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Como a Venezuela se tornou a última dor de cabeça de Biden em política externa

Administração do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, coleciona reveses em política externa no Afeganistão, Ucrânia, Israel e Venezuela

Foto do author Daniel Gateno
Por Daniel Gateno

A decisão do ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, de manter a inabilitação da líder da oposição da Venezuela, María Corina Machado, ressalta mais um revés da política externa do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, que topou negociar com Maduro e flexibilizar as sanções contra o regime em troca de eleições livres e justas no país sul-americano. O anúncio se junta a lista de falhas do governo democrata em política externa que tem a conturbada saída americana do Afeganistão, a dificuldade em aprovar apoio econômico e militar à Ucrânia e a falta de diálogo com Israel para interromper a ofensiva na Faixa de Gaza e pensar em um futuro Estado palestino em meio a guerra contra o grupo terrorista Hamas.

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As derrotas de Biden em política externa serão colocadas a prova nas eleições de 2024, mas analistas entrevistados pelo Estadão apontam que não enxergam uma mudança na imagem negativa do presidente americano neste setor.

“O campo externo seria importante para Biden porque se esperava que ele tivesse bastante experiência, mas ele não vai ter muito para mostrar nestas eleições”, avalia o professor do departamento de ciência política do Berea College Carlos Gustavo Poggio.

O especialista destaca que a dificuldade de Biden em aprovar um pacote de ajuda para a Ucrânia, que está travado no Congresso em meio a negociações com republicanos, e o apoio a Israel em sua ofensiva militar na Faixa de Gaza, que é muito criticada por setores mais progressistas do partido de Biden e por jovens, acabou custando muito caro para a popularidade do presidente.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, participa de uma coletiva de imprensa na Casa Branca, em Washington, Estados Unidos  Foto: Evan Vucci/AP

A política externa americana não costuma modificar cenários eleitorais, mas pode ser um tema mais importante no pleito deste ano. Segundo uma pesquisa divulgada em janeiro pela Associated Press com o Centro de Pesquisa de Assuntos Públicos da Universidade de Chicago, mais americanos pensam que a política externa deve ser o foco do governo dos EUA em 2024.

Cerca de 4 em cada 10 adultos norte-americanos citaram tópicos de política externa em uma pergunta aberta que pedia às pessoas que compartilhassem até cinco questões para o governo trabalhar no próximo ano. A política externa ganhou importância entre os entrevistados de ambos os partidos. Cerca de 46% dos republicanos o nomearam, contra 23% no ano passado. E 34% dos Democratas listam a política externa como ponto importante, em comparação com 16% há um ano.

Venezuela

No caso da Venezuela, um tema de política externo está diretamente a uma questão doméstica cada vez mais problemática para Biden: a imigração. O democrata apostou em um relaxamento nas sanções econômicas contra Caracas no momento em que recebe críticas sobre o fluxo de imigrantes ilegais que estão cruzando a fronteira americana. O provável candidato republicano, o ex-presidente Donald Trump, criticou as decisões de Biden sobre o tema, afirmando que a administração do democrata tem uma política de “portas abertas” para imigrantes.

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Segundo dados da agência de proteção de fronteiras dos EUA, os venezuelanos passaram os mexicanos na nacionalidade de imigrantes que mais tentaram cruzar a fronteira entre os EUA e o México em setembro do ano passado pela primeira vez.

Maduro e Biden anunciaram um acordo em outubro do ano passado para a repatriação direta de venezuelanos. Os cidadãos do país sul-americano que chegaram aos EUA antes do dia 31 de julho de 2023 e não tem um motivo legal para permanecer no país serão expulsos. Segundo dados da ONU, existem cerca de 7,7 milhões de refugiados venezuelanos que deixaram o país em meio a piora da situação econômica e a escalada autoritária do ditador Nicolás Maduro.

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, discursa após marcha para comemorar o 32º aniversário do fracassado golpe de Estado liderado por Hugo Chávez. Sete anos depois, por meio de eleições, Chávez chegou ao poder e estabeleceu a chamada 'revolução bolivariana'  Foto: Rayner Peña / EFE

O democrata também optou por iniciar um diálogo para a construção de eleições livres e justas na Venezuela em 2024. Washington apoiou um acordo entre o governo de Maduro e a oposição venezuelana que foi costurado em outubro de 2023 para que eleições livres e justas ocorressem em 2024. O compromisso entre as duas partes ficou conhecido como acordo de Barbados por ter sido assinado no país caribenho. A mediação foi feita pela Noruega e teria a participação de observadores internacionais. O acordo menciona permitir que todos os candidatos concorram “desde que cumpram os requisitos estabelecidos para participar da eleição presidencial, de acordo com os procedimentos estabelecidos na lei venezuelana”.

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“Biden acreditou que poderia ganhar dos dois lados ao negociar sobre a questão migratória e uma possível abertura para eleições livres na Venezuela”, avalia Poggio, do Berea College. “A preocupação com a questão venezuelana se transformou em um tema de política doméstica com a grande quantidade de cidadãos venezuelanos cruzando a fronteira com os EUA”, avalia o especialista. “O tema imigração será muito importante nas eleições americanas.”

Mesmo com o acordo de Barbados e a real possibilidade de um pleito mais aberto no país sul-americano, o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) confirmou no dia 26 de janeiro a proibição da presidenciável María Corina Machado de ocupar cargos públicos por 15 anos. A política venceu uma eleição primária dentro da oposição no ano passado e tinha a expectativa de participar do pleito. No final de janeiro, Washington optou por impor parte das sanções contra o regime de Maduro. Entre as medidas, a Casa Branca decidiu revogar autorizações para empresas americanas trabalharem na exploração de metais preciosos na Venezuela.

María Corina Machado, líder da oposição da Venezuela, discursa para apoiadores em um evento de campanha em Caracas, Venezuela  Foto: Jesus Vargas / AP

Para Geoff Ramsey, analista sênior do Atlantic Council, think tank com sede em Washington, e especialista em Venezuela, o governo de Biden não esperava que a candidatura de María Corina Machado fosse permitida. “Washington entendeu que Maria Corina nunca conseguiria a permissão para concorrer, então o governo Biden tentou focar em questões técnicas eleitorais como a presença de observadores no pleito, ao invés de quem seria o líder da oposição contra Maduro”. Ele não considera que o governo Biden cometeu um erro ao negociar com o ditador venezuelano.

O especialista em Venezuela aponta que este será um desafio para a oposição venezuelana, que deve escolher um novo nome para disputar o pleito contra Maduro. “O acordo de Barbados nunca afirmou que María Corina poderia concorrer, o acordo abriu um caminho para a oposição concorrer e isso vai acontecer. María Corina precisa apontar uma pessoa para concorrer em seu lugar, se ela continuar insistindo que vai concorrer mesmo estando inelegível, então a oposição vai rachar e isso será um mal sinal para as eleições”, completa Ramsey.

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Ucrânia

O governo Biden vem apoiando a Ucrânia desde fevereiro de 2022, quando tropas russas invadiram o território de Kiev, mas atualmente está com um pacote de ajuda financeira ao país travado no Congresso. Desde as eleições de meio de mandato, em novembro de 2022, o Partido Republicano comanda a Câmara dos Deputados, enquanto o Senado fica com os democratas.

Após um consenso bipartidário no começo da guerra sobre a ajuda à Ucrânia, a opinião dentro do Partido Republicano foi se inclinando contra o suporte a Kiev, principalmente por conta dos poucos avanços da contraofensiva ucraniana, que contou com soldados treinados pela Otan e uma grande quantidade de armamentos fornecidos pelo Ocidente. O provável candidato republicano à Casa Branca, Donald Trump, já se manifestou contra o apoio militar e econômico a Kiev. Além disso, Trump já deu diversas declarações simpáticas ao líder russo, Vladimir Putin.

Segundo dados do Instituto Kiel para a Economia Mundial, baseado em Kiel, na Alemanha, Washington enviou US$75 bilhões em ajuda econômica e militar para a Ucrânia.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, conversa com o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, na Casa Branca, em Washington  Foto: Doug Mills / NYT

Sem um acordo com o Congresso para aprovar um pacote financeiro para a Ucrânia, os EUA podem ficar sem recursos para enviar dinheiro e armamentos a Kiev. Os democratas insistem na necessidade de que sem o apoio americano, a Ucrânia deve perder a guerra contra a Rússia e seria contra os interesses da Otan.

No Senado, que tem maioria democrata, legisladores do partido de Biden e republicanos tendem a dialogar melhor e conseguiram aprovar um pacote de ajuda a Ucrânia e Israel na terça-feira, 13. A casa legislativa aprovou um montante de US$ 95,3 bilhões para Ucrânia, Israel e Taiwan. Contudo, a ajuda financeira a Kiev deve ficar travada na Câmara dos Deputados.

O presidente da Câmara dos Deputados, Mike Johnson, que é um dos republicanos mais céticos em relação à ajuda americana à Ucrânia, já havia afirmado que era contra o projeto de lei e condiciona mudanças no pacote em relação a fronteira a liberação da ajuda financeira para Kiev.

O presidente da Câmara dos Deputados doa EUA, Mike Johnson, participa de uma coletiva de imprensa em Washington, Estados Unidos  Foto: J. Scott Applewhite / AP

Israel

Se quando o tema é Ucrânia o governo Biden tem dificuldade em negociar com a oposição, as críticas ao seu apoio a Israel vem principalmente de sua própria base, das alas mais progressistas do Partido Democrata e da comunidade árabe americana, que tende a votar na legenda de Joe Biden.

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A administração democrata vem apoiando a ofensiva israelense na Faixa de Gaza após a guerra que começou no dia 7 de outubro, quando terroristas do Hamas invadiram o território israelense e mataram 1.200 pessoas. As Forças de Defesa de Israel (FDI) iniciaram uma ofensiva no enclave palestino, com bombardeios aéreos e invasão terrestre. Segundo o ministério da Saúde de Gaza, que é controlado pelo Hamas, 27 mil palestinos morreram desde o início da guerra.

Washington ressaltou em diversas oportunidades que Tel-Aviv tem o direito de se defender e que não iria pedir que Israel aceitasse um cessar-fogo porque esta medida só beneficiaria o grupo terrorista Hamas. Apesar do apoio a Israel, a administração Biden tem pressionado o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu a permitir o aumento de ajuda humanitária ao enclave palestino e a trabalhar para a criação de um Estado palestino no futuro, um passo que a coalizão de extrema direita de Netanyahu não está disposta a tomar.

“A ala progressista e a comunidade árabe americana questionam o apoio incondicional de Biden a ofensiva militar de Israel em Gaza e pressionam por um cessar-fogo”, aponta a professora de relações internacionais da Unifesp, Cristina Pecequilo. Por outro lado, o governo Biden é criticado por setores mais conservadores da comunidade judaica por pressionar Netanyahu e questionar as ações de colonos judeus na Cisjordânia, segundo a especialista.

A administração do democrata tem falhado em convencer os israelenses a iniciarem uma negociação sobre o futuro da Faixa de Gaza após a guerra contra o grupo terrorista Hamas. O secretário de Estado americano, Antony Blinken, já mencionou a possibilidade de uma Autoridade Palestina “revitalizada” governar o enclave palestino, mas o primeiro-ministro Netanyahu ressaltou que esta possibilidade seria negativa para a segurança de Israel e mencionou que Tel-Aviv poderia se responsabilizar pela segurança do enclave por tempo indeterminado.

Membros da coalizão de extrema direita israelense como o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, já ressaltaram a possibilidade de criar assentamentos israelenses em Gaza, como ocorreu até 2005, quando Israel retirou todos os cidadãos israelenses do enclave palestino.

O governo Biden trabalhava para que Israel e Arábia Saudita formalizassem um acordo de relações diplomáticas antes do ataque do Hamas, no dia 7 de outubro, o que seria uma grande vitória diplomática para a administração democrata. Contudo, Riad ressaltou que só terá relações diplomáticas com Tel-Aviv após a criação de um Estado palestino.

O ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump participa de um evento de campanha de Des Moines, Iowa  Foto: Doug Mills/ NYT
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