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À margem da História

Opinião|Difícil explicar o sentido de gastar R$ 40 milhões para construir 2º museu à democracia em Brasília

Gestão da cultura do governo Lula precisa de gestão de patrimônio e corre o risco de abrigar uma visão turva sobre o que aconteceu no dia 8 de Janeiro, as relações políticas e a arquitetura da capital federal

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Foto do author Leonencio Nossa

É a sabedoria pernambucana. Evaldo Cabral de Mello, mais destacado dos historiadores brasileiros, costuma dizer que se dedica ao período holandês, no século XVII, uma época longínqua, para enxergar melhor o tempo. “Eu detesto História recente, porque você não vê com nitidez as coisas”, avaliou numa entrevista. “A História recente é um negócio perigoso.”

Os políticos não refletem nessa perspectiva. Eles ignoram efeitos colaterais no uso político do passado – talvez seja essa uma essência da vida partidária: impor narrativas e versões. Há momentos, entretanto, que os agentes públicos vão além do ofício de contador de histórias e se aventuram em projetos de construir tumbas, pirâmides e museus para mostrar seu olhar em relação ao tempo. Na brincadeira, esquecem da História que está sendo vivida.

Evento convocado pelo governo Lula relembrou um ano dos atos golpistas do 8 de Janeiro Foto: Sérgio Dutti/Estadão - 08/01/2024

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Nada contra criar um museu. A questão é que os políticos geralmente não levam esse tipo de projeto até o fim. Afinal, toda vez que resolveu contar a História recente, a classe recuou logo depois. O painel que retratava a campanha do impeachment de Fernando Collor, exposto no Túnel do Tempo, do Senado, foi retirado assim que o ex-presidente voltou à capital como senador eleito.

A política está repleta também de casos de quem se apressou em fechar um museu dedicado a seu oponente, mas na sequência passou pelo constrangimento de apertar a mão do adversário. Em 2015, um dos primeiros atos de Flávio Dino à frente do governo do Maranhão foi anunciar a “privatização” do Museu da Memória Republicana, sobre o ex-presidente José Sarney, no Mosteiro das Mercês, em São Luís. Acusado de perseguição política, Dino recuou dois dias depois...

Painel que retratava a campanha do impeachment de Fernando Collor, exposto no Túnel do Tempo, do Senado, foi retirado depois que o ex-presidente voltou à capital como senador eleito, em 2007 Foto: Sérgio Dutti/Estadão - 01/02/2007

A curadoria do segundo Museu da Democracia vai ter dor de cabeça para montar o roteiro do novo espaço cultural. É difícil imaginar um relato decente da História do dia 8 de Janeiro de 2023 sem explicar quem bancou a proposta política que desaguou na última intentona. Não dá para ignorar a criação do orçamento secreto, um esquema de compra de votos criado por Jair Bolsonaro e as lideranças do Centrão que permitiu a governabilidade de um presidente marcado por um projeto antidemocrático de País.

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Os subordinados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva devem achar mesmo que o chefe não depende do Centrão nem da tropa de choque do presidente da Câmara, Arthur Lira, para poder exibir, em Brasília, a foto deles no novo museu. A propósito, o lugar seria uma opção incrível de passeio para as famílias se o Brasil não enfrentasse uma polarização que tornou até os grupos de parentes no WhatsApp infernos de discussão.

Inaugurado em 1985, Panteão da Liberdade representa a história da luta democrática no País Foto: Dida Sampaio/Estadão

O problema não é nem mesmo construir um museu, mas abrir um incompleto. A propósito, não é apenas no campo político que a ideia do Museu da Democracia pode revelar uma visão turva inclusive sobre a cidade de Brasília. A capital já conta com o Panteão da Liberdade, aberto em 1985, na Praça dos Três Poderes, para falar justamente da luta pela democracia desde os inconfidentes. A memória do 8 de Janeiro poderia ser contada num espaço desse prédio.

Nesta semana, o Ministério da Cultura informou que construirá o novo Museu da Democracia num terreno ao lado do Teatro Nacional, na Esplanada dos Ministérios. Na última vez que tentaram mudar a paisagem da Esplanada com uma nova obra de concreto, em 2009, a cidade e a opinião pública chiaram. E olha que a ideia de uma Praça da Soberania, com um grande obelisco, era simplesmente de Oscar Niemeyer, arquiteto que desenhou os principais prédios da capital.

Muito provavelmente, o governo dirá que o segundo Museu da Democracia será quase invisível, sem prejudicar a escala da cidade planejada, como todo puxadinho e anexo que enfeiam os fundos dos prédios dos ministérios. Difícil é explicar o sentido de gastar R$ 40 milhões num novo espaço cultural ao lado de um teatro que está “em obras”, isto é, fechado há dez anos por falta de verbas.

Em 2008, Lula plantou uma aroeira no Bosque da Constituinte, em Brasília; parte da área de lugar ao Espaço Israel Pinheiro, museu dedicado ao primeiro prefeito de Brasília; à época, derrubada das árvores gerou críticas  Foto: André Dusek/Estadão - 05/11/2008

Talvez será difícil explicar a necessidade de mais um canteiro no coração de uma capital que está cansada de ver políticos inaugurando museus que, depois, tornam-se prédios ocos, sem acervos importantes. Perto do teatro, do outro lado do Eixo Monumental, o Museu da República e a Biblioteca Nacional, ideias do ex-governador Joaquim Roriz, são templos sem santos dentro. O museu não conta com peças de grandes mestres. A biblioteca, por sua vez, não possui livros raros e, em tempo de chuva, enfrenta goteiras.

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A ministra da Cultura, Margareth Menezes, está em Brasília há pouco tempo, mas um de seus subordinados é da cidade. O presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Leandro Grass, poderia contar para ela que as visitas aos museus da capital costumam ser decepcionantes. O Espaço Niemeyer e o Espaço Israel Pinheiro, também no Eixo Monumental, estão sempre fechados – e os acervos são lastimáveis.

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A construção do museu dedicado a Pinheiro, primeiro prefeito de Brasília, causou polêmica. O prédio foi construído em 2003 numa área do Bosque dos Constituintes, onde deputados plantaram árvores. A derrubada de 19 delas para erguer a obra recebeu críticas. Com a abertura do espaço, os curadores propagaram que o museu era um lugar dedicado à “sustentabilidade ambiental”.

Mesmo o grandioso Panteão da Liberdade, que se propôs contar a História da luta democrática desde a Inconfidência Mineira, é um prédio oco. Grass não é do ramo. O sociólogo e ex-deputado distrital ganhou o cargo depois de perder a eleição para governador de Brasília.

Em 2023, o Iphan teve R$ 65 milhões em pagamentos liquidados na área do patrimônio cultural. Este valor seria uma maravilha se a escala usada não fosse a gestão de Bolsonaro, que jogou boa parte das verbas públicas no negócio com o Centrão. Mesmo considerando os recursos gastos em patrimônio cultural por outros setores do governo, o valor investido no ano passado não atinge o registrado em 2006 – R$ 114 milhões, sem atualização inflacionária. Por muitos anos, a Era Bolsonaro será uma muleta para políticos de obras polêmicas e gestores que não entendem da área que governam.

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Opinião por Leonencio Nossa

Editor de especiais do Estadão. Mestre em história e política. Autor dos livros “As guerras da Independência do Brasil”, “Roberto Marinho, o poder está no ar” e “Mata! O Major Curió e as guerrilhas no Araguaia”. Escreve aos sábados.

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