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Amnésia após shows? Entenda por que o fenômeno ocorre e veja dicas para fortalecer a memória

Reportagem conversou com brasileiros que tiveram lapsos de memória e com especialistas que explicam a relação entre o esquecimento e as emoções sentidas durante o evento

Foto do author Julia Queiroz
Por Julia Queiroz

A jovem Ida Maria Lins, de 20 anos, foi ao show do cantor Harry Styles em Curitiba em dezembro de 2022. Contudo, ao deixar a Pedreira Paulo Leminski, onde foi a apresentação, já não se lembrava de quase nada do que tinha acontecido.

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Estudante de Arquitetura e Urbanismo e moradora de Joinville, Santa Catarina, ela conta que realizou um sonho naquela noite, mas se não fossem pelos registros no celular, praticamente não teria memórias do evento.

O fenômeno já é comum para Ida: ela sentiu a mesma coisa quando assistiu Shawn Mendes, em 2018, em Goiânia, a banda Arctic Monkeys no final de 2022 em Curitiba, além de Yungblud e Twenty One Pilots em março de 2023, no Lollapalooza, em São Paulo.

“De todos, eu tenho breves memórias de algum acontecimento, algo que eles falaram ou fizeram no palco, coisas mais marcantes. Não tenho recordações na minha cabeça deles cantando, simplesmente sumiu”, conta.

Ida Maria Lins à espera do show de Harry Styles, em Curitiba, em dezembro de 2022. Foto: Ida Maria Lins/Arquivo Pessoal

A “amnésia pós-shows”, ou seja, a perda parcial ou total das memórias feitas durante a apresentação de um artista, ficou em alta após fãs norte-americanos relatarem o sintoma em shows da cantora Taylor Swift, que vem ao País no final do ano com a The Eras Tour.

O Estadão então foi em busca de exemplos nacionais e especialistas que possam esclarecer porque essas perdas de memória ocorrem. Neste texto, você vai ver:

  • Histórias de fãs brasileiros que tiveram amnésia depois de shows;
  • a explicação de especialistas para esse fenômeno;
  • como as emoções estão relacionadas com a perda de memória;
  • dicas para fortalecer a memória e não esquecer shows após o alto investimento.

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A amnésia

Ida Maria conta que, quando acorda no dia seguinte depois de um show, já não lembra mais como foi a apresentação. “Se não gravei o momento, realmente não vou me lembrar. Preciso ver vídeos de outras pessoas para perceber que eu estava lá quando algo que eu não me recordava aconteceu”.

O mesmo caso acontece com a estudante de hotelaria Giulia D’Erasmo Delbin, de 22 anos, que afirma esquecer tudo que assistiu em apenas 48 horas, se não menos. “Normalmente os shows são a noite e logo na manhã do dia seguinte já não lembro tudo”, diz.

Entre os artistas que já viu ao vivo, ela cita algumas grandes produções que passaram pelo Brasil: Demi Lovato, Ariana Grande, Coldplay, Imagine Dragons, Metallica e Rolling Stones. Alguns ela chegou a ver nos Estados Unidos, durante um período em que morou na cidade de Nashville.

“O que me lembro é porque tenho vídeo ou foto”, conta. “Inclusive, eu faço muitos registros de shows exatamente por isso, para eu rever ou relembrar”.

Giulia D’Erasmo Delbin durante um dos shows da banda Coldplay, em São Paulo, em março de 2023. Foto: Giulia D’Erasmo Delbin/Arquivo Pessoal

O publicitário Felipe Ritis, de 24 anos, narra uma experiência semelhante que ele descreve como “confusão mental”. Assim que uma apresentação acaba, ele não consegue se lembrar se algumas faixas foram tocadas ou quando algum momento especifico da apresentação aconteceu.

“Geralmente, eu tenho que perguntar para alguém. Algumas músicas que me marcaram muito, que eu queria muito ouvir, eu lembro. Acho que tem alguns pontos que ficam marcados, mas o decorrer do show acaba ficando um pouco confuso para mim”, explica.


Por que isso acontece?

De acordo com Paulo Camiz, professor da Universidade de São Paulo (USP) e do Hospital das Clínicas, e criador do aplicativo Mente Turbinada, feito para o treino da memória, a descrição dos lapsos parece ser compatível com o diagnóstico de amnésia dissociativa.

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Ela acontece quando um indivíduo perde algum momento, maior ou menor, de sua memória autobiográfica. Isso pode acontecer em grande escala, como a perda da própria identidade, ou em menor grau, como não saber como se sentiu ou o que viu em determinada ocasião.

“Esse fenômeno não tem uma explicação biológica definida na medicina ainda. O que a gente vê é que ele tem associação com estressores emocionais, sejam eles bons ou ruins”, explica o médico.

O psicólogo Yuri Busin, mestre e doutor em Neurociência do Comportamento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, dá uma explicação semelhante para o fenômeno. Ele classifica “estressores emocionais” como situações em que o corpo é submetido a emoções muitos que fortes, das quais não está acostumado.

Nesses casos, o lapso de memória pode ocorrer como um mecanismo de defesa do cérebro. É comum associarmos esse fenômeno com eventos negativos ou traumáticos, mas os especialistas explicam que o corpo também pode reagir desta forma com emoções positivas.

“É interessante as pessoas sempre entenderem que as emoções são incríveis, mas, em estado muito grande, elas também podem nos prejudicar”, ressalta Busin.


Quais emoções se manifestam nos shows?

Segundo Busin, “em caso de shows ou de encontrar pessoas famosas, ficamos muito nervosos, ansiosos, com o estado emocional muito abalado, por mais que seja de uma forma positiva”, e isso que pode desencadear a amnésia.

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A explicação bate com a descrição dos “esquecidos”. Ida Maria e Felipe, que tiveram perdas de memória após shows, contam que a ansiedade foi um fator comum antes de todas as grandes apresentações que presenciaram.

Ida Maria Lins durante o Lollapalooza 2023. Foto: Ida Maria Lins /Arquivo Pessoal

“Eu ficava extremamente fora de mim, muito eufórica, feliz e desacreditada que estava lá. Parecia que eu estava vivendo um sonho, tudo que acontecia na minha frente era até um pouco difícil de digerir de tão feliz que eu estava”, diz Ida.

“É uma emoção muito forte, de muita animação e felicidade. Eu meio que desligo a minha cabeça de tudo e fico só no show. Acho que é por isso que eu fico meio confuso na hora de voltar para o ‘mundo real’”, comenta Felipe.

Para ele, a amnésia ocorreu em eventos como o show da cantora Tinashe no festival GRLS!, em 2022, e até mesmo após uma apresentação de Charli XCX no Primavera Sound de Barcelona - o publicitário viajou até a Espanha para o evento.

Registro feito por Felipe Ritis durante o show de Charli XCX no festival Primavera Sound, em Barcelona, Espanha. Foto: Felipe Ritis/Arquivo Pessoal

De acordo com Busin, o ápice emocional sentido por algumas pessoas nos shows também pode explicar porque fãs desmaiam durante apresentações (além de fatores como desidratação e calor intenso).


É possível prevenir ou recuperar a memória?

Conforme explica Paulo Camiz, não é comum que as memórias dos shows sejam recuperadas depois que foram esquecidas. “No caso, as pessoas relatam que lembraram, mas, na verdade, não lembram. Elas sabem que participaram do que aconteceu por meio de gravações”.

O médico ressalta que não há um tratamento preventivo específico para um quadro de amnésia dissociativa, em especial porque ainda não existe uma explicação biológica para lapsos de memórias como esses.

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“Como você não sabe exatamente a fisiopatologia, ou seja, a causa do problema, não tem nenhuma recomendação específica de como prevenir”, diz.

Além disso, ele alerta que, mesmo que uma pessoa seja muito fã de um artista, não há como prever que ela terá um excesso de emoção que vai causar uma perda de memória.


Mas como fortalecer a memória?

Apesar de não ser possível prevenir a amnésia dissociativa, Camiz cita dicas para aqueles que desejam fortalecer a memória para comparecer a shows, que geralmente demandam um investimento alto.

  • O especialista comenta que o primeiro passo é separar a memória e a atenção. Ele alerta que a privação de sono, por exemplo, pode deixar as pessoas mais desatentas e, consequentemente, afetar a consolidação da memória.
  • Além disso, transtornos psicológicos como ansiedade e depressão também são fatores que afetam a atenção. Nesses casos, o acompanhamento com um psicólogo e/ou psiquiatra é essencial.
  • Outro detalhe é estar atento a medicamentos que possam afetar a memória do paciente.
  • Camiz também cita atividade física regular e alimentação saudável como fatores importantes. “De maneira geral, hábitos que fazem bem para o coração, também fazem bem para o cérebro”, aponta.
  • Ele também explica que quem quer fortalecer a memória precisa evitar fazer muitas coisas ao mesmo tempo, ou seja, dar atenção a apenas uma atividade de cada vez, por mais simples que seja a tarefa - se você estiver pensando em outra coisa quando guardar as suas chaves, provavelmente não vai se lembrar onde as colocou.

“Uma técnica muito conhecida para memorizar as coisas é a de fazer associações. Se você criar associações entre objetos e coisas que você quer lembrar, aquele fato ou informação ficará mais bem consolidado na sua memória”, finaliza o médico.


*Estagiária sob supervisão de Charlise Morais

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