Golpe do Pix: seu pai perdeu R$ 15 mil, e ela criou empresa que promete proteger contra isso

Silverguard tem atendimento grátis no WhatsApp para quem sofreu golpe, e desenvolve aplicativo de proteção digital; normalmente, serviços assim são para empresas, mas este é para consumidor final

Foto do author João Scheller
Por João Scheller
Atualização:

Márcia Netto diz que sempre buscou encontrar propósito nos negócios que comandou - e unir a tecnologia a eles. A Silverguard, que acaba de fundar, é um exemplo. Ela buscava empreender em um negócio voltado para o público mais velho, mas ainda estava decidindo em qual área atuar.

PUBLICIDADE

Ao descobrir que o próprio pai caiu no chamado golpe do PIX, perdendo cerca de R$ 15mil, percebeu que uma solução na área de segurança digital seria uma boa opção.

A Silverguard opera atualmente com um chatbot voltado para a ajuda dos usuários que acabaram de sofrer algum tipo de golpe digital. A interação ocorre por meio de um telefone de WhatsApp verificado e opera de forma gratuita desde meados de maio, somando mais de 10 mil denúncias computadas.

A empresa se prepara para lançar seu principal produto: uma assinatura de segurança digital (com preço ainda a ser definido) que irá unir ferramentas de prevenção a golpes virtuais, proteção de dados e outras funções voltadas para segurança digital para todos os tipos de público.

O serviço deve contar ainda com uma opção de seguro voltado especialmente para golpes digitais, além de proteção de apps e senhas de pânico, que podem ser ativadas em caso de assalto (mais detalhes abaixo).

Márcia Netto, CEO e co-fundadora da Silverguard. Empresa conta com chatbot que auxilia pessoas que sofreram golpes e também desenvolve app voltado para segurança digital Foto: Silverguard/Divulgação

Criadora tem carreira digital e já fez portal sobre saúde

Márcia Netto sempre focou sua carreira em oportunidades no mundo digital. Logo depois de uma experiência na editora Abril, criou um portal com notícias e dicas de saúde, vendido para o conglomerado francês de mídia Webedia em 2017. O braço de aplicativos para saúde foi vendido para a Raia Drogasil alguns anos depois.

“Sempre fiquei muito incomodada com empresa muito grande, demorada. E eu, no digital, com tudo mais ágil”, afirma. Ela cita as técnicas de escrita para a internet ainda pouco utilizadas naquela época, que ajudaram a nova empresa a crescer.

Publicidade

Ela ainda teve uma passagem como diretora de marketing no marketplace Elo7, antes de ingressar na Sallve, uma beautytech (empresa voltada para soluções no mercado de beleza, utilizando a tecnologia) onde ficou por quatro anos.

“Eu tinha que achar um propósito grande. Sempre achei nesses lugares um propósito. Acredito que, se você vai empreender só para ficar rico, não vai dar certo”, diz. Na sequência, decidiu estudar o mercado e procurar uma nova oportunidade para empreender.

Junto da sócia Layla Vallias, passou a olhar com mais carinho para a chamada economia prateada - produtos e serviços voltados ao público idoso. Durante esse processo, o pai de Márcia caiu em um golpe de Pix, o que ascendeu nela a possibilidade de investir em algo relacionado à segurança digital.

Na ocasião, os golpistas se passaram por ela, usando informações relacionadas ao dia a dia dos dois, o que tornou o processo ainda mais difícil de ser percebido. Seu pai perdeu cerca de R$ 15 mil com o processo, dinheiro que não foi recuperado.

Fintech voltada para proteção de dados

PUBLICIDADE

Apesar de inicialmente se voltar para o público mais velho, a Silverguard foi pensada para o público geral, sem distinção de idade.

Foram definidas duas frentes de atuação. Uma delas, já disponível para o público, é o SOS Golpe, que opera desde maio deste ano. A ferramenta oferece atendimento gratuito para quem acabou de sofrer um golpe, incluindo um protocolo próprio que inclui as ações prioritárias a serem feitas.

A segunda, por meio do aplicativo, que ainda está em desenvolvimento, dá ao usuário acesso a diferente soluções de segurança digital. Alguns dos recursos serão alertas sobre a descoberta de novos golpes, identificação automática de mensagens de números de WhatsApp já classificados como golpistas, assistência e seguro.

Publicidade

Parte das funcionalidades será paga com assinatura mensal da Silverguard - ainda sem preço definido. Márcia Netto é CEO da empresa, enquanto Layla Vallias é CMO (diretora de marketing).

Especialista diz que faltam opções de proteção contra golpes digitais

“O cidadão comum ainda não está acostumado com essa conversa sobre segurança digital. Um dos grandes problemas é a educação sobre o tema”, afirma o coordenador do MBA em Cibersegurança da Fundação Getulio Vargas (FGV), Álvaro Massad.

Para ele, as opções de softwares de segurança se concentram no mundo corporativo, em especial em soluções para grandes empresas, o que faz com que programas voltados para o atendimento de usuários comuns tenham espaço no mercado.

“Existem várias ferramentas voltadas para educação no mercado - de bancos, entidades e universidades - mas não como produto e serviço”, afirma Massad.

Para ele, a alternativa, integrada com uma opção de assinatura, pode ser uma boa opção, especialmente considerando que o avanço de golpes e softwares maliciosos só tende a aumentar.

Ferramentas incluem ‘modo rua’ e ‘senha de pânico’

Entres as ferramentas que devem ser anunciadas pela Silverguard, estão funcionalidades de proteção que se integram aos aplicativos de banco para aumentar as camadas de segurança que eles já disponibilizam.

Isso inclui o chamado “modo rua”, já disponível em apps de bancos digitais como Nubank e C6, que permite que o usuário limite algumas funcionalidades dos apps quando não estiver em casa.

Publicidade

Outros recursos incluem a configuração de uma segunda senha para acessar apps de bancos e a configuração de uma “senha de pânico”. Esta poderia ser utilizada caso os criminosos forçassem o usuário a logar em um app bancário e faria com que o ele fosse encaminhado para uma tela de carregamento infinita.

A ação dá a impressão para os criminosos de dificuldade de conexão, ao mesmo tempo que emite um alerta para as instituições financeiras, avisando que usuário está em uma situação de possível risco e pedindo para que possíveis transações não sejam completadas.

“No final, mais do que um app ou serviço de atendimento, estamos criando um ecossistema de tecnologia, lidando com um sistema de segurança pública”, afirma Netto.

O app da Silverguard deve ficar disponível no primeiro trimestre de 2024, com algumas das funcionalidades já disponíveis. A empresa ainda planeja o lançamento de um plano família, para a proteção de mais aparelhos dentro de uma mesma assinatura, além de um seguro que cubra eventuais golpes envolvendo os apps de banco.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.