Com dados errados sobre PIB e desemprego, vídeo engana sobre gestão econômica

Não é verdade que Produto Interno Bruto esteja em ‘queda livre’ ou que Ministério da Fazenda tenha anunciado volta da CPMF

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Por Gabriela Meireles
Atualização:

Um vídeo com mais de 75 mil curtidas no Facebook, publicado originalmente no TikTok, reúne onze afirmações com críticas à gestão econômica do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Porém, a responsável pelo conteúdo cita dados enganosos sobre a atual taxa de desemprego, os índices de inflação e o Produto Interno Bruto (PIB). Com ironia, a mulher que aparece nas imagens diz ao final de cada frase “mas o importante é que tiramos o Bozo”. Confira abaixo a checagem de cada afirmação.

Não é verdade que Produto Interno Bruto esteja em ‘queda livre’ ou que Ministério da Fazenda tenha anunciado volta da CPMF. Foto: Reprodução

Desemprego

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O que estão compartilhando: desemprego subiu 8,8% em 2023, segundo o IBGE.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou no dia 28 de abril que a taxa de desocupação no País encerrou o primeiro trimestre de 2023 em 8,8%. Diferentemente do que afirma o vídeo, esse índice representa um aumento de 0,9 ponto percentual na comparação com o trimestre anterior (outubro, novembro e dezembro de 2022), quando o valor ficou em 7,9% Em relação ao primeiro trimestre de 2022, quando a taxa de desocupação era de 11,1%, houve queda de 2,3 pontos percentuais.

Na divulgação mais recente do IBGE, a taxa de desemprego diminuiu para 8,5% no trimestre encerrado em abril. Os dados são da Pnad Contínua, divulgada dia 31 de maio.

Produto Interno Bruto (PIB)

O que estão compartilhando: PIB está em queda livre.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. O IBGE divulgou nesta quinta-feira, 1, que o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 1,9% no primeiro trimestre deste ano, na comparação com o último trimestre do ano passado. Na comparação com os primeiros três meses de 2022, o PIB avançou 4%. O Instituto destaca que o crescimento desse índice foi puxado pelo agronegócio, que cresceu 21,6% no trimestre com safra recorde.

Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF)

O que estão compartilhando: governo voltará a cobrar a extinta CPMF.

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O Estadão Verifica investigou e concluiu que: até o momento não há indicativo disso. A possibilidade da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) voltar a incidir sobre as movimentações bancárias durante o atual governo foi descartada pelo Ministério da Fazenda.

Em março, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, esclareceu que o governo não pretende usar a reforma tributária para recriar um imposto nos moldes da antiga CPMF. Novamente, em maio, o ministro reforçou que não há proposta para recriar essa cobrança, durante entrevista na GloboNews.

Arcabouço Fiscal

O que estão compartilhando: Arcabouço Fiscal é autorização para que governo gaste além do limite estabelecido pelo teto de gastos. Isso acarretará cerca de R$ 150 bilhões a mais de carga tributária para contribuintes brasileiros.

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O Estadão Verifica investigou e concluiu que: falta contexto. O Arcabouço Fiscal, aprovado dia 23 de maio na Câmara dos Deputados, de fato substitui o Teto de Gastos, estabelecido pelo governo de Michel Temer em 2016. O objetivo desse marco fiscal ainda é estabelecer limites para o crescimento das despesas, que não poderão exceder 70% do crescimento da arrecadação.

Durante entrevista à GloboNews em abril, Haddad afirmou que seria preciso ampliar a receita do governo em R$ 110 bilhões a R$ 150 bilhões a fim de viabilizar as metas do arcabouço fiscal. Na época, foi anunciado que o governo iria apresentar propostas como a taxação de apostas eletrônicas e do e-commerce. Segundo o ministro, não é preciso “aumentar e nem criar imposto para atingir esse objetivo”.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, reforçou mês passado que não há proposta para recriar a extinta CPMF.  Foto: Adriano Machado/Reuters

Inflação

O que estão compartilhando: a inflação aumentou em 6%.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. Na verdade, a porcentagem alegada no conteúdo verificado aqui se refere a uma projeção do Banco Central do Brasil do IPCA (índice de inflação oficial) de 2023, divulgada dia 15 de maio. Essa pesquisa é divulgada semanalmente pelo Banco. Logo, a expectativa de 6% está desatualizada.

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O relatório Focus do Banco Central divulgado dia 22 de maio indicava uma queda na expectativa para o IPCA deste ano de 6,03% para 5,8%. Esta semana, a nova projeção para o índice cedeu novamente de 5,80% para 5,71%.

Segundo o IBGE, a inflação no País em abril ficou em 0,61%, desaceleração do 0,71% registrado em março. No acumulado dos últimos 12 meses, o índice é de 4,18%.

Bolsa Família

O que estão compartilhando: governo cortou 1,5 milhão de cadastros do Bolsa Família.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: falta contexto. De fato, o governo federal anunciou em março que iria excluir mais de 1,5 milhão de beneficiários do Bolsa Família. No entanto, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome afirma que a medida se aplica somente às famílias em situação irregular. Foram excluídos, por exemplo, cadastrados com renda acima do limite determinado pelo programa social e beneficiários com dados errados sobre composição familiar.

Gastos do governo com publicidade

O que estão compartilhando: governo gastou R$ 36 milhões só em publicidade.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é impreciso. O registro em notícia mais próximo ao que foi mencionado no vídeo está em uma reportagem do site Antagonista, divulgada em abril deste ano. O texto diz que a Secretaria de Comunicação Social da atual gestão teria gastado R$ 32 milhões em um período de três dias (de 8 a 10 de abril), para promover os 100 dias de governo Lula.

Mais detalhes atualizados sobre os gastos do atual governo com publicidade podem ser conferidos no Portal da Transparência. Até o momento, está indicado que o governo já gastou um total de R$ 44,73 milhões com “publicidade de utilidade pública”.

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Falências

O que estão compartilhando: índice de falências em 2023 aumentou 56%.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é verdadeiro. O Indicador de Falências e Recuperações Judiciais mostrou que o requerimento de falências em janeiro de 2023 aumentou 56,5% em comparação com o mesmo mês de 2022 — o total foi de 72 pedidos de falências. Esses dados foram divulgados em fevereiro pela Serasa Experian.

Arcabouço Fiscal tem objetivo de estabelecer limites para o crescimento das despesas, que não poderão exceder 70% do crescimento da arrecadação.  Foto: WILTON JUNIOR

Fundo do Seguro-Desemprego

O que estão compartilhando: governo registrou um rombo de R$ 5 bilhões no fundo do seguro desemprego. Esse valor sobrará na Argentina, para financiar pontes e gasodutos.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. O valor citado no vídeo se refere ao pacote de medidas anunciado em fevereiro pelo Ministério do Trabalho e Emprego, que visa a arrecadar R$ 5,1 bilhões até o final do ano por meio da fiscalização na área trabalhista. De acordo com a pasta, desse total, uma parte virá da execução do Plano Nacional de Combate à Informalidade, e o restante, das medidas de combate à sonegação do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

Em abril, uma reportagem da Folha de S. Paulo chamou atenção para a possibilidade de rombo no Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), que fornece recursos ao seguro-desemprego e ao abono salarial. De acordo com os técnicos ouvidos pela matéria, as contas do FAT podem entrar no vermelho caso o Ministério fracasse em arrecadar os R$ 5,1 bilhões propostos.

A respeito da acusação sobre o financiamento brasileiro à obras de infraestrutura na Argentina, ainda não há confirmação. De fato, o presidente anunciou que o “BNDES vai voltar a financiar as relações comerciais do Brasil e vai voltar a financiar projetos de engenharia para ajudar empresas brasileiras no exterior”, durante visita oficial à Argentina, em janeiro. Entretanto, um dia após esse pronunciamento, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) negou que houvesse demanda para financiar “serviços de infraestrutura” no exterior.

Saldo nas contas do governo em 2022

O que estão compartilhando: 2022 fechou o ano com um saldo positivo de R$ 58 bilhões.

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O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é impreciso. De fato, foi registrado um saldo positivo nas contas do governo federal em 2022, que fecharam em R$ 54 bilhões — e não R$ 58 bilhões. Vale detalhar que esse saldo positivo ao final do governo de Jair Bolsonaro (PL) ocorreu após furos no teto de gastos com objetivo de conceder benefícios financeiros em ano de eleição presidencial.

Contas públicas no 1° trimestre de 2023

O que estão compartilhando: no 1° trimestre de 2023 o rombo deixado pelo governo Lula foi de R$ 232 bilhões.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. Na verdade, o valor de R$ 232,5 bilhões se refere a uma previsão realizada em dezembro de 2022 sobre o déficit nas contas públicas para todo o ano de 2023. Essa projeção já foi atualizada pelo Ministério do Planejamento e Orçamento em março deste ano. A nova estimativa é de R$ 107,6 bilhões.

O Estadão Verifica procurou a autora do conteúdo, que afirmou ter fontes em notícias na internet e em dados do IBGE, que foram divulgados próximos à data em que postou o vídeo.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

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