Irã diz que não quer guerra com os EUA após milícia aliada suspender ataques contra americanos

A milícia iraquiana Kata´ib Hezbollah, que é apoiada pelo Irã, foi pressionada pelos governos de Bagdá e Teerã a suspender os ataques contra bases americanas

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Por Redação
Atualização:

Em um movimento surpresa, a milícia Kata’ib Hezbollah, apoiada pelo Irã, anunciou que suspendeu as suas operações militares no Iraque na terça-feira, 30, por conta de pressões do governo iraquiano e do Irã. Nesta quarta-feira, 31, o governo iraniano, por meio do chefe da Guarda Revolucionária, general Hossein Salami, declarou que o país não procura uma guerra com os Estados Unidos, apesar de prometer retaliar qualquer ataque americano.

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Ambos anúncios vêm a público depois de o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, anunciar que ele havia decidido a forma que Washington iria retaliar em resposta às mortes dos soldados dos EUA em um ataque do Kata’ib Hezbollah no fim de semana. Biden não deu detalhes sobre qual seria a resposta.

Alguns legisladores republicanos pediram que Biden atacasse o Irã diretamente, embora o presidente tenha enfatizado novamente na terça-feira que estava determinado a evitar um conflito regional mais amplo, dizendo aos repórteres: “Não acho que precisamos de uma guerra mais ampla no Oriente Médio”.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, participa de uma reunião com o secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin, em Washington, Estados Unidos  Foto: Adam Schultz / AP

A milícia Kata’ib Hezbollah, ou Brigadas do Partido de Deus, é o maior e mais estabelecido dos grupos ligados ao Irã que operam no Iraque. O grupo liderou a maioria dos cerca de 160 ataques a instalações militares dos EUA no Iraque e na Síria que ocorreram desde que Israel iniciou as suas operações terrestres em Gaza, agindo em resposta aos ataques dos terroristas do Hamas no dia 7 de outubro, que deixaram mais de 1.200 mortos no sul de Israel.

Os militares dos EUA têm cerca de 2.500 soldados no Iraque aconselhando e treinando o exército iraquiano e cerca de 900 na Síria, apoiando as forças de defesa curdas sírias na sua luta contra o Estado Islâmico.

O Kata’ib Hezbollah faz parte do que é conhecido como Eixo da Resistência, uma rede de grupos apoiados pelo Irã que operam no Iraque, Síria, Líbano, Iêmen e ocasionalmente em locais mais distantes. Os outros dois grupos iraquianos que se acredita terem estado envolvidos em ataques contra alvos dos EUA – Harakat al Nujaba e Sayyid Shuhada – não anunciaram que irão parar os ataques.

O líder do Kata’ib Hezbollah, Abu Hussein al-Hamidawi, afirmou em um comunicado que o grupo iria parar os ataques contra bases americanas. “Anunciamos a suspensão das operações militares e de segurança contra as forças de ocupação – a fim de evitar constrangimentos ao governo iraquiano”.

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Membros da milícia Hashed al-shaabi no Iraque, que é apoiada pelo Irã, carregam um caixão de uma pessoa que morreu em um ataque americano  Foto: Ahmad Al-Rubaye/AFP

Pressão

A declaração deixou claro que o Irã pressionou o grupo para parar os ataques contra as tropas dos EUA e que o Kata’ib Hezbollah não estava satisfeito com isso. O grupo fez questão de sugerir que escolhesse os seus próprios alvos e timing, em vez de seguir as ordens do Irã.

“Os nossos irmãos do Eixo, especialmente na República Islâmica do Irã, não sabem como conduzimos a nossa Jihad e muitas vezes opõem-se à pressão e à escalada contra as forças de ocupação americanas no Iraque e na Síria”, afirmou o comunicado.

Questionado sobre o anúncio do Kata’ib Hezbollah, um porta-voz do Departamento de Defesa, o major-general Pat Ryder, afirmou em um briefing do Pentágono que “as ações falem mais alto do que as palavras”.

Segundo oficiais iraquianos e iranianos que foram consultados pelo The New York Times, Teerã e Bagdá se envolveram em negociações com a milícia com o objetivo de pressionar o Kata’ib Hezbollah a parar os seus ataques.

O primeiro-ministro do Iraque, Mohammed Shia al-Sudani, começou a pressionar pela paralisação dos ataques há várias semanas, segundo altos conselheiros do governo. Ele estava tentando iniciar negociações sobre uma eventual retirada da presença militar internacional liderada pelos EUA no Iraque, mas Washington não queria negociar enquanto estivesse sob ataque, de acordo com autoridades iraquianas e americanas.

Os Estados Unidos acabaram por concordar em iniciar negociações para uma retirada militar, sem garantia de que os ataques iriam parar, mas com um claro impulso nessa direção./com NYT

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