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Tucanos, nota de FHC e artistas reforçam movimento por voto útil em Lula a 10 dias do 1º turno

Campanha do petista tenta encorpar frente ampla contra o presidente Jair Bolsonaro

Foto do author Beatriz Bulla
Foto do author Pedro  Venceslau
Por Beatriz Bulla e Pedro Venceslau
Atualização:

Uma nota divulgada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), com defesa do voto “pró-democracia” nestas eleições e sem menção à candidata apoiada pelo partido, Simone Tebet (MDB), reforçou o movimento de endosso ao voto útil no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a dez dias do primeiro turno. A campanha de Lula vinha tentando atrair o apoio do tucano para encorpar uma frente ampla contra o presidente Jair Bolsonaro, mas FHC optou por não mencionar nomes em sua nota pública.

De maneira velada, FHC estimula o voto contra Bolsonaro, candidato à reeleição pelo PL, ao pedir que os eleitores escolham quem “defende direitos iguais para todos independentemente da raça, gênero e orientação sexual, se orgulha da diversidade cultural da nação brasileira, valoriza a educação e a ciência e está empenhado na preservação de nosso patrimônio ambiental”. Os temas fazem parte da campanha de adversários de Bolsonaro e não são encampados pela base de apoio bolsonarista.

O ex-presidente Lula e o presidente Jair Bolsonaro; petista lidera as pesquisas de intenção de voto Foto: Evaristo Sá/AFP

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Após a manifestação de FHC, os embaixadores e ex-ministros Sérgio Amaral e Rubens Ricupero, dois nomes ligados ao ex-presidente tucano, se manifestaram publicamente a favor de Lula. “Todos aqueles que comungam das ideias do PSDB encontram no Lula uma pessoa que tem algumas ideias semelhantes. O PSDB historicamente é a social democracia e teve uma trajetória comum (à do PT) no combate à ditadura, disse ao Estadão o ex-embaixador Sérgio Amaral, que foi porta-voz da presidência no governo de Fernando Henrique Cardoso. “É importante que Lula ganhe no primeiro turno, tendo em vista o cenário eleitoral”, afirma o diplomata.

Também nesta quinta-feira, a deputada federal Tabata Amaral (PSB), que apoiou Ciro Gomes (PDT) em 2018, pediu voto em Lula no primeiro turno para evitar um segundo turno “questionado” e “tumultuado”, como “bolsonarismo quer”. “Um dos principais argumentos que eu usei para pedir votos no Ciro em 2018 foi o argumento de que sua candidatura era a única que tinha chances reais de derrotar Bolsonaro. Hoje, uso o mesmo argumento para pedir que vocês votem em Lula e Alckmin”, afirmou Tabata.

Na campanha de Lula, a manifestação do tucano foi lida como um gesto de apoio ao petista, ainda que sem indicação de nomes em respeito ao fato de o PSDB ter oficialmente uma candidata. “Ele coloca alguns princípios que orientam e, para bom entendedor, meia palavra basta”, afirmou o coordenador do programa de governo de Lula, Aloizio Mercadante. “Respeitamos totalmente a posição dele (FHC). Ele merece respeito do Brasil, da democracia e de todas as forças políticas democráticas”, afirmou Mercadante.

Questionado sobre o assunto no final de um evento em São Paulo, Lula disse não ter conhecimento e comentou de forma genérica que “todo apoio que vier para a gente levar essa eleição logo eu acho que é melhor para todo o mundo”. “Eu agradeço as pessoas que estão demonstrando confiança agora”, afirmou Lula.

Marina Silva e Henrique Meirelles também apoiam Lula

O movimento pró-voto em Lula contra Bolsonaro, já no primeiro turno, ganhou fôlego nesta reta final da campanha eleitoral. A ex-ministra Marina Silva (Rede) aderiu à campanha do petista, após anos afastada do antigo aliado, há dez dias. Depois, Lula reuniu oito ex-candidatos à presidência, incluindo Marina, em ato por sua candidatura, o que incluiu o ex-ministro Henrique Meirelles (União Brasil). A presença de Meirelles, que integrou os governos Lula e Temer, foi bem recebida pelo mercado financeiro e pelo empresariado.

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Quadros históricos ligados ao PSDB aderiram à mobilização, além de artistas que antes se diziam apoiadores de Ciro Gomes, como Caetano Veloso e Tico Santa Cruz.

Vice de Lula na chapa presidencial e ex-tucano, o ex-governador Geraldo Alckmin (PSB), tem sido um dos canais de aproximação entre nomes do PSDB e a campanha petista. Quando a aliança dos dois foi oficializada, em maio, Alckmin disse que a união era “um chamado à razão” e chamou “as demais forças políticas” a se juntarem ao projeto com o petista. “Venham se juntar a nós. As próximas eleições guardam peculiaridade: será um grande teste para nossa democracia. Sem Lula não haverá alternância de poder e sem alternância de poder não haverá garantias para nossa democracia”, afirmou o ex-tucano e candidato a vice, em maio.

Desde então, a campanha Lula-Alckmin trabalha para aglutinar uma frente ampla de apoio à chapa com o argumento de que antigos opositores devem se unir para vencer Bolsonaro. As investidas de Bolsonaro contra o sistema eleitoral, como a reunião com diplomatas estrangeiros no Palácio do Planalto, deram mais argumentos à oposição para estimular o voto útil no primeiro turno e evitar o risco de que o presidente estimule um tumulto na iminência de derrota.

Ciro e Simone, principais atingidos pela movimentação de personalidades a favor de Lula, têm reagido e atacado a estratégia da campanha petista. Após a nota de FHC, o PSDB também reagiu. Nas redes sociais, o partido reafirmou o apoio à candidatura de Tebet. “O PSDB tem candidata e vai lutar até o final para elegê-la: Simone Tebet, e a nossa senadora Mara Gabrilli. Representam o melhor caminho para o Brasil. Primeiro turno é para votar no melhor. Útil é votar em quem a gente confia”, diz publicação do partido nas redes sociais.

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Como publicado pelo Estadão, a mobilização pelo voto em Lula divide a ala dos cabeças-branca do PSDB, quadros históricos do partido que apoiam o petista, e os mais jovens.

Para Sérgio Amaral, votar em Lula significa votar em uma frente democrática e o governo do petista, portanto, deverá compreender ideias de toda essa frente. “Simone teve um desempenho muito bom na comissão sobre a pandemia e no debate presidencial, mas está se preparando para um lugar que ainda vai exercer, mas não neste momento”, afirma Amaral.

Ex-embaixador do País em Paris, Londres e, no seu último posto, em Washington, Amaral tem ligação de longa data com os tucanos. O diplomata disse ter avisado a Aloysio Nunes e a Alckmin que pensava em declarar publicamente seu voto, o que aconteceu nesta quinta-feira. “Bolsonaro prejudicou o País e não está capacitado a exercer a presidência. Onde quer que ele foi, resultou em vexame internacional”, diz Amaral.

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O diplomata anunciou o voto ao mesmo tempo que o ex-ministro da Fazenda de Itamar Franco, o advogado Rubens Ricupero, 85. “Eu vou votar na chapa Lula-Alckmin não como apoio a um partido, mas a uma aliança democrática. Não se trata de primeira ou de terceira via, mas de democracia contra autoritarismo”, afirma Ricupero. Sucessor de FHC no Ministério da Fazenda na época de implementação do Plano Real, Ricupero é amigo do tucano e ligado à Rede Sustentabilidade, de Marina Silva.

Os dois se juntam ao movimento de outros tucanos e nomes ligados a FHC que declararam voto em Lula nesta eleição. Um dia antes, Miguel Reale Júnior, ex-ministro da Justiça de FHC e um dos autores do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), gravou um vídeo em que pede voto no petista “para que o País não viva sobressaltos”. O jurista também defende que com Lula não haverá mais “ameaça de golpe”.

Aloysio Nunes foi o primeiro da velha guarda do PSDB a anunciar seu apoio ao petista, em maio, quando o PSDB ainda contava com a possibilidade de ter candidato próprio à disputa neste ano. Nos últimos dias, Aloysio passou a usar suas redes sociais para estimular a mobilização pró-Lula. Ele fez publicação com críticas a Simone e em defesa de Lula e divulgou em seu perfil no Twitter vídeo no qual o cientista político americano Steven Levitsky defende que “a melhor maneira de evitar uma crise é uma vitória massiva da oposição a Bolsonaro no primeiro turno”.

Os ex-ministros José Gregori e José Carlos Dias e o diretor geral da Fundação FHC, Sergio Fausto, também estão entre os que anunciaram apoio a Lula e a Alckmin na reta final da campanha. O ex-tucano Luiz Carlos Bresser-Pereira, um dos fundadores do PSDB e também ex-ministro dos governos FHC, se juntou ao coro. Em sua conta no twitter, o economista escreveu: “a vitória de Lula no primeiro turno é importante porque diminuirá ainda mais as possibilidades de uma tentativa de golpe”.

A campanha de Lula chegou a procurar o ex-governador José Serra, mas ouviu do tucano que ele irá se manter ao lado de Simone, candidata apoiada pelo PSDB. Em caso de segundo turno, no entanto, o PT conta com o endosso de Serra e acredita que a própria Simone Tebet se juntará a Lula. Os petistas trabalham para conseguir a declaração de voto de personalidades da vida política como o ex-ministro Gilberto Kassab (PSD).

A campanha do ex-presidente aposta em quatro frentes para atrair o eleitor indeciso nos últimos dias antes do primeiro turno: ampliação da frente ampla pró-Lula, mobilizações de rua no sudeste, apoio expressivo de artistas e entrevistas para fora da bolha petista, que incluem as concedidas ao Canal Rural e ao Programa do Ratinho (SBT) nesta semana.