15 dias, as forças iranianas mataram quase 600 pessoas e detiveram mais de 10 mil. Os números divergem e as informações são escassas, muito porque o regime vem bloqueando a internet. Redes sociais como o Instagram e o X são proibidos no Irã, mas as pessoas apelam ao VPN. Agora, nem isso está funcionando. A Starlink parece ser a melhor opção de acesso nesse momento, mas para um grupo reduzido de pessoas.
Nos últimos dias, o procurador-geral do Irã alertou que qualquer iraniano que protestar contra o governo será considerado “inimigo de Deus”, crime punível com pena de morte no país. Ali Khamenei disse que o governo “não recuaria” e chamou os manifestantes de vândalos. O Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã declarou que “nenhuma clemência” será concedida aos “sabotadores”.
E agora?
Os protestos acontecem sob a sombra da guerra de 12 dias travada entre Irã e Israel em junho do ano passado. Teerã ainda tenta absorver o impacto do conflito e governa em estado de alerta. O aiatolá tem neurose de que uma nova escalada pode começar a qualquer momento.
Esse clima de ameaça externa pesa tanto quanto a agitação interna, porque o Irã entra em 2026 bem mais exposto do que estava há um ano: nesse período, o Hezbollah enfraqueceu, Bashar al-Assad deixou o poder na Síria, e a rede internacional que o regime demorou décadas para construir parece estar desmoronando.
É verdade que o Irã ainda tem instrumentos de influência no Oriente Médio, mas o custo de usar essas cartas aumentou – e a margem de erro ficou bem menor.
Para piorar, Teerã parece não estar mais conseguindo impedir que atores estrangeiros alimentem o descontentamento da população. Muitos iranianos acreditam que a ameaça dos protestos não reside no que eles podem alcançar por conta própria, mas no pretexto que podem atingir para provocar uma ação militar dos Estados Unidos contra o regime. Os paralelos mais óbvios são a Líbia e a Síria durante a Primavera Árabe, quando Washington e alguns governos europeus invocaram a responsabilidade de “proteger” os manifestantes para justificar a intervenção militar.
Após Trump insinuar uma possível ação para deter a repressão, as autoridades iranianas sinalizaram que estavam preparadas para o conflito, mas abertas à diplomacia. O exército israelense disse estar “preparado defensivamente” para qualquer ataque.
Nenhum membro do regime bota a mão no fogo de que Trump não terá coragem de liderar um ataque militar de precisão para matar Ali Khamenei, capturar petroleiros iranianos e, em seguida, exigir que o que restasse do regime cedesse às suas exigências. E a captura de Nicolás Maduro só fez esse medo aumentar.
É claro que o Irã não é a Venezuela. Maduro presidia um país costeiro, com um Estado oco e uma capital próxima do mar, exposta à maior Marinha do mundo. O Irã é uma potência continental, protegida por cadeias de montanhas, desertos e profundidade estratégica. Khamenei tem bem mais opções para se esconder, mesmo no alto de seus 86 anos.
Mas nada disso elimina o medo – e nem deveria. Dentro e fora do Irã, o aiatolá está cercado de ameaças e condenado a conviver com uma ordem mundial em rápida transformação.
Khamenei não tem muito tempo de vida. Mas se ninguém é capaz de prever o futuro, dá para desconfiar que nada será como antes.









