Por que o metaverso ‘flopou’ e a inteligência artificial vingou?

As duas principais propostas tecnológicas dos últimos anos parecem ter tomado rumos opostos recentemente

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Por Bruno Romani

Nos últimos dois anos, as principais palavras do mundo tecnológico foram “metaverso” e “inteligência artificial (IA)”. Ao tentar simbolizar uma nova era no desenvolvimento do mundo digital, ambas capturaram as expectativas do mercado e viraram assunto de mesa de bar. No entanto, os caminhos das duas propostas parecem ter tomado rumos opostos nos últimos meses, o que vem levantando interrogações entre entusiastas e especialistas. Apesar de investimentos e expectativas parecidas, por que o metaverso parece ter dado errado, enquanto a IA parece prosperar?

É importante dizer: a ideia de metaverso existe há vários anos, funcionando de forma nichada em diversas plataformas, como o Second Life, o Decentraland e o Roblox. Porém, o metaverso passou a experimentar um novo momento de empolgação a partir do momento em que Mark Zuckerberg decidiu investir na ideia.

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Em outubro de 2021, o fundador do Facebook renomeou sua empresa para Meta para refletir o novo foco de concentração do seu trabalho. Depois de vencer em três momentos importantes da história das conexões sociais, com Facebook, Instagram e WhatsApp, o executivo concluiu que a próxima onda seria o metaverso. Na proposta de Zuckerberg, o futuro reside na imersão em ambientes digitais tridimensionais, cujas interações têm reflexos no mundo real - para isso, a companhia imaginou um arsenal de dispositivos, que passam por realidade virtual (RV) e até holografia.

Apesar da apresentação altamente conceitual (e alguns indicadores questionáveis), muita gente comprou o discurso de Zuckerberg de que 1 bilhão de pessoas estariam no metaverso. A consultoria Gartner estimou que 25% das pessoas passariam ao menos 1 hora por dia no metaverso até 2026. Já a McKinsey previa que o segmento poderia gerar US$ 5 trilhões nos próximos 10 anos. Empresas, gigantes e pequenas, passaram a investir na promessa.

A alegria durou pouco: quando a crise econômica bateu à porta do mundo tecnológico em 2022, o metaverso estava no topo da lista de cortes, refletindo a baixa adesão pelos usuários. Em fevereiro deste ano, ao demitir 10 mil pessoas, a Microsoft eliminou duas divisões (Altspace VR e MRTK) que desenvolviam projetos de metaverso. Em março, foi a vez de a Disney fechar sua divisão de metaverso, após demitir 7 mil pessoas.

Metaverso empolgou no começo, mas foi atropelado pela onda de IA  Foto: Tyrone Siu/Reuters

Já os projetos do Google que indicavam equipamentos com potencial para uso para metaverso, como os novos óculos de realidade aumentada (RA) e o projeto Starline, sumiram.

Por fim, a própria Meta sinalizou que o clima havia mudado. Segundo o Wall Street Journal, metade dos usuários dos óculos Quest, comercializados pela gigante, abandonam o aparelho com apenas seis meses de uso.

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Na carta de março, na qual justificava a nova rodada de 10 mil demissões da companhia, Zuckerberg disse que entrou na era da “eficiência”. E embora tenha dito que o metaverso permanecia central para o “futuro das conexões sociais”, ele revelou que se rendeu à febre da IA. “Nosso maior investimento será avançar a IA e incorporá-la em cada um de nossos produtos”, disse.

Resultados da IA são vistos na prática

As afirmações de Zuckerberg já eram uma resposta a um fenômeno iniciado meses antes. Sem fanfarra, o ChatGPT foi disponibilizado publicamente em novembro do ano passado e imediatamente gerou curiosidade. Em janeiro, ele atingiu 100 milhões de usuários mensais ativos no mundo, o que fez dele até aquele momento o produto tecnológico com adoção mais rápida da história (depois, ele foi destronado pelo Threads, também da Meta).

O chatbot jogou luz sobre a categoria da IA generativa e reajustou de maneira importante a rota do mercado. Algumas das mesmas consultorias que pareciam eufóricas com o metaverso passaram a prever números gigantes para a IA. A McKinsey estima que tecnologias como a do ChatGPT podem acrescentar US$ 4,4 trilhões ao PIB global.

Na visão de Zuckerberg, o metaverso misturava realidade virtual, realidade aumentada e até holografia  Foto: Meta/Reprodução

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A empolgação com o novo segmento se refletiu no mercado de capitais dos EUA. A alta de 20% nos três principais índices do país é atribuída parcialmente à movimentação causada pela IA, o que inclui ações de gigantes como Google, Microsoft e Nvidia. Até a Meta se beneficiou: as ações voltaram a se valorizar, retomando ao patamar de janeiro de 2022, antes de toda a crise do setor de tecnologia.

“A inteligência artificial tem aplicações visíveis no dia a dia das pessoas e das empresas. O entendimento é rápido e o retorno econômico é palpável”, afirma Anderson Soares, coordenador do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás. “A IA permite fazer automações em diversas atividades”, diz.

A inteligência artificial tem aplicações visíveis no dia a dia das pessoas e das empresas. O entendimento é rápido e o retorno econômico é palpável

Anderson Soares, coordenador do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás

São elementos difíceis de encontrar na proposta de metaverso de Zuckerberg. Carlos Affonso Souza, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS-Rio), acredita que o metaverso ainda pode vingar, mas vê uma diferença importante entre os dois caminhos tecnológicos.

“A Meta não lançou um produto, como o ChatGPT. O metaverso é um processo para uma nova onda tecnológica que, um dia, entregará produtos. Mas o mercado, que ficou viciado em lançamento de celular, espera que cada evento de uma empresa de tecnologia esteja relacionado a produto”, afirma.

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O ChatGPT tornou utilidade da IA palpável para um grande número de pessoas  Foto: @emilianovittoriosi/unsplash

Barreira de acesso

De fato, embora a Meta tenha tornado pública uma aposta de longo prazo, a proposta da companhia indicava a necessidade de uso de óculos de RV, o que vem se provando uma barreira de uso bastante importante.

“Para construir IA generativa, é necessário uma infraestrutura colossal em termos financeiros, enquanto construir mundos no metaverso é algo bem mais simples. Já no uso das tecnologias, os papéis se invertem. Para a IA, a barreira é uma simples conexão de internet, enquanto o metaverso exige um hardware altamente complexo, como os óculos”, argumenta Soares.

Última esperança do metaverso de decolar, o Apple Vision Pro, que só chega às lojas em 2024, dá uma ideia do que é necessário para equipamentos do tipo: 12 câmeras, 5 sensores, 6 microfones, painel de microOled com 23 milhões de pixels e dois processadores. Claro, o preço estará nas alturas: US$ 3,5 mil - embora equipamentos rivais sejam mais simples, todos envolvem uma quantidade enorme de componentes a um custo bastante alto.

Por enquanto, os gadgets são um enorme gargalo. Eles nem são vendidos em grande parte do mundo. Fica parecendo que é uma inovação para poucos

Carlos Affonso Souza, professor da UERJ e diretor do ITS-Rio

“Por enquanto, os gadgets são um enorme gargalo. Eles nem são vendidos em grande parte do mundo. Fica parecendo que é uma inovação para poucos”, diz Souza. “Além disso, os óculos são desconfortáveis, grandes e antinaturais. Todos esses fatores de conforto nunca foram estudados. Não sabemos nem se existem variantes culturais em relação a tolerância a esses equipamentos”, completa.

Pelo visto, o mercado e os usuários perceberam isso também. “Não tem hype que dure cinco anos”, crava Souza.

Colaboração entre tecnologias

Ainda que a IA pareça ter atropelado o metaverso, poucos especialistas decretam a sua morte. Ao contrário, uma tendência poderá impulsionar a outra no futuro.

“É difícil dizer quando o metaverso voltado para pessoas comuns vai acontecer - talvez não seja na velocidade que o Zuckerberg previu”, diz Raul Colcher, membro do Instituto dos Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE) e presidente executivo da Questera Consulting. “Metaverso e IA vão dialogar, como em situações de objetos reais simulados de forma digital (algo conhecido como gêmeo digital). Vão existir sinergias e um campo vai puxar o outro”, diz.

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Souza concorda e lembra que a computação quântica, algo ainda longe de sair dos laboratórios de pesquisa, é o terceiro elemento no quebra-cabeça para um futuro ultra-tecnológico.

Assim, embora a IA pareça vencedora no momento, pode ser cedo demais para que os algoritmos sejam celebrados sobre as ruínas dos universos digitais.

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