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Em meio a preocupação com a segurança, Prefeitura testa projeto Ruas Abertas na Avenida São João

Piloto teve show de chorinho, apresentação de banda de rock e aula de dança. Moradores comemoram, mas não há unanimidade em relação à ação

Foto do author Danilo Casaletti
Por Danilo Casaletti
Atualização:

A Avenida São João, no centro de São Paulo, recebeu neste domingo, 21, um evento teste do Programa Ruas Abertas, iniciativa da Prefeitura de São Paulo que abre para a população, aos domingos e feriados, trechos de vias públicas, a exemplo do que ocorre com a Avenida Paulista e ruas do bairro da Liberdade.

Movimento de pedestres na Avenida São João, na região central de São Paulo, neste domingo, 21 de janeiro Foto: Roberto Sungi/Ato Press/ estadão Conteúdo

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A proposta, que está em discussão com a população desde o dia 8 de janeiro, é interditar cerca de 1,5 Km da avenida, das 9h às 16h, no trecho que vai entre o Elevado Presidente João Goulart, conhecido como Minhocão, ao Largo do Paissandu.

A reportagem do Estadão esteve na São João entre às 9h e 13h30 deste domingo. A região, que enfrenta um clima de tensão por conta da proximidade com a Cracolândia e com a presença de dependentes químicos, aparentava tranquilidade, com pessoas andando, correndo ou pedalando na avenida fechada para carros.

O clima também era bastante diverso e democrático. Na esquina com a Rua Aurora, uma tenda da Prefeitura abrigava um grupo de chorinho. Já no cruzamento com a Pedro Américo, um palco montado por uma academia abrigava uma aula de dança ao som do grupo de pagode baiano É o Tchan. Na outra ponta da avenida, no Largo do Paissandu, em frente à Galeria do Rock, um grupo de metal se apresentava para um pequeno público.

A segurança no local estava reforçada. Ao longo da avenida era possível ver policiais militares andando a pé ou em viaturas. O mesmo ocorreu com membros da Guarda Civil Metropolitana. Diferentemente do que ocorre na Paulista e na Liberdade, não havia vendedores ambulantes na São João.

A reportagem presenciou apenas um incidente. Na esquina da famosa esquina da Ipiranga com a São João, um homem em situação de rua esbarrou com um pedestre que estava parado. Os dois trocaram xingamentos. Já do outro lado da rua, o homem que esbarrou no pedestre tirou da roupa um punhal e fez ameaças de longe. No momento, uma viatura da PM passou pelo local, mas não parou.

A Avenida São João guarda dois símbolos da violência na cidade de São Paulo. Em dezembro de 2023, o Bar Brahma, que há 75 anos fica na esquina da São João e Ipiranga, foi atacado com pedradas por uma gangue após um frequentador reagir a um assalto. Antes, em abril de 2023, frequentadores da Cracolândia saquearam uma farmácia na São João. O estabelecimento segue fechado, com tapumes nas portas e janelas.

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A violência é uma preocupação dos moradores e comerciantes da região. Inês Sene mora há 40 anos em um prédio na São João e participa de comissões locais desde que o fluxo da Cracolândia passou um tempo na Rua Helvétia. Ela estava esperançosa em ver a avenida com outra cara neste domingo.

“Conversei com moradores e comerciantes que estão contentes com o projeto”, diz. Ela confirma que a falta de segurança e a presença dos dependentes químicos, de fato, são os maiores problemas da região. “Com policiamento, as pessoas se sentem seguras e passam a ocupar a rua. Isso é importante”, afirma a moradora.

O piloto do Ruas Abertas foi uma proposta da Associação Pró-Centro SP, acolhida pela Prefeitura, que abriu uma consulta pública online e fez duas audiências públicas, uma no Bar Brahma e outra na Galeria do Rock.

Fábio Redondo, vice-presidente da Pró-Centro e proprietário de sete hotéis na região, diz que notou que um número de pessoas de patins, skates e bicicletas que passavam pelo local aos sábados vinham da ciclofaixa do Anhangabaú e iam para o Minhocão, que fica fechado aos finais de semana. “Achei que era uma ligação natural de dois pontos de lazer”, afirma Redondo, que fez a proposta para a Prefeitura em 2022.

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Redondo conta que muitas lanchonetes, restaurantes e outros comércios que não funcionam aos domingos se dispuseram a abrir, em adesão ao piloto do programa, caso do Salada Record e da Galeria do Rock.

“Isso traz segurança, oportunidades e lazer para a população. Não dá para ficar parado e não fazer nada porque há usuários de drogas na região. A Paulista também tem furto de celular e as pessoas não deixam de ir para lá. É preciso retomar o centro”, diz Redondo.

O comerciante Mario Kamei, comerciante há 37 anos na Rua das Motos, como popularmente é conhecida a Rua General Osório, procurou a reportagem do Estadão para dizer que está satisfeito com o projeto. Ele disse que o Ruas Abertas pode contribuir para revitalizar também a Rua das Motos. Ele afirmou que os comerciantes planejam um evento temático com feira e exposição de motos para os domingos.

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Atrações se espalharam ao longo da avenida que teve policiamento reforçado Foto: Tiago Queiroz/ Estadão

O secretário da Casa Civil da Prefeitura de São Paulo, Fabrício Cobra, esteve na São João no início da tarde de domingo. De acordo com ele, a Prefeitura considerou levar para avenida atrações menores, como o grupo de chorinho, denominadas de fluição, que não possibilitem aglomerações.

“Foi a própria sociedade civil que pediu (o Ruas Abertas). 95% das pessoas que ouvimos são favoráveis. Vamos analisar o estudo, o resultado deste piloto. Depois, os técnicos vão dizer se é positivo ou não. Por fim, caberá ao prefeito e seus secretários decidirem se o projeto será implementado”, diz Cobra.

Nem todos estavam satisfeitos. Lourenço Volpone, conselheiro da Associação Geral do Centro, teme que episódios de violência como o ataque ao Bar Brahma se repitam na região. Ainda há um pequeno fluxo de dependentes químicos na Praça Júlio de Mesquita.

“Há a gangue de bicicleta. É um problema constante. Não há investimento público aqui. Os moradores não foram ouvidos. Só os que têm acesso à Prefeitura e os comerciantes”, diz Volpone. Ele diz que conversou informalmente com 16 síndicos de prédios e nove são contra o fechamento da avenida. “Aqui é um caos”, diz.

De acordo com Henrique Bekis, gerente da CET, que acompanhava a operação de perto, 30 agentes da companhia foram destacados para coordenar e avaliar o impacto do trânsito na região. A Polícia Militar não respondeu ao questionamento do Estadão sobre quantos policiais foram mobilizados para acompanhar o projeto piloto na São João.

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