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Vídeo de discussão por caminhão-pipa é antigo e foi gravado no Norte, não no Nordeste

Conteúdo original foi postado em 2019 por vereador de Ariquemes, município de Rondônia

Por Luciana Marschall

É de 2019, e não atual, um vídeo que mostra uma discussão entre um vereador e um secretário de Obras envolvendo o aluguel de um caminhão-pipa. Além disso, as imagens foram gravadas no município de Ariquemes, em Rondônia, na região Norte do País, e não no Nordeste brasileiro, como afirmam postagens viralizadas no Facebook, TikTok, Kwai e Twitter. Os posts ainda associam falsamente a questão discutida ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que tomou posse três anos depois da gravação do vídeo.

Vídeo foi gravado em Ariquemes, município de Rondônia. Foto: Reprodução

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No vídeo, o vereador Rafael Bento Pereira (DEM), conhecido como Rafael É O Fera, questiona Edson Jorge Ker, ex-secretário de Obras do município, sobre o aluguel de um caminhão-pipa. Ele alega ter em mãos uma nota de empenho – valor que o município reserva no orçamento para efetuar uma aquisição de bem ou serviço – que supostamente provaria que a pasta pagou R$ 155 mil para usar o veículo por dois meses.

Ker se defende dizendo que o aluguel ainda iria ocorrer e que o município só pagaria pelo serviço prestado. Assim, não necessariamente gastaria todo o valor empenhado. Os dois seguem discutindo, enquanto o vereador questiona mais uma vez o aluguel, sustentando que seria mais viável a compra de um veículo do mesmo porte para a administração.

Na própria gravação, Rafael cita o nome do município de Ariquemes. Uma busca pela cidade no Google, associada a palavras-chave como “vereador”, “vídeo”, “secretário de Obras” e “caminhão-pipa”, levou à página de Rafael no Facebook, onde foi possível identificar a postagem original das imagens, no dia 24 de julho de 2019.

No dia seguinte ao ocorrido, uma resposta do então prefeito da cidade, Thiago Flores (MDB), foi publicada pela imprensa local. No vídeo, o político apresenta a versão do Poder Executivo para os fatos.

De acordo com ele, desde o início de 2019 havia uma empresa contratada via pregão eletrônico para prestar serviços com caminhões a R$ 110,62 a hora trabalhada. O contrato, diz Flores, englobava aluguel e manutenção do veículo, além de motorista e combustível.

Para manutenção de vicinais rurais, acrescenta, a administração empenhou o valor citado pelo vereador, porém o contrato previa apenas o pagamento das horas trabalhadas pelo caminhão-pipa.

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A assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal alegou ao Estadão Verifica que o caso ocorreu na gestão anterior e que não foi encontrado o processo licitatório, não sabendo informar se ele foi encerrado ou para onde foi tramitado. Em buscas feitas no Portal da Transparência do município, não foi possível localizar processos com os números informados pelo vereador na postagem feita em 2019 no Facebook.

O vereador foi procurado via WhatsApp, mas não deu retorno. O ex-prefeito e o ex-secretário de Obras não foram localizados.

Postagens tiram vídeo de contexto

Os conteúdos viralizados levam a crer que a discussão se trata de uma questão recente, além de associá-la à seca do Nordeste. Em um deles, sobre as imagens, há uma legenda afirmando que o povo nordestino “tá ferrado” e contendo a hashtag “fazuelle”. Esse termo é uma forma jocosa utilizada por críticos ao presidente de Lula de se referirem à expressão de campanha “faz o L”.

A política de combate à seca é alvo constante de desinformação. O Estadão Verifica já desmentiu posts que diziam que Lula fechou canais da transposição do rio São Francisco em represália a eleitores que não votaram nele. A região representa parte importante do eleitorado do petista. Sua vantagem no Nordeste superou a de Bolsonaro nas demais regiões e assegurou sua eleição.

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Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas: apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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