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Análise|Vision Pro: Óculos de R$ 17,5 mil da Apple impressiona, mas ainda parece inacabado; veja teste

Produto oferece nova possibilidade de computação, com janelas de tamanho infinito e imersão total. Mas ainda é pesado, incômodo e caro — muito caro

Foto do author Guilherme Guerra
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ENVIADO ESPECIAL A AUSTIN (EUA) - Acostumada a exageros, as empresas de tecnologia costumam vender seus produtos e serviços como se sempre fossem revolucionários. De fato, alguns poucos o são, como o sistema operacional Windows (1984), o iPhone (em 2007) e, já se pode dizer, o ChatGPT (em 2022). Do outro lado, outros apareceram como o futuro, mas foram um fracasso, como o Windows Phone (2010) e o Google Glass (2014).

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Uma nova revolução na tecnologia pode estar para começar com os óculos Vision Pro, criados pela Apple com a promessa de inaugurar a computação espacial, na qual olhos e mãos controlam a interface da tela em imersão total ou parcial — aqui, nada de mouses (como nos PCs) ou de telas sensíveis ao toque (como nos smartphones). Mas esse salto prometido, hoje, ainda é difícil de cravar.

As vendas acontecem desde 2 de fevereiro somente nos Estados Unidos, a partir de exorbitantes US$ 3,5 mil, equivalentes a R$ 17,5 mil. Por se tratar de uma categoria nova de produtos, o preço é alto até para os padrões de uma companhia que vende celulares a até R$ 14 mil. Mais países devem receber os óculos ao longo deste ano, em lançamento controlado e gradual pelo mundo.

Como forma de atiçar a curiosidade do cliente e convencê-lo da compra, a Apple permite agendar sessões de demonstração do Vision Pro em suas lojas próprias. E foi o que fiz quando estive em Austin, capital do Estado americano do Texas, durante o South by Southwest (SXSW) 2024, festival de inovação, música e cinema que ocorreu entre 8 e 16 de março.

Como foi testar o Vision Pro

A sessão com a Apple é altamente controlada, claro. Em toda a demonstração, há um funcionário muito simpático e bem treinado para guiar o ajuste dos óculos à cabeça, configurar o dispositivo e ensinar a como usar os aplicativos novos. Mas o cliente é proibido de seguir o próprio roteiro. Ou seja, esses 20 minutos não são a mesma coisa que uma avaliação com calma e sem representantes da empresa em volta, como geralmente se faz no Estadão - não foi possível, por exemplo, testar a autonomia da bateria e nem a ergonomia do componente, que parece uma bateria externa “pendurada” para fora dos óculos. Esta, portanto, é uma avaliação rápida e não-definitiva, digamos assim, dos óculos Vision Pro.

Óculos Vision Pro impressionam, mas produto é pesado e caro Foto: Acervo Pessoal/Guilherme Guerra

O ajuste dos óculos ao rosto é bastante engenhoso. Todo o processo de mapeamento do tamanho da cabeça do cliente é feito pelas câmeras do iPhone, que pede ao usuário para mover o rosto em movimentos circulares. Só então é trazido um Vision Pro ajustável para cada indivíduo. Ainda assim, a regulagem é finalizada pela própria pessoa com a ajuda de tiras e um botão lateral. Isso pode levar poucos minutos, o que é bom.

Outra etapa é o rastreamento de íris. Com os óculos devidamente ajustados, o sistema pede que a pessoa olhe para diversos pontos do visor. Isso serve para configurar o que vai vir a ser uma das principais maneiras de interação entre o usuário e a máquina: o rastreamento ocular. Com ele, é possível utilizar o próprio olhar como o “mouse”, selecionando o que vai aparecer na computação.

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Para “clicar” nas coisas selecionadas pelo olho, a Apple adicionou diversas câmeras à base dos óculos, que estão a todo momento acompanhando os movimentos das mãos dos usuários. Gestos de pinça com os dedos indicador e polegar, por exemplo, significam clicar. Para expandir uma janela, basta fazer duas pinças com as mãos e “esticar” a janela imaginária no ar.

O rastreamento ocular, junto das mãos, tornam a navegação do Vision Pro bastante futurista e intuitiva. Embora pareça coisa de filme de ficção-científica, essa maneira de interagir com a máquina é bastante simples de compreender e fácil de se adaptar. Mais um ponto para a Apple.

Apple aposta que Vision Pro vai inaugurar a era da 'computação espacial', onde olhos e mãos ajudam a navegar pela interface do dispositivo Foto: Divulgação/Apple

Vale dizer: a demonstração não me deixou testar o teclado “virtual” do Vision Pro, que projeta no visor um teclado e permite que o usuário digite “no ar”. Para as pessoas que testaram o aparelho, esse recurso é criticado por ser um confuso, já que não há botões físicos na digitação.

Tela e aplicativos

A demonstração da Apple passou pelos principais aplicativos do Vision Pro, com a intenção de mostrar o que os óculos são capazes de fazer.

Primeiro, é possível regular o visor do Vision Pro para apresentar o mundo real, com transparência, ou escolher uma imagem de fundo para colocar o usuário em imersão total. Para cuidar dessa função, uma coroa digital, similar ao botão principal do Apple Watch, foi adicionada ao topo do aparelho.

O Vision Pro cumpre muito bem essa tarefa de ser um dispositivo de computação espacial

Os óculos entendem o mundo ao redor do usuário. Isso significa que é possível posicionar aplicativos e janelas do navegador Safari em meio ao espaço onde está o usuário. Essa é a definição de computação espacial, que une as tecnologias de inteligência artificial (IA), realidade virtual (RV), realidade aumentada e dezenas de sensores para realizar essa façanha.

O Vision Pro cumpre muito bem essa tarefa de ser um dispositivo de computação espacial. É bem legal posicionar janelas e aplicativos lado a lado, virar o rosto e, de repente, estar em outro tipo de navegação, com a exibição de um filme, por exemplo. Ao voltar a cabeça para a posição anterior, tudo está lá como foi deixado.

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Outro recurso bacana são as fotos e vídeos espaciais. Tanto o Vision Pro quanto modelos mais recentes do iPhone são capazes de capturar imagens tridimensionais de pessoas e objetos. Os resultados são ainda mais realistas do o que estamos acostumados, com objetos em primeiro plano mais “próximos” do usuário e o campo de profundidade, mais distante. É uma nova forma de experimentar memórias, que se torna mais intimista.

Outra demonstração foi uma apresentação da cantora americana Alicia Keys, cujo vídeo estava no formato espacial. A artista aparecia cantando com um microfone em mãos logo no primeiro plano, como se estivesse de frente para a plateia — que é o usuário, nesse caso. Essa é uma experiência bem legal para vivenciar concertos, e teria sido um divisor de águas durante a pandemia de covid-19, por exemplo, quando estávamos todos isolados em casa.

Também foi possível assistir a trechos de Avatar 2: O Caminho da Água (2022), filme mais recente de James Cameron. Além da qualidade da imagem oferecida pelo Vision Pro (superior a 4K), os óculos permitem redimensionar a “tela” do filme conforme o gosto do usuário: algo pequeno, para ser assistido lado a lado com uma janela; ou algo imenso, maior que uma televisão de 60 polegadas e digno de cinemão.

Em todas essas experiências, o áudio dos óculos era potente, mas sem ser muito incômodo. Era possível ouvir o ambiente externo, se o volume estivesse regulado o suficiente, ou entrar na imersão total ao aumentar o som. A Apple também diz que é possível conectar fones Bluetooth ao aparelho.

Óculos Vision Pro, da Apple, permitem navegar na web com olhos e mãos e assistir a filmes em telas infinitas Foto: Guilherme Guerra/Estadão - 8/3/2024

Conclusões

É preciso adiantar que, ao encerrar a demo, saí com gostinho de “quero mais”. Gostaria de ter passado mais tempo para brincar com o produto, embora sem saber o que eu gostaria de fazer. Como uma criança, eu queria fuçar e apertar o maior número possível de botões e navegar pelo maior número possível de apps. Ponto para o roteiro criado pela Apple, mas também para o próprio produto, que é de fato muito bom.

Se essa vai ser a próxima etapa na computação, que vai se tornar espacial, ainda não está claro. A ideia de ter janelas com tamanho infinito e redimensioná-las no espaço físico é impressionante e significa um avanço imenso em relação à dimensão limitada das telas que temos hoje. O conceito já existe e é fácil reconhecer seu valor.

No entanto, o problema está no dispositivo em si. Esta edição inaugural do Vision Pro, apresentada em 2024, é pesada, consegue ser incômoda ao rosto e cansa a vista rapidamente. Em alguns momentos, parece um produto inacabado, como se a Apple estivesse apontando para onde quer ir — e não que já chegou lá.

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A título de comparação, o iPhone nasceu bastante completo e com objetivos definidos (navegar na web, ouvir músicas e realizar chamadas) — as atualizações recebidas nos anos seguintes (loja de aplicativos, saltos nas câmeras, biometria e inteligência artificial) apenas aperfeiçoaram um produto que já nasceu bom.

Esse não parece ser o caso do Vision Pro, que se assemelha mais ao Apple Watch, o relógio inteligente lançado em 2014 e que, somente anos depois, se tornou um dispositivo focado em saúde. Usuários, e a própria empresa, foram descobrindo aos poucos no que o smartwatch poderia se tornar.

Especialistas do mercado apontam que novas versões do Vision Pro devem sair nos próximos dois anos. No futuro, dizem eles, esses óculos devem ser mais leves, com maior bateria e com utilidades mais bem definidas — como fazer fotografias e vídeos. Uma nova versão de preço menor deve ser lançada, sendo menos “pro”. Enquanto isso, aplicativos são desenvolvidos para atrair mais usuários ao novo nicho.

No fim, é como se a própria Apple insinuasse: “Estamos aprimorando o produto. Espere um pouco até lá”. Então, por que se arriscar num protótipo de US$ 3,5 mil?

*Repórter viajou para o festival South by Southwest (SXSW) 2024 a convite do Itaú

Análise por Guilherme Guerra
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