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Golpe da ‘Mulher do cabelo azul’ vitimou influenciadora e afeta usuários no Instagram

Influenciadora Ianka Cristini afirma que sua imagem é usada por contas falsas; Meta não se manifestou

Foto do author Henrique Sampaio
Por Henrique Sampaio
Atualização:

“Não aguento mais essa mulher do cabelo azul me marcando no Instagram!”. É possível que você tenha notado desabafos como este nos últimos meses em seu feed das redes sociais. Ou pior, que você próprio tenha sido alvo das marcações indesejadas nos Stories do Instagram, posts do X (antigo Twitter) ou TikTok da tal mulher do cabelo azul, em vídeos em que ela divulga o jogo de azar “Fortune Tiger”. O “jogo do tigrinho”, como é conhecido, é investigado pela Polícia Civil de vários estados como um esquema criminoso envolvendo influenciadores.

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Neste caso, no entanto, Ianka Cristini, a própria mulher do cabelo azul, também alega ser vítima – embora ela, de fato, tenha feito no passado os anúncios originais que são replicados nas contas falsas. A influenciadora de 27 anos afirma, em Stories fixados em seu perfil, que, desde 2023, seus vídeos divulgando o jogo do tigrinho vem sendo usados por terceiros em contas falsas sem sua autorização.

Essas contas postam Stories dos vídeos de Ianka e marcam centenas de usuários, que recebem notificações, imaginando que foram mencionados em conteúdos de amigos. Quando eles checam o conteúdo, são vídeos da influenciadora jogando Fortune Tiger, nos quais ela supostamente ganha prêmios de valores elevados de uma única vez. Os Stories geralmente vêm acompanhados de mensagens que dizem que usuários mencionados ganharam bônus de R$ 4.500 e oferecem um link para resgate do dinheiro. Segundo Ianka, os links são de plataformas falsas e podem resultar em perda financeira.

Influenciadora Ianka Cristini teve propagandas do 'jogo do tigrinho' roubadas por golpistas Foto: Instagram/Reprodução

Ianka já se manifestou algumas vezes sobre a situação. “Amanhã, eu vou na delegacia novamente, vou fazer mais um boletim de ocorrência”, disse ela em um Story publicado no dia 9 de julho de 2023. A mensagem está fixada em seu perfil com quase 6 milhões de seguidores no Instagram. “Já fiz dois, mas mesmo assim, a galera pega os meus vídeos, faz fake e fica marcando todo mundo”, reclama.

A influenciadora diz que já foi abordada na rua, sendo perguntada se era ela que ficava marcando as pessoas no Instagram. “Hoje de manhã mais de 20 pessoas me mandaram o print de vídeo meu circulando, mencionando elas” conta no Story fixado. “É a minha imagem, né?”

Usuários que são marcados dizem que denunciam os posts e as contas, mas que o problema nunca é solucionado. “São sempre perfis ‘descartáveis’ com o vídeo da mesma mulher de cabelo azul. Sempre denuncio mas vivem voltando”, reclama um usuário no Twitter.

“A gente bloqueia, denúncia que é spam, eles criam contas novas e continuam!”, diz outro usuário.

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O que dizem os advogados e a Meta

“Foram registrados diversos boletins de ocorrências diante de tais fatos, os quais prosseguem com a instauração de inquérito policial, em busca da identificação e responsabilidade dos criminosos”, afirma ao Estadão a advogada de Ianka, Adélia Soares. “Ressalta-se que o conteúdo divulgado por qualquer perfil não oficial da influenciadora Ianka que contenha sua imagem, nome ou voz não tem relação alguma com os vídeos gravados da influenciadora, que utilizam sua imagem para enganar o público, promover indevidamente contratantes mal-intencionados e se enriquecerem ilicitamente, o que impacta e fere diretamente a imagem e credibilidade de Ianka”

O escritório de advocacia que atende Ianka diz ter protocolado ações judiciais contra as plataformas que não cumpriram com os bloqueios e banimentos. “É de rigor destacar que as plataformas são sim responsáveis pelos conteúdos que mantém em seus canais, conforme dispositivos legais previstos na Lei nº 12.965/2014, denominada como Marco Civil da Internet, devendo colaborar para com a justiça e a sociedade para evitar atos lesivos e ilícitos.”

“Importante esclarecer que a influenciadora não se arrepende das publicidades que faz, não havendo qualquer motivação para isso”, afirma a nota.

A reportagem entrou em contato com a Meta, dona Instagram, para saber que medidas estavam sendo tomadas contra as contas falsas e a marcação indevida a usuários, mas até a conclusão deste texto a empresa não retornou com as respostas.

Publicidade deve seguir diretrizes

CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE

Em janeiro de 2024 o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a lei nº 14.790, que regulamenta apostas online, o que inclui não apenas as apostas esportivas (conhecidas como bets) mas também jogos de cassino online. Anteriormente, esse formato era proibido no Brasil, com base na Lei de Contravenções Penais, quando a prática tem potencial ofensivo menor.

Segundo o advogado Marcelo Feller, propagandas de jogos de azar online, como o jogo do tigrinho, feitas antes da nova lei, poderiam ser consideradas ilegais. Contudo, com a promulgação da Lei das Apostas Esportivas, elas deixam de ser irregulares, desde que sigam as regras de publicidade de apostas, divulgada pelo Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária (Conar) após a sanção do novo ordenamento.

“Quando, por meio de uma nova lei, uma conduta deixa de ser considerada criminosa, automaticamente tem o que a gente chama de abolitio criminis. Se aquilo não é mais crime, quem cometeu o crime não responde mais por ele”, explica Feller. O advogado ressalta ainda que a divulgação de jogos de azar não eram consideradas crime, mas contravenção penal.

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Ainda que a nova lei legalize os jogos de azar, os vídeos originais do jogo do tigrinho publicados por Ianka, que agora circulam ilegalmente em contas falsas, desvinculadas da influenciadora, continuam não seguindo as normas estabelecidas pelo Conar – ou seja, continuam irregulares.

As regras dizem que a publicidade precisa ser facilmente identificável, apresentando dados do anunciante responsável, com o número e data da portaria de autorização, além de informações de contato e canal de atendimento; conter aviso de proibido para menores de idade; fazer promessas de ganhos certos, fáceis ou elevados; incluir apelos enganosos ou irrealistas sobre a probabilidade de ganhos ou isenção de risco; promover como forma de aliviar problemas, entre outras normas.

O material precisa conter também advertências como “Apostar pode levar à perda de dinheiro” ou “Aposta não é investimento.” Os vídeos de Ianka que circulam irregularmente em contas falsas não seguem nenhuma das diretrizes. Além disso, Ianka aparece ganhando prêmios exorbitantes com facilidade.

Nos Stories fixados por Ianka, a influenciadora fala sobre os riscos de perder dinheiro com os jogos que divulga, mas também estimula as apostas. “Eu nunca cheguei aqui e falei para vocês que é um dinheiro fácil, tá? (...) Eu estudo muito a plataforma e eu já paguei muitos cursos também para entender melhor sobre gestão de banca e tudo mais, então o que eu ensino para vocês no meu grupo é de graça e são coisas que eu paguei para aprender.”

A nota emitida pela sua advogada diz que Ianka faz publicidade de contratos legais de jogos online em suas redes sociais periodicamente, em acordo com as diretrizes do Conar, e que os vídeos “roubados” não correspondem aos gravados e divulgados pro meio de seus canais oficiais.

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