PUBLICIDADE

Neil deGrasse Tyson: ‘Neurocientistas substituirão psicólogos como químicos fizeram com alquimistas’

Em novo livro, astrofísico e apresentador propõe uma análise distanciada e científica sobre os grandes dilemas contemporâneos, de racismo e homofobia a guerra e religião

Por André Cáceres
Atualização:
Foto: Chris Cassidy/Divulgação
Entrevista com Neil DeGrasse TysonAstrofísico, escritor e apresentador

O que um alienígena pensaria ao se deparar com os problemas da humanidade? É difícil imaginar a reação desse ser ao ver as pessoas se dividindo pelo gênero, pela cor de pele, pelo que comem, pelas divindades que adoram, pelas pessoas com quem dormem, pelo lado da fronteira em que vivem.

Essa, no entanto, é a premissa que norteia Mensageiro das estrelas: Perspectivas cósmicas sobre a civilização (Record), novo livro de Neil DeGrasse Tyson, astrofísico de formação que ganhou notoriedade como divulgador científico, escritor e apresentador de televisão.

Na obra, Tyson discute temas espinhosos como racismo, misoginia, homofobia, vegetarianismo, guerra, religião e polarização ideológica, mas sempre partindo do que ele chama de “perspectiva cósmica”. Ou seja, tentando se colocar na pele de um observador externo — o tal extraterrestre destituído de preconceitos que usa apenas fatos científicos para raciocinar sobre esses dilemas humanos.

“Muito do que nós pensamos e somos ensinados a valorizar vem da forma como nos distinguimos de outras pessoas. Nós somos isso, mas eles são aquilo. O que quer que aquilo seja, é diferente de nós. Nosso ego tende a nos forçar a nos sentirmos bem com o que somos em detrimento do que outras pessoas são. Essas são forças tribais”, afirma DeGrasse em entrevista por videoconferência ao Estadão.

A palavra-chave de Mensageiro das Estrelas é perspectiva. Para o astrofísico, do ponto de vista do espaço, os grandes dilemas humanos soam como rixas mesquinhas. Ele chega a defender que a fotografia Nascer da Terra, clicada em 1968 pelo astronauta William Anders durante a missão Apollo 8, alterou tanto o senso de perspectiva das pessoas que influenciou o surgimento de várias iniciativas pelo mundo, de legislações ambientais até o Médicos Sem Fronteiras.

“Com apenas uma ou duas estruturas construídas por humanos visíveis da órbita da Terra, tudo mais que nos divide — fronteiras, política, línguas, cor da pele, crenças religiosas — fica invisível aos nossos olhos”, diz o livro.

Publicidade

A tripulação da Apollo 8 foram os primeiros humanos a testemunhar a Terra se elevando ao longo do horizonte da Lua Foto: NASA

Um dos conceitos mais relevantes da obra é a ideia de que, em qualquer tema, não existe uma separação clara entre as pessoas, mas sim uma infinidade de nuances em uma escala gradual, do mais rico ao mais pobre, do mais hétero ao mais homossexual, do mais branco ao mais negro, do mais conservador ao mais progressista.

Para exemplificar essa ideia em termos de cor de pele, DeGrasse propõe um experimento mental interessante: “Nos EUA, Obama foi o primeiro presidente americano negro. Agora, imagine Obama como o líder de um país africano. Se invocarmos o raciocínio simétrico, a população desse país poderia justificadamente vê-lo como seu primeiro presidente branco.”

Seu argumento é que as linhas que nos dividem deveriam nos unir, uma vez que somos muito mais semelhantes do que diferentes entre si. “Religião, com quem você dorme, o que você come… quando você percebe que todos esses atributos sobre você estão espalhados por uma escala gradual, como você pode criar inimigos?”, diz DeGrasse em entrevista.

Imagine como o mundo poderia ser diferente. Isso não é ensinado na escola e nem em casa. E isso me entristece, pois poderíamos ser melhores como espécie e na forma como cooperamos.

Neil deGrasse Tyson

Fica evidente na obra a confiança — talvez imbuída de otimismo — que o autor tem no método científico para se chegar a verdades objetivas e no pensamento racional para convencer seus leitores. Questionado sobre a suscetibilidade da própria ciência quanto ao enviesamento de seus resultados, ele admite:

PUBLICIDADE

“Em ciências como a matemática ou a física de partículas, é muito improvável obter resultados enviesados. Na seleção de pessoas para trabalhar, pode haver viés racista, homofóbico, sexista… Mas, nas descobertas em si, a suscetibilidade ao viés é baixíssima. Do outro lado, há ciências que estudam o comportamento humano, como a psicologia, a antropologia.”

“Se você é um humano estudando outros humanos, você está vulnerável ao viés. Você precisa de etapas extras de validação por pares para se assegurar de que você não está chegando a determinadas conclusões só para se sentir melhor consigo mesmo”, completa.

Capa de 'Mensageiro das estrelas: Perspectivas cósmicas sobre a civilização', de Neil deGrasse Tyson. Foto: Record/Divulgação

O descompasso da confiança do astrofísico entre ciências exatas e humanas é tão grande que ele chega a afirmar na entrevista: “Neurocientistas vão tomar o lugar dos psicólogos como os químicos tomaram o lugar dos alquimistas. Eu aguardo ansiosamente esse dia”.

Publicidade

(A frase ecoa a recente polêmica no Brasil após a microbiologista Natalia Pasternak defender que a psicanálise seria uma ‘pseudociência’, opinião refutada por psicanalistas como Christian Dunker - entenda aqui.)

Para DeGrasse, todo governante deveria se munir de um conselho científico autônomo e forte a fim de evitar que a legislação seja contaminada por crenças pessoais. “A diversidade de opiniões no mundo contribui para riqueza. Se todos tiverem a mesma opinião, esse é um mundo em que eu não quero viver. Se você vai formular uma lei que se aplica a todos, se essa lei é baseada no seu sistema de crenças, seja ele sua religião, sua cultura ou meros anseios pessoais, então essa lei não abarca todos”.

Em uma sociedade diversa, e o Brasil é uma sociedade extremamente diversa, leis têm que se basear em verdades objetivas. E como se chega em verdades objetivas? Pelo método científico.

Neil deGrasse Tyson

Diante da confiança inabalável de DeGrasse na ciência moderna, pode-se ficar em dúvida quanto ao lugar que os saberes ancestrais e tradicionais devem ocupar em um mundo regido pela tecnologia. “A sabedoria ancestral, especialmente nas culturas indígenas, é valiosa especialmente porque só podia ser transmitida de geração em geração pela oralidade”.

“Os anciãos sabiam como sobreviver ao inverno, como caçar, o que evitar comer… Nas culturas escritas do Ocidente, mas também do Oriente, não se fala tanto da sabedoria ancestral porque ela está escrita. Não é desrespeito, mas consciência de que aquilo não é mais necessário. Eu sugiro que todas as culturas indígenas se tornem escritas. Então elas poderão ser transmitidas para sempre em vez de ficarem em um enclave de pessoas”, reflete o autor.

A relevância da sabedoria dos mais velhos em uma sociedade que muda tão rapidamente, é difícil admitir, é cada vez menor.

Neil deGrasse Tyson

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.