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Quem é quem no escândalo das joias envolvendo Bolsonaro e Michelle

Entenda qual era a função e o papel dos personagens que atuaram para que diamantes avaliados em R$ 16,5 milhões chegassem ao ex-presidente antes de viagem aos EUA

Por Ana Luiza Antunes
Atualização:

ESPECIAL PARA O ESTADÃO - O governo Bolsonaro tentou entrar no Brasil com presentes milionários do governo da Arábia Saudita avaliados em R$ 16,5 milhões. As joias foram entregues ao ex-ministro de Minas e Energia Bento Albuquerque em outubro de 2021, após viagem ao Oriente Médio. Um dos pacotes estava com Marcos André Soeiro, então assessor do ministro. O caso foi revelado pelo Estadão.

A partir deste momento, diferentes figuras e autoridades do governo Bolsonaro realizaram tentativas para que a Receita Federal liberasse as joias antes da posse de Luiz Inácio Lula da Silva. Entenda como se deu a atuação de cada um no caso e como a mobilização foi feita para que Jair Bolsonaro tivesse acesso aos diamantes antes de embarcar para os Estados Unidos, onde está desde o fim do ano passado.

Joias de R$ 16,5 milhões seriam entregues para Michelle Bolsonaro, mas foram apreendidas pela Receita Federal pela tentativa de entrada ilegal no País. Foto: DIV e Wilton Junior/Estadão

O ex-presidente Jair Bolsonaro ainda recebeu pessoalmente um segundo pacote de joias da Arábia Saudita que chegou ao Brasil pelas mãos da comitiva do então ministro de Minas e Energia (MME), Bento Albuquerque. No estojo estavam relógio com pulseira em couro, par de abotoaduras, caneta rosa gold, anel e um masbaha (uma espécie de rosário islâmico) rose gold, todos da marca suíça Chopard. O site da loja vende peças similares que juntam somam, no mínimo, R$ 400 mil.

Bento Albuquerque

É almirante de esquadra da Marinha, atuava como ministro de Minas e Energia do governo Bolsonaro e representou o Brasil em reunião de cúpula na Arábia Saudita em outubro de 2021. Ao retornar ao País, no mesmo mês, Albuquerque e sua comitiva tentaram passar pela alfândega do aeroporto de Guarulhos com joias entregues pelo governo saudita. Uma caixa com um colar, relógio e outros itens de diamantes avaliados em R$ 16,5 milhões estava com o seu assessor e foi apreendida pela Receita Federal. O ex-ministro, ao saber do ocorrido, tentou usar o cargo para convencer os auditores da Receita a liberar o suposto presente para Michelle Bolsonaro. Albuquerque alega que não tinha conhecimento do conteúdo que estava na caixa.

Pivô do caso das joias, Bento Albuquerque recebeu os presentes do governo da Arábia Saudita e trouxe ao Brasil Foto: Adriano Machado/Reuters

Marcos André Soeiro

Ex-assessor de Bento Albuquerque, é tenente da Marinha. As joias enviadas pelo governo da Arábia Saudita estavam com Soeiro no desembarque no aeroporto de Guarulhos, junto com a comitiva do ex-ministro.

Jairo Moreira da Silva

Primeiro-sargento da Marinha, era o servidor da Ajudância de Ordens do Presidente da República. A mando do tenente-coronel Mauro Cid, ajudante de ordens de Bolsonaro, foi enviado ao aeroporto de Guarulhos, por meio de um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para retirar as joias retidas na Receita Federal no dia 29 de dezembro de 2022. Conforme revelou o Estadão, a viagem de Silva tinha como objetivo “atender a demandas do Senhor Presidente da República naquela cidade”.

Tenente-coronel Mauro Cid

Braço direito e homem de confiança do ex-presidente Bolsonaro, era chefe da Ajudância de Ordens do Presidente da República. Mauro Cid enviou uma solicitação à FAB para que Jairo Moreira da Silva viajasse até Guarulhos para tentar retirar as joias do aeroporto. Além disso, ficou responsável por adiantar o cadastro das joias que ainda estavam retidas nos cofres da Receita, e teve apoio de Cleiton Henrique Holzschuk, segundo-tenente do Exército. Holzschuk enviou ofício do departamento para pedir a liberação das joias para o presidente Bolsonaro.

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Braço direito e "faz-tudo" de Bolsonaro, Mauro Cid solicitou avião da FAB para que Jairo Moreira da Silva viajasse até Guarulhos e retirasse joias apreendidas na Receita Federal Foto: Dida Sampaio/Estadão

Marcelo da Silva Vieira

Ex-chefe adjunto de Documentação Histórica do gabinete pessoal do presidente da República. Foi responsável por enviar ofício para o então chefe de gabinete do ministro de Minas e Energia, José Roberto Bueno Júnior, dizendo que que o encaminhamento das joias seria feito e que a análise seria para a incorporação ao “acervo privado do Presidente da República ou ao acervo público da Presidência da República”.

José Roberto Bueno Júnior

Ex-chefe de gabinete do ministro de Minas e Energia, é contra-almirante da Marinha. O gabinete pressionou a Receita Federal em mais uma tentativa para entregar as joias a Bolsonaro. Foi responsável por assinar ofícios da pasta tentando liberar as joias apreendidas em Guarulhos.

Julio Cesar Viera Gomes

Ex-oficial da Marinha do Brasil, atuava como secretário da Receita Federal, tendo sido nomeado dois meses após a tentativa do governo Bolsonaro em entrar com as joias no País. Gomes era ex-conselheiro do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e tinha sido membro da Delegacia de Julgamento (DRJ) da Receita. Tinha proximidade com a família Bolsonaro.

Ex-secretário da Receita Federal Júlio Cesar Vieira Gomes em cerimônia com o ex-presidente Jair Bolsonaro Foto: Edu Andrade/Receita Federal

O então secretário telefonou para o enviado de Bolsonaro, o sargento da Marinha Jairo Moreira da Silva, e pediu para falar com o auditor da Receita Federal Marco Antônio Lopes Santanna. O auditor negou e disse que não poderia liberar as joias sem o pagamento do imposto ou a declaração dos itens como patrimônio da União.

Adolfo Sachsida

Novo ministro de Minas e Energia após saída de Bento Albuquerque do posto, em maio de 2022. O caso foi retomado em novembro de 2022, após derrota de Bolsonaro nas eleições daquele ano. O envio ao Palácio da Alvorada do segundo estojo de joias com relógio com pulseira em couro, par de abotoaduras, caneta rosa gold, anel e um masbaha (uma espécie de rosário islâmico) já seria feito por determinação do novo ministro.

Adolfo Sachsida, assumiu como ministro de Minas e Energia após saída de Bento Albuquerque. O pedido para envio das joias já seria feito por determinação do novo mandatário. Foto: Dida Sampaio/Estadão.

Rodrigo Carlos do Santos

Responsável por assinar o recibo indicando que Bolsonaro recebeu o segundo estojo com as joias em mãos. O papel da Documentação Histórica do Palácio do Planalto traz um item no qual questiona se o presente foi visualizado por Bolsonaro. A resposta: “sim”.

João José Tafner

Teve sua exoneração do cargo de corregedor da Receita publicada na última quinta-feira, 9. Ele havia apresentado seu pedido de demissão após ameaça de saída coletiva de servidores da Corregedoria. Indicado ao posto pela família Bolsonaro, Tafner declarou que sofreu pressão para não apurar denúncias envolvendo informações sigilosas de desafetos do ex-presidente. O mandato do agora ex-corregedor terminaria apenas em fevereiro de 2025..

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João José Tafner (centro) com Eduardo Bolsonaro e Marcus Dantas, em evento de apoio a Bolsonaro em 2018; Tafner foi nomeado corregedor da Receita Federal e exonerado na semana passada Foto: Reprodução/Instagram

Frederick Wassef

Advogado de Bolsonaro afirmou que o ex-chefe de Estado está “agindo dentro da lei, declarou oficialmente, os bens de caráter personalíssimo recebidos em viagens, não existindo qualquer irregularidade em suas condutas”.

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